Este artigo de opinião é totalmente parcial, um olhar sobre o trajecto da actriz Sónia Martins e a minha eterna homenagem a uma Mulher que engrandeceu o Teatro – uma das artes maiores.
Sónia Martins faleceu a 7 de Setembro de 2025, vítima de uma neoplasia. Deixou esposa, família, amizades, companheiros de palco e um mar de gente desolada – pessoas que seguiram os seus passos no Teatro Animação de Setubal (TAS), cujos espectáculos encantaram as mais variadas idades.
A notícia da sua morte apanhou-me totalmente de surpresa. Tinhamo-nos cruzado num restaurante, meses antes, porém desconhecia que se encontrava doente e a Sónia havia desaparecido das redes sociais, onde, por vezes, trocávamos uma ou outra ideia.
Façamos agora uma pausa para uma analepse.
Quando era adolescente, a minha avó paterna levou-me ao teatro. O actor José Nobre era seu vizinho e oferecera-lhe bilhetes para o espetáculo “Pássaros de asas cortadas,” de Luís Francisco Rebello, que havia estreado em 1958. O papel representado por Sónia Martins deixou em mim uma impressão muito marcante, sendo que a sua voz penetrou profundamente no meu íntimo e me levou a reflectir por semanas a fio. Entendi a mensagem que a história transmitia porque a Sónia, com o seu magnetismo peculiar, cativava-nos e jamais desprendíamos os olhos dela. Como disse Miguel Assis:
“Tinhas um foco só teu, (…) se estivéssemos trinta pessoas em palco e tu estivesses atrás de todos, mesmo assim era para ti que toda a gente olhava, não eras a mais alta, nem a mais bonita, mas sem nenhuma dúvida que eras a mais impactante (SIC).”
Em 1996, o que eu não sabia era que aquela era a peça de estreia de Sónia Martins e que o presidente Jorge Sampaio havia estado presente no dia em que o espectáculo estreou. Isso só vim a descobrir mais tarde, numa troca de mensagens com a Sónia, que orgulhosamente me enviou fotos dos recortes de jornais que a mãe guardara.
Para quem, como eu, é de Setúbal, com certeza conhece o TAS e se estudou na cidade, provavelmente assistiu a algum espectáculo. Entre a geração nascida nos anos 80, muitas das minhas colegas suspiravam pelo Miguel Assis, outras invejavam o talento da Sónia Martins (nascida em 1971). Eu estava sempre incluída nessas conversas sumarenta, principalmente quando, no ensino secundário, escolhi a disciplina de OED (Oficina de Expressão Dramática) e pedia constantemente bilhetes à professora Isabel Ganilho, que fazia parte da mesma companhia de teatro .
– Setôra, o Miguel e a Sónia entram nesta?
Eram uma dupla imbatível, tratando-se de drama ou comédia, só rivalizando com aqueles pares de telenovela, que nos faziam torcer para que ficassem juntos para sempre. Era assim que eu os via, a Márcia dos seus 15 anos, que queria seguir as pegadas daquela parelha e, de alguma forma, abanar Setúbal. Por outro lado, quando Sónia ou Miguel passavam por perto, nunca lhes dizia nada, pois não ousava furar a áurea que os protegia de comentários lisonjeiros.

Anos volvidos, libertei-me do armário que me sufocava, porém, na altura, faltavam-me referências. A Sónia era uma, apesar de não nos conhecermos pessoalmente. Certa vez, saí do trabalho e fui ter com a minha namorada. Em 2007/08 o “Heaven” era um dos únicos bares inclusivos e, apesar de se encontrar praticamente vazio, numa sexta-feira à noite, reparei que a Sónia Martins estava ao balcão. Por nos ver a dançar numa pista vazia, veio ter connosco, deu-nos os parabéns por escolhermos a liberdade de dançar, apesar de não termos mais companhia. Conversámos um pouco, contudo não acredito que ela soubesse que o meu coração batia de admiração pelo seu magnífico talento.
Passámos a cruzar-nos mais vezes. Tínhamos amigas em comum, falava-se de política, da sociedade, do teatro, de relações amorosas e as nossas vidas, naqueles breves instantes, cruzavam-se levemente. A 14 de Setembro de 2019, fui ver um espetáculo sobre Bocage, trocámos algumas palavras à saída e, mais uma vez, referi o espetáculo que viu Sónia Martins estrear-se de uma forma retumbante, no papel de Elsa, a protagonista, amante de um homem casado e irmã do Rodrigo, o irmão problemático, que atropela uma mulher e foge – retrato de uma família da alta burguesia lisboeta, no final dos anos 50.
Se a memória não me deixa ficar mal, a personagem Elsa tem um monólogo que refere mais ou menos o seguinte:
– Não, não nos fecharam numa gaiola, mas deixaram-nos assim, sem poder voar, como pássaros de asas cortadas (…).
Sónia Martins, amante da liberdade como sempre foste, apaixonada pela mais nobre das artes e apaixonante por natureza, jamais se escreverá um epitáfio que comporte os teus dons e mesuras. Viveste de asas bem abertas, contudo, como referiu o teu companheiro Miguel Assis, “jamais deverias ter saído do palco”. Por isso, com este modesto texto, procuro trazer-te um foco de luz e destacar a tua caminhada. De cada vez que pensamos em ti, regressas ao palco do fórum Luísa Todi e nós, secando as lágrimas, aplaudimos-te ininterruptamente, com flores caindo aos teus pés.
– São rosas, Senhora, são rosas.
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Márcia Lima Soares







