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"Serves para amigo"

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Há uns meses, nos comentários, o muy-estimado leitor Lobo Malhado disse uma coisa que me ficou na cabeça. Era algo acerca de receber a resposta “não temos muito em comum mas serves para amigo”, após a qual se seguia normalmente a outra pessoa começar a “andar” com alguém com quem ainda tinha menos em comum.

Isto deixou-me a pensar em todas as circunstâncias em que eu até gostava de ter recebido essa resposta porque, pelo menos, seria algo tangível e possível de processar emocionalmente. Deixou-me também com vontade de escrever acerca da “friend-zone”. Acho que não há uma expressão portuguesa equivalente, mas essencialmente é a maneira de descrever em inglês o momento a outra pessoa decide que servimos para amigo (sem que nós tenhamos necessariamente noção disso).

Friend-zone’ar alguém sem haver uma conversa acerca disso é, para mim, uma filha-da-putice egocêntrica do pior: sai-se com uma pessoa algumas vezes, talvez se fod* com essa pessoa algumas vezes também mas eventualmente, só uma das partes é que fica interessada e a parte que não está interessada decide qual vai ser a dinâmica da relação daí em diante sem qualquer consideração pelos sentimentos da outra pessoa ou sem sentir que é necessário haver uma conversa acerca disso. A rejeição é sempre lixada mas quando sabemos que estamos a ser rejeitados romanticamente, podemos pelo menos começar o trabalho emocional de seguir em frente e podemos decidir se realmente queremos uma amizade com essa pessoa porque podemos não querer. Sentirmos que esse poder de escolha nos é negado, é uma posição extremamente desconfortável porque sentimos (ou pelo menos eu sinto), que me foi negada a minha parte de controlo numa situação que não envolve só a outra pessoa. Uma parte grande do meu processo de seguir em frente pós Jamie-gate foi precisamente ter eu tomado a iniciativa relativamente a uma eventual amizade e sentir que tinha voltado a ganhar algum poder e que estava a fazer as coisas nos meus termos, em vez de ser empurrado para a Friend-Zone contra a minha vontade e numa altura que não era a altura a certa para mim. Hoje continuamos a falar, mas muito provavelmente temos significados diferentes para a palavra amigo, em que eu o vejo mais como um ‘conhecido’… como se costuma dizer dos Virgens, “Eu não guardo rancores, mas está aqui um portfolio de 1500 páginas de todas as pessoas que estão mortas para mim”… 

Friend-zone’ar alguém sem haver uma conversa acerca disso é, para mim, uma filha-da-putice egocêntrica do pior: 

Outro cenário possível (mais ou menos inverso a este), é quando um engate casual não acontece porque ambas as partes estão embrulhadas noutras situações mas decidem encontrar-se socialmente e tentar esta coisa da amizade.

Talvez essa amizade se vá desenvolvendo ao longo do tempo e de encontros sociais frequentes em que, talvez por não haver um primeiro capítulo sexual na história, as pessoas aproximam-se, conhecem-se e vão percebendo que gostam da companhia um do outro e continuam a sair mas sem nunca se migrar completamente para uma situação de amizade sem qualquer género de flirting. 

Esta situação assemelha-se a uma espécie de Tango lento em que cada um vai tentando perceber o terreno fora da Friend Zone e inevitavelmente surgem receios de ambas as partes de dar um próximo passo e se perder um amigo. Eu sou o género de pessoa que prefere arrepender-se de fazer/dizer do que ficar a remoer em coisas que devia ter feito ou dito e não fez por medo. Isso não quer dizer que vá entrar na conversa tipo bulldozer, mas também quer dizer que a maior parte das vezes me lixo porque eventualmente a outra parte entra em pânico e começa a retrair-se e, mais uma vez, não é a rejeição ou os sentimentos não correspondidos que me incomodam. É mesmo a resistência da outra pessoa a ter uma conversa adulta acerca daquilo que acabou de ouvir.

Durante muitos anos, fui o género de pessoa que tinha o péssimo hábito de adiar lidar com coisas emocionalmente difíceis de processar (efeitos secundários de ter crescido entre um lado da família demasiado emotivo, e outro lado para quem ‘emotions are for ugly people’, e posso dizer que esse adiamento é uma péssima ideia. O desconforto duma conversa difícil é passageiro. O “fedor” de merda mal resolvida a apodrecer numa caixa é bem mais complicado de se resolver e, inevitavelmente, alguém sai magoado ou desiludido.

Eu detesto citar ‘dating coaches’ porque acho a maior parte deles uma cambada de vendedores de Banha da Cobra que se aproveitam de pessoas em num estado de carência afectiva e vulnerabilidade (se calhar o Matthew Hussey é a excepção) mas quase todos dizem que “Quando alguém gosta mesmo de ti, tu sabes. Caso contrário ficas confuso” e é bem verdade. 

Mas acho que o pior é quando tu achas que sabes mas depois ficas confuso e olhas para a tua vida amorosa no último ano e te sentes naquele estado misto de confiança e confusão, tipo a Mariah Carey na performance de passagem de Ano 2016/17… (fica o vídeo para quem não conhecer o desastre.) 

 

R. J. Ripley

 

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