Nos últimos dias voltou a acender-se a polémica sobre educação sexual e diversidade em Portugal, impulsionado pelas críticas do CDS-PP ao programa infantil que passa na RTP2 “Sex Symbols”.
Como sabemos, os partidos de direita têm posições bastante reacionárias no que diz respeito a temas como o aborto, a eutanásia e, principalmente, assuntos ligados à comunidade LGBTQI+. Em 2010 o CDS votou contra o diploma que permitia o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nessa altura o CDS afirmou que “uma coisa é defender direitos entre pessoas do mesmo sexo e outra coisa é institucionalizar esses mesmos direitos através do casamento.” Tal como o CDS, o PSD também defendeu a ideia de que não seria necessário tornar este direito numa realidade, uma vez que, segundo Miguel Macedo, a lei dividia os portugueses e produzia “uma clivagem na sociedade portuguesa”.
Esta posição sobre temas considerados, pela direita, fraturantes manteve-se e passados quinze anos continuamos a assistir a polémicas construídas com o intuito claro de dificultar o acesso à informação e à educação, tão necessária nestes temas.
No passado dia 05 de Dezembro, Paulo Núncio, deputado do CDS-PP, apresentou-se na Assembleia da República, visivelmente indignado relativamente a um programa infantil, “Sex Symbols”. Disse tratar-se de “um programa absolutamente lamentável e que chocou e indignou muitas famílias portuguesas” e caracterizou o conteúdo como “pura propaganda de ideologia de género”, referindo-se especificamente ao recente episódio dedicado ao tema “Transgénero”, emitido no dia 16 de Novembro na RTP2. Chegou ao ponto de afirmar que “o CDS vai propor neste Parlamento um voto de protesto pela transmissão destes programas na RTP”.
O primeiro-ministro Luís Montenegro, mostrou-se solidário com esta indignação e quase lamentou não controlar a emissão da televisão pública, expressando que “lamento profundamente que o programa tenha sido emitido nos termos em que foi”.
Como estudante de jornalismo, fiquei curiosa relativamente a este programa. Queria saber qual era o motivo de tanta indignação que levou a que um deputado trouxesse desenhos animados para a Assembleia.
Ora bem, segundo o site da RTP que transmite este programa, o “Sex Symbols” é uma série de animação que aborda as mudanças físicas e a sexualidade na pré-adolescência. Tem como objectivo educar e esclarecer não só o público mais jovem, relativamente a temáticas da educação sexual, mas também ajuda a desmistificar conceitos. O programa conta já com vários episódios com temas que vão desde o cyberbulling e relações tóxicas, até ao que é ser transgénero. Este episódio específico, acompanha quatro amigos na descoberta sobre o seu corpo e identidade, algo que também é abordado na disciplina de educação sexual, agora eliminada do currículo escolar.
A meu ver, o programa em causa aborda de forma divertida e, mais importante, sem tabus, questões que muitos pré-adolescentes e adolescentes podem ter receio de fazer sob pena de serem julgados. Quando penso que a sociedade está a evoluir e estas temáticas têm vindo a ganhar espaço e lugar seguro para serem tratados, assistimos aos nossos representantes na Assembleia da República a prestar um serviço tão mau à sociedade e penso… que ainda existe um longo caminho a percorrer.
Debater género, sexualidade ou identidade não ameaça famílias — ameaça apenas preconceitos. E talvez seja essa a verdadeira razão pela qual alguns continuam tão incomodados.
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Catarina Santos


