Não sei se é coincidência ou se tenho andado inconscientemente à procura disto, mas ultimamente só tenho lido sobre sexo. Quer dizer, nunca é “só” sexo. Sexo, relações, afectos, intimidade, e todas as suas consequências.
Coincidência ou não, tem-me interessado descontruir, a partir deste tema, o guião patriarcal, eurocêntrico, monogâmico, cisheteronormativo que rege a forma como nos relacionamos emocional e fisicamente.
Todas estas leituras recentes têm sido fascinantes, mas nenhuma me rasgou as páginas desse guião com tanto entusiasmo como Sexografias, de Gabriela Wiener. E fê-lo, ao contrário das restantes, sem me dar qualquer justificação.
Sexografias é uma colecção de crónicas jornalísticas em que Wiener se coloca na boca do lobo para nos fazer entrar nos universos das mais variadas pessoas e as formas como encaram o sexo, umas mais bizarras do que outras.
Sexografias não perde muitas páginas a explicar ou a nomear, não apresenta definições complicadas sobre como deveria ser a troca carnal entre duas ou mais pessoas – mostra-nos antes, em detalhe, vários cenários possíveis.
Sexografias ri-se na minha cara quando me ouve a descrever com tanta altivez o tal guião do qual me quero livrar, com uma longa sequência de adjetivos pretensiosos, sem me aperceber de que, enquanto vou rasurando estas didascálias, vou escrevendo outras, não necessariamente menos limitantes.
Sexografias sabe que comecei este texto com uma tentativa de justificar o meu interesse por sexo como um mero acidente. Não me julga por isso, mas coloca-me um espelho à frente e deixa-me tirar as minhas próprias conclusões.
Sexografias excita-me, põe-me corada quando o leio em público, e faz-me rir de nervoso ao perceber o quão moralista, conservador e hostil pode ser o discurso progressista sobre o sexo, com o seu vocabulário impossível, as suas regras e caixinhas.
O que penso ao ler Sexografias é que, no sexo, ainda somos pequeninos. Ainda temos muito medo do que as nossas fantasias possam revelar sobre nós. Ainda nos custa sentir sem categorizar. Mas Wiener mostra-nos que na intimidade os valores são outros. Não há certo, errado, bom, mau. Há prazer para todos os envolvidos, ou não há.
E mostra-nos que às vezes – pasmem-se os intelectuais – sexo é sexo. E só.
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Editora: Antígona
Prólogo: Camila Sosa Villada
Tradução: Guilherme Pires
Ilustração da capa: Mariana Malhão
1.ª edição: Setembro 2025
Páginas: 216
ISBN 978-972-608-486-0
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Maria Kopke


