Virginia Woolf (1882 – 1941), a célebre escritora e editora, e Leonard Woolf, também ele escritor e editor (os dois chegaram a fundar uma editora, a Hogarth Press), foram casados durante vinte e nove anos. É verdade que tiveram um casamento sem paixão, sem desejo erótico, porém, baseado no amor, no afecto, no companheirismo, na cumplicidade, no apoio, na proteção e no estímulo mútuos. Quando Virginia se suicidou no rio Ouse, a 28 de Março de 1941, em plena II Guerra Mundial, deixou uma carta ao marido, reconhecendo: «Não creio que dois seres pudessem ser mais felizes do que nós o fomos».
Vita Sackville-West (1892 – 1962), escritora, poetisa e paisagista (era apaixonada por jardinagem, paixão que, diga-se de passagem, acabaria por lhe render mais fama que a sua obra literária), foi casada durante quarenta e nove anos com o diplomata, jornalista, político e escritor, Harold Nicolson, filho do 1º barão de Carnock. Vita e o marido, tal como ela homossexual, tiveram, ao longo da vida, diversas relações com outras pessoas, mantendo um «casamento aberto», de conveniência, que, apesar de ter afetado, nunca destruiu a forte e sólida relação entre os dois.
As duas escritoras inglesas, de personalidades marcantes, casadas com homens dedicados que as tratavam com imensa dedicação e carinho, amando, à sua maneira, os seus maridos, e não abrindo mão destes, não se impediram, todavia, ao longo dos seus casamentos, de terem tido casos e relações com mulheres. Inclusive, uma com a outra.
Quando se conheceram, num jantar a 15 de Dezembro de 1922, era já Virginia, caso pouco comum à época para uma mulher, uma escritora de sucesso, com o seu estilo literário de vanguarda, classificada como «modernista». Descendente de uma família da alta sociedade londrina, possuidora de uma esmerada educação, feminista, muito avant-garde, Virginia conquistara o seu espaço junto dos artistas, escritores e intelectuais, quase todos homens, da sua geração, sobretudo o famigerado Bloomsbury Group.
Por sua vez, Vita, de origens aristocratas – era filha dos barões de Sackville, era uma mulher culta, exuberante, muito viajada: uma socialite com uma vida muito intensa.
Nesse primeiro encontro, em casa da irmã de Virginia, Vanessa Bell, pintora, e do cunhado Clive Bell, crítico de arte, Vita ficou imediatamente rendida perante a personalidade, a sensibilidade, a inteligência e o génio de Virginia. Já Virginia, tendo ficado intensamente impressionada com a presença de Vita e interessada em conhecê-la melhor, ficou com uma opinião dividida sobre esta.
Virginia escreveu no seu Diário: «Tenho a cabeça demasiado baralhada para discernir seja o que for. Em parte, é o resultado de ter jantado ontem à noite em casa de Clive, para conhecer a bonita e prendada aristocrata Sackville-West. Não é muito ao meu gosto exigente – vistosa, com bigode, colorida como um periquito, com toda a descontraída desenvoltura da aristocracia, mas sem o estro do artista. Escreve quinze páginas por dia –terminou outro livro – a sua editora é a Heinemann – conhece toda a gente. Mas conseguirei conhecê-la? Fiquei de ir lá jantar na terça-feira. Os modos aristocráticos são idênticos aos de uma actriz – sem falsa timidez ou falsa modéstia –, fazem-me sentir virgem, tímida, menina de escola. No entanto, depois do jantar disparei opiniões. Ela é uma granadeira: dura; bem-parecida; varonil; com tendência para o duplo queixo.»
Passados quatro dias, Vita enviou uma carta para o marido, entusiasmadíssima: «Simplesmente, adoro Virginia Woolf, e tu também a adorarias. Ficarias rendido ao seu encanto e à sua personalidade. Foi um óptimo convívio. Fizeram muitas perguntas sobre o teu Tennyson [biografia que Harold tinha acabado de escrever sobre o poeta Alfred Tennyson]. Mrs Woolf é tão simples: dá de facto a impressão de algo grandioso. É absolutamente genuína: não usa quaisquer adornos exteriores – veste-se de modo atroz. A princípio pensamos que não tem atrativos; depois, uma espécie de beleza espiritual impõe-se-nos, e sentimos o fascínio de a observar. Estava mais elegante ontem à noite; isto é, as meias de lã cor-de-laranja foram substituídas por outras de seda amarela, mas continuava a usar os escarpins [sapatos que deixam os calcanhares a descoberto]. É ao mesmo tempo reservada e humana, silenciosa até querer dizer alguma coisa, e então di-la supremamente bem. É bastante velha. Raramente simpatizei tanto com alguém, e penso que ela gosta de mim. Pelo menos convidou-me para ir a Richmond, onde vive. Querido, apaixonei-me perdidamente.»
Apesar das diferenças: Vita era dez anos mais nova que Virginia; Vita tinha dois filhos, enquanto Virginia nunca deixou descendência; Vita era enérgica, curiosa, vivaz, alegre, confiante: um ser do mundo, ao passo que Virginia era ensimesmada, misantropa, melancólica e depressiva: vivia no seu próprio mundo; Vita era uma mulher fogosa, sexual, e Virginia era fria, distante, sexualmente muito «apagada», gostando mais das pessoas, segundo Vita, «com a cabeça do que com o coração»; desde essa noite em que se conheceram, nunca mais se separaram.
Pese embora as longas interrupções na sua relação pessoal – dado Vita ter de acompanhar o marido, diplomata, nas suas deslocações pelo mundo, o facto de viverem longe uma da outra e terem tido fases de maior proximidade e fases de maior afastamento, as duas mulheres mantiveram uma relação afectivo-sexual, de amizade, companheirismo, colaboração literária, partilha e confidência, com troca de centenas de cartas poéticas e apaixonadas durante quase vinte anos, até ao suicídio de Virginia em 1941.
Aos poucos, Virginia foi-se habituando de tal modo a Vita que já não passava sem a sua presença: «Tenho andado sem ânimo; senti a tua falta. Sinto a tua falta. Sentirei a tua falta. E, se não acreditas, és um mocho orelhudo e um asno. Frases bonitas?» Quatro anos depois de se terem conhecido, a 20 de Maio de 1926, escreveu no seu Diário: «Vita vem almoçar amanhã, o que será um grande divertimento e prazer. Divertem-me as minhas relações com ela: ficaram tão ardentes em janeiro – e agora, como é? Também me agrada a sua presença e a sua beleza. Estou enamorada dela? Mas o que é o amor? Ela estar “enamorada” de mim excita e lisonjeia; e interessa. O que é este “amor”? Ah, e depois ela satisfaz a minha eterna curiosidade: com quem se encontrou, o que é que fez – pois não tenho uma opinião elevada da poesia dela. Devia ter-me dedicado a ler o seu poema esta noite.»
De tal modo, que o romance semiautobiográfico de Virginia Woolf, “Orlando – Uma Biografia” (1928), foi inspirado na relação entre as duas escritoras – muitos anos mais tarde, o filho de Vita Sackville-West, Nigel Nicolson, autor de um livro sobre a pouco convencional relação dos seus pais, “Retrato de um casamento” (1973), viria a descrever este romance como «a mais longa e mais encantadora carta de amor de toda a literatura».
Virginia, sentindo-se muito amada por Vita, inicialmente teve dificuldades em soltar-se e desfrutar das relações sexuais com a amante (ao que não seria alheio o facto de ter sido abusada sexualmente durante a infância pelos seus dois meios-irmãos e de ter tido, suspeita-se, uma relação incestuosa com o próprio pai). De resto, inúmeros biógrafos evocam estes traumas vividos com homens para explicar a sua fraca apetência para a heterossexualidade…
As duas ter-se-ão relacionado sexualmente, contudo de modo esporádico, e nem sempre de forma bem-sucedida. Virginia nunca o relatou a ninguém (nem sequer no seu Diário), mas Vita confidenciou a Harold (seu marido) que, embora tivessem dormido juntas, umas quantas vezes, o relacionamento entre as duas era baseado sobretudo numa grande admiração, numa profunda afeição e num íntimo companheirismo.
O bloqueio por parte de Virginia era tão forte, que a 1 de Janeiro de 1929, sensivelmente três anos depois de se terem conhecido, ainda não se tinham relacionado sexualmente. Vita escreveu ao marido Harold, relatando-lhe um episódio passado na noite dessa passagem de ano: «Clive [o cunhado de Virginia, Clive Bell] e a sua língua afiada, imagina o meu horror quando ele de repente disse: “Não sei se hei de atrever-me a fazer uma pergunta muito indiscreta a Vita”, e eu, inocente e desprevenida, disse que sim, que podia, e ele sai-se com esta: “Já foste alguma vez para a cama com Virginia?”, mas julgo que o meu “NUNCA!” o convenceu, e a todos os demais, da verdade. Por aqui podes ver qual era o género de conversa!»
Por um lado, o trauma dos abusos de que foi vítima na infância, por outro, Virginia era demasiado apaixonada pela escrita para que, verdadeiramente, pudesse entregar-se a outra paixão: o seu espírito inquieto, febril, toda a vida pairando à beira do precipício, só no trabalho encontrava a paz que necessitava. Além disso, Virginia vivia atormentada por dores de cabeça crónicas, crises depressivas e pensamentos suicidas. Era uma mulher hipersensível, melancólica, muito instável psicologicamente. A certa altura começou a queixar-se com muita frequência de não se conseguir concentrar, de ter receio de estar a enlouquecer, de ouvir vozes.
Tudo apontava para o seu trágico fim…
Vinte e um dias depois de se ter suicidado, o corpo da escritora foi encontrado a boiar nas águas do rio Ouse, por um grupo de crianças, perto da ponte de Southease. Leonard, o marido, tratou que o cadáver fosse cremado e as cinzas enterradas sob um ulmeiro na Monk’s House (a casa de campo do casal, em Rodmell, uma aldeia no Sussex), com as palavras finais do seu livro “As Ondas” (1831) como epitáfio: «Contra ti me arremessarei, irreprimível e inexorável, Ó Morte!»
Muitos anos depois, Vita escreveu: «Ainda penso que a podia ter salvado, se me encontrasse lá e estivesse a par do estado mental em que ela estava a cair.» Vita viria a morrer de cancro, sensivelmente duas décadas depois de Virginia, no ano de 1962. A sua escrivaninha, no seu casarão em Sissinghurst, no Kent, – diga-se de passagem, envolvo num magnífico jardim criado por Vita e por Harold, muito visitado pelos amantes da natureza – conserva-se tal como ela a deixou, decorada com duas fotografias: uma é do marido, a outra é de Virginia.
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