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Viver no privilégio branco, cis e heteronormativo 



Estes dias, enquanto almoçava um belo sushi com um casal amigo heterossexual, falávamos  sobre os nossos trabalhos. Altamente apaixonada pela minha área, referi que as pessoas queer tinham mais probabilidade de desenvolvimento de perturbações do comportamento alimentar. O meu amigo, muito  incrédulo, perguntou porquê. E acrescentou: “mas ainda existe essa discriminação, isso ainda é tema?”.  

Infelizmente ainda é, e ainda continuará a ser por muito tempo – e, pelo que vemos nas notícias, a tendência é piorar.  

Embora Portugal tenha políticas e leis feitas com o objectivo de proteger pessoas LGBTQIA+, a  sua aplicação prática está muito longe de ser efectiva. Não nos esqueçamos que as leis são efectivadas  através de pessoas, e as pessoas continuam a ser altamente preconceituosas.  

Quando foi a última vez que ouviste um comentário transfóbico, homofóbico, racista, xenófobo no  teu círculo de pessoas ou na rua? Hoje? Ontem? Há 5 minutos? A verdade é que não estamos assim tão  avançados quanto cremos – acreditar nisto e achar que “já se fala demais desses temas”, é não ter a  capacidade de sair do nosso umbigo e ver o nosso privilégio.  

Temos tendência a viver na nossa bolha e a acreditar que, por respeitarmos a diversidade, o  assunto está arrumado e já não há famílias a rejeitar os seus porque são gays, lésbicas, trans ou com  qualquer outra identidade diversa. Mas tenho uma notícia para dar: a realidade da nossa bolha não é uma  amostra representativa da realidade lá fora. E, se calhar, nem da tua própria realidade. Se tivesses um filho  gay ou trans, amá-lo-ias da mesma forma?  

Se tivesses um filho  gay ou trans, amá-lo-ias da mesma forma?

O que será que vem primeiro, o preconceito ou o amor?

Isto leva-me à próxima pergunta: O que será que vem primeiro, o preconceito ou o amor?  A minha experiência diz-me, de forma muito clara: o preconceito ainda vem antes do amor.  Jorge assumiu-se enquanto homem trans e foi rejeitado pela família e ainda ouve comentários do género “é uma fase, logo lhe passa”; Alexandre continua sem poder levar o seu namorado aos almoços de  família e, com isso, a ter de escolher entre passar as festividades com a família ou com a pessoa que ama;  Francisco deixou de falar com o seu filho porque se recusa a conviver e aceitar que o seu filho é gay, afinal  isso é uma afronta à honra e ao bom nome da família; a avó Maria recusou-se a ir ao casamento da neta,  porque a neta vai casar com uma mulher; o Sr. António do café ainda diz para o casal gay da sua rua “lá vão as Marias”; a Magda consegue levar a sua namorada aos eventos familiares, mas disfarçada de “amiga”; o  Bernardo tem que conviver com um primo homofóbico todos os dias, porque tem medo do que lhe pode  acontecer se revelar a sua orientação sexual; Teresa chora no quarto, depois de mais um dia de bullying na escola, desde que descobriram que é uma pessoa assexual.  

Os nomes são inventados, mas as histórias não. Esta é a realidade a que assisto em consultório e fora dele. Portanto sim, identidades de género e orientações sexuais diversas ainda são tema! Sim, o  preconceito ainda está bem vivo! 

E sabes o que grande parte destas pessoas têm em comum? Usam a comida como forma de lidar com o seu sofrimento e dor profundos, como se tentassem que a comida tapasse o buraco da rejeição  que sentem em cada um destes momentos. Podiam ter desenvolvido uma depressão, uma perturbação de  ansiedade, ou qualquer outra doença mental. Mas desenvolveram uma perturbação do comportamento  alimentar (PCA) – ou ambas, porque raramente a PCA vem sozinha.  

As pessoas LGBTQIA+ têm maior probabilidade de desenvolvimento de PCA devido à falta de suporte social e à discriminação e estigma de que são alvo em função da sua orientação sexual e/ou  identidade de género. Portanto, se um jovem adolescente já tem de lidar com as mudanças do seu corpo, com a pressão dos pares, com o desenvolvimento da sua identidade, com a necessidade de pertença, com a constante sensação de desajustamento, com a comparação das redes sociais, imaginem fazê-lo sem  apoio da família, com uma rejeição total ou parcial da sua identidade e jogado na rua como se fosse um cão sarnento. Se fosses tu a passar por isto, que pessoa achas que serias?  

Sabes o que é mais curioso? Percepcionar a escola e a família como um lugar seguro e estar em  relações estáveis são fatores protetores contra o desenvolvimento de perturbações do comportamento  alimentar em pessoas gays, lésbicas e trans. Engraçado como amarmos e respeitarmos os nossos é  exatamente aquilo que tem a capacidade de os proteger da doença mental. É tão fácil, e ainda assim,  poucos o fazem. Quando será que vamos colocar o amor à frente do preconceito? 

Eu sou uma mulher branca, cis, heterossexual, licenciada e com acesso a um computador e internet que me permite continuar a educar-me todos os dias. Sempre tive comida na mesa e tenho uma família que, com os seus defeitos, me ama. Estou numa relação estável. Posso beijar o meu namorado em  qualquer lugar, sem medos. Trabalho com o que gosto, posso viajar e ir jantar fora quando quero. 

E tu, qual o teu privilégio? Já colocaste o amor à frente do preconceito? 

Nutricionista Daniela Marques 

@nutri.and.co.dmarques 

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