a saber,  opinião

Vamos falar sobre sexo?



O Governo da AD decidiu que a educação sexual será removida da disciplina de Cidadania. A decisão não surpreende, tendo em conta o percurso já feito por este mandato. Mesmo assim, indigna.

Porque, num país onde as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) crescem a olhos vistos, só a gonorreia aumentou 80% num único ano, segundo o Relatório das Doenças de Declaração Obrigatória, o Governo escolhe o silêncio e a cegueira ideológica que nos afasta de respostas e soluções baseada na ciência. Opta por esconder em vez de educar. Retira conhecimento aos jovens numa altura em que nunca foi tão necessário.

E não estamos a falar de números irrelevantes. Em Portugal, os casos de clamídia aumentaram 65% em 2023. As infecções por sífilis mais do que duplicaram na última década. Em média, é diagnosticada uma nova infecção sexualmente transmissível a cada hora no nosso país.

​Mais grave ainda: 1 em cada 3 jovens portugueses não sabe identificar os sintomas de uma IST. Mais de 40% desconhece formas básicas de prevenção. E cerca de metade admite nunca ter falado de sexualidade com professores ou profissionais de saúde. Dados do próprio Ministério da Saúde.

​O medo da palavra “sexo” e da realidade da diversidade sexual continua a vencer o bom senso e a ciência. Retirar esta matéria das escolas é ignorar dados, estatísticas e, sobretudo, é falhar às pessoas.

A educação sexual nunca foi apenas sobre sexo. É sobre saúde pública. Sobre prevenção. Sobre respeito. Sobre liberdade. Sem ela, aumentam as gravidezes não planeadas, agravam-se as infecções, expande-se o preconceito. Quem paga o preço? Os jovens. As mulheres. A comunidade LGBTQIA+. Todos os que, silenciados nas escolas, procurarão respostas onde encontrarem. Muitas vezes na desinformação online ou em conversas cheias de mitos.

Esta decisão não protege ninguém. Reforça o estigma. Alimenta o medo.  A Educação sexual não é um luxo. Não é uma “ideologia”. É um direito. Retirá-la das escolas é um acto de violência institucional. 

Pergunto-me onde é que estão os militantes da direita mais moderada que a AD vendeu no período eleitoral. Isto não me incomoda a mim por ser extremista, certo? Pergunto então: quando temos um Governo que ainda não fez mais nada para além de governar pelo voto de quem escolheu a extrema-direita nas eleições, o que fazemos? Continuamos a fingir que está tudo bem?

João Miguel Miranda