Novembro é um mês de memória, mas também de luta. Entre os dias 13 e 19 de Novembro, decorre a Semana da Consciência Trans, culminando no Dia da Memória Trans, a 20 de Novembro, uma data que homenageia todas as pessoas trans e de género diverso que perderam a vida em consequência da transfobia. Mais do que uma efeméride, é um lembrete da urgência de se falar sobre aquilo que ainda fere, exclui e mata em silêncio.
Segundo o Trans Murder Monitoring Report 2024, da Transgender Europe (TGEU), 350 pessoas trans foram assassinadas em todo o mundo entre Outubro de 2023 e Setembro de 2024. Quase todas eram mulheres trans ou transfemininas, e a maioria pessoas racializadas. Estes números representam vidas — histórias interrompidas por uma violência que continua a atravessar fronteiras e a revelar como a transfobia se manifesta de forma estrutural.
Mesmo sem dados nacionais completos, sabemos que em Portugal a transfobia também existe — nas escolas, nos serviços de saúde, no mercado de trabalho e nas ruas. A Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA) revelou em 2024 que 74% dos estudantes LGBTIQ portugueses sofreram humilhações ou bullying nas escolas, e a ILGA Portugal registou 469 denúncias de incidentes discriminatórios entre 2020 e 2022. Estes números não são apenas estatísticos: traduzem sofrimento real, exclusão e a necessidade urgente de mudar mentalidades.
Como psicóloga, sei que a violência simbólica e social não se apaga do corpo nem da mente. Ela instala-se sob a forma de ansiedade, depressão, hipervigilância e vergonha — emoções moldadas pela rejeição. A transfobia internalizada é uma ferida emocional que nasce da repetição de mensagens de não pertença: o “não és suficiente”, o “não devias existir assim”, o “isso é só uma fase”. Estas feridas tornam-se, com o tempo, invisíveis, mas profundas, e transformam a sobrevivência num ato diário de resistência.
Mas ser trans não é apenas resistir — é também viver com verdade. E é aqui que entra o poder da visibilidade. Ser visto, ser reconhecido e ser nomeado correvtamente é, para muitas pessoas trans, um acto de autocuidado e dignidade. No entanto, essa visibilidade pode ser também um risco, num mundo que ainda reage com violência à diferença. É um paradoxo cruel: o que liberta é o mesmo que expõe. Por isso, a segurança e o apoio social são tão essenciais quanto a coragem individual.
As leis portuguesas avançaram, é certo. Desde 2018, com a Lei da Identidade de Género (Lei n.º 38/2018), é possível alterar o nome e o marcador de género sem diagnóstico médico. Ainda assim, a mudança legal não elimina as barreiras sociais. Falta sensibilização nas escolas, formação nos serviços públicos, políticas laborais inclusivas e sobretudo uma cultura de empatia que reconheça a humanidade antes do preconceito.
E é neste ponto que surge uma questão fundamental: qual é o papel de quem não é trans?
A luta trans não é exclusiva das pessoas trans. Cabe a todas as pessoas — cisgénero ou não — assumir uma posição de responsabilidade ética e emocional. Ser aliado não é apenas dizer “apoio-te”, é agir de forma consciente e consequente. É aprender a ouvir sem invalidar, é usar o privilégio da escuta para amplificar vozes, é intervir quando o silêncio seria cúmplice. É corrigir colegas, amigos e familiares quando reproduzem estereótipos. É respeitar pronomes, nomes e identidades sem questionar a legitimidade do outro.
Ser aliado é, sobretudo, abrir espaço. Não ocupar o lugar que não nos pertence, mas garantir que ele existe para quem precisa dele. É transformar a empatia em compromisso e a observação em ação. É reconhecer que a luta pela dignidade trans não é um favor — é uma questão de direitos humanos.
A mudança começa nas conversas do quotidiano, nas escolas, nos consultórios, nas redes sociais e nos espaços de trabalho. Começa quando deixamos de tratar a diversidade como exceção e passamos a vê-la como parte daquilo que nos torna humanos. Porque o preconceito não é inevitável — é aprendido. E tudo o que é aprendido pode ser desaprendido.
O Dia da Memória Trans não é apenas uma data de luto. É um convite à reflexão e à responsabilidade coletiva. Cada nome lembrado é uma história que não deve ser esquecida; cada vela acesa é uma promessa de não repetir a indiferença.
No fundo, a memória é uma forma de amor. E amar, neste contexto, é lutar por um mundo onde a autenticidade não custe a vida de ninguém. Que este novembro nos lembre disso: que a visibilidade é um acto de coragem, mas um direito. Que a empatia é o primeiro passo da mudança. E que, enquanto houver vozes a quem é negado o direito de existir plenamente, o silêncio nunca poderá ser a resposta.
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Fontes:
Transgender Europe (TGEU) – Trans Murder Monitoring Report 2024 ILGA Portugal – Relatório Anual 2022–2024
Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA) – LGBTIQ Survey II (2024)
Lei n.º 38/2018, de 7 de agosto — Lei da Identidade de Généro.
Letícia David, Psicóloga


