Terminou mais um Festival de Cinema Queer Lisboa. A designação de “queer” é polémica, na qual muitos indivíduos “LGBT” não se reveem, e que criticam. Esta designação é posterior à fundação do Festival, pois quando este Festival começou, e durante alguns anos, denominava-se: “Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa”. No entanto, não vamos aqui falar do conceito de “queer”, dado que não é aqui o lugar para isso, mas sim falar do próprio Festival.
Este Festival de cinema, embora continue a ser importante, já não tem tanto impacto como tinha dantes, isto é, o facto de se realizar já não é tão ousado como era há uns anos atrás, dado que nas salas de cinema de Portugal não havia filmes LGBT, ou havia muito poucos, enquanto actualmente, ao longo do ano, as salas de cinema de todo o país também exibem filmes LGBT, por isso agora o Festival de Cinema Queer de Lisboa, enquanto festival de temática LGBT, desperta menos atenção. Por outro lado, dantes não havia Festivais de Cinema em Lisboa (ou não havia quase nada), enquanto que agora há vários Festivais de Cinema em Lisboa, durante quase todo o ano (o Motel X, a Festa do Cinema Francês, a Festival de Cinema Italiano, o Festival de Cinema de expressão alemã, a Monstra, o Doc Lisboa, o Indie Lisboa, etc.), fazendo com que para uma boa parte do público, o Festival de Cinema Queer seja mais um, causando por isso menos impacto enquanto Festival de Cinema.
No entanto, há que salientar algumas diferenças importantes: enquanto os objectivos de muitos filmes das salas de cinema são principalmente comerciais, o objetivo do Festival de Cinema Queer por um lado é principalmente cultural, e por outro lado pretende dar visibilidade a uma “comunidade” historicamente (e ainda hoje) discriminada. Neste festival de cinema surgem histórias de amor e de erotismo, assim como documentários, de grande qualidade, que derrubam preconceitos e estereótipos sobre as pessoas LGBT.
O Festival de Cinema Queer é um dos mais longos dos Festivais de Cinema na cidade de Lisboa, por um lado porque é um dos que duram mais dias, e por outro lado porque tem muitos filmes, com várias sessões diárias, com uma grande variedade de temas. Há algumas conversas e debates, e exposições, e momentos de festa fora da sala de cinema. Há também uma banca de livros, embora seja de lamentar que um grande número desses livros não sejam livros LGBT, que as novidades editoriais LGBT tenham pouco destaque, e sobretudo, em comparação com o número de espectadores (cerca de oito mil este ano, segundo a organização), é de lamentar que haja tão pouca gente a comprar livros, mesmo que sejam livros LGBT.
No que diz respeito à qualidade dos filmes, esta é muito subjetiva de classificar, mas certamente que há excelentes filmes que mereciam estar na abertura e no encerramento do festival, e não exibidos noutros dias do Festival, e a meio da tarde, e que há filmes escolhidos para abrir e encerrar o Festival, que são de qualidade discutível, e por muitos considerada inferior. O mesmo se poderá dizer dos filmes vencedores, a quem os júris e o público atribuem a classificação. Há filmes que saem vencedores na classificação dada pelo público, mesmo havendo poucos a votarem. Certamente que se houvesse mais pessoas a votarem, sairiam vencedores outros filmes. Em comparação com o grande número de espectadores, há poucas pessoas a votarem nos filmes, por isso seria desejável que o público participasse mais, votando.
A afluência do público para ver os filmes é muito vasta, pois as salas nas sessões de abertura e de encerramento têm ficado sempre cheias, e nas outras sessões tem também havido muito público, o que é bastante positivo, podendo por isso dizer-se que este festival se tornou já uma referência importante dos eventos culturais da cidade de Lisboa, ao qual se deslocam também indivíduos que não são LGBT, devido ao seu interesse por cinema, independentemente dos seus conteúdos serem ou não LGBT.
No entanto, há que sublinhar que a afluência é quase toda de jovens. Sendo este um festival de cinema maioritariamente composto por público LGBT, onde estão os LGBT que já não são jovens ? Deixaram de ser gays ? deixaram de ser lésbicas ? Deixaram de ser bissexuais ? deixaram de ser “queer” ? Estão no armário ? Ou sentem-se pouco à vontade no meio de tantos jovens ? Será que os indivíduos do público actual, composto quase todo por jovens, quando forem mais velhos vão também deixar de ir a este Festival ? E será que a actual organização do Festival, daqui a uns anos composta por pessoas que já não serão jovens, também vai deixar de o organizar por já não serem jovens e não se sentirem à vontade devido à sua idade ? Este problema coloca-se também em relação a outros grandes eventos LGBT, nomeadamente o “Pride” (a marcha LGBT), que é composta quase só por jovens, e por muito poucas pessoas de meia idade, ou da terceira idade (a qual felizmente nos tempos de hoje se prolonga por mais anos), pessoas essas que faltam ao Festival de Cinema Queer, ou à marcha do “Pride”, mesmo estando bem de saúde e bem conservadas fisicamente. Existe em muitos indivíduos da opinião pública a ideia de que ser gay, lésbica, ou bissexual, é uma coisa passageira, que é algo que passa com a idade. A marcha Pride, e o Festival de Cinema Queer, enquanto eventos culturais e de defesa dos direitos LGBT, devia ser frequentada por diferentes níveis etários, mas infelizmente isso não acontece. Será que o lazer e as reivindicações só devem ser para os jovens ? Claro que não, mas estes eventos, assim como outros na cidade de Lisboa, infelizmente são frequentados quase só por jovens. As pessoas de todas as idades, sob pena de cairmos no idadismo (a discriminação por idade), deviam também afirmar-se e estarem mais presentes. Isto não é nenhuma crítica à organização desses eventos, que é alheia a quem se desloca aos mesmos, mas sim às próprias pessoas que não vão a esses eventos, ou que iam mas deixaram de ir.
Será também devido ao facto de hoje serem mais velhos, que muitos notáveis LGBT, isto é, que muitos históricos LGBT em Portugal (indivíduos que se notabilizaram na defesa da causa LGBT em Portugal, ex fundadores e líderes de associações LGBT, ex activistas, indivíduos que deram a sua voz e a sua cara, académicos, etc.), que iam a este festival, deixaram de o frequentar ? Será que consideram que este festival já não tem interesse ? Será por rivalidade ? Será que consideram que só a voz deles e as coisas que fizeram eram importantes ? Devia haver mais fraternidade e um encontro mais intergeracional. Temos todos a aprender uns com os outros, os mais jovens com os mais velhos, e os mais velhos com os mais jovens.
Victor Correia


