a fazer,  a ver

Zanele Muholi em Serralves: a arte como resistência e celebração queer 



Serralves enche sempre o meu coração artístico. 

Após ter explorado a nova ala de Álvaro Siza, onde está exibida a obra de Alvar Aalto, eis que me deparo com a produção artística da sul-africana Zanele Muholi. Não conhecia o trabalho desta activista visual, nem o impacto que me iria causar ao contemplá-lo. 

É a primeira vez que Zanele expõe em Portugal, estranho sendo o nosso país tão marcado pelo passado colonial, deveria ter sido dos primeiros a fazer esta introspectiva. De certo que ver este tipo de obra é um sinal que reconhecemos o nosso papel na história colonial, e reconhecemos as dificuldades acrescidas de pessoas negras queer. No entanto, sinto que há muito por fazer. 

A exposição está organizada cronologicamente e estruturada em núcleos temáticos, cada um mais impactante que o outro, e leva-nos a reflectir, pelo menos a mim, como mulher branca cisgénero, sobre o passado colonial, o apartheid, e as profundas dificuldades de corpos negros e não conformes sofreram e sofrem nos dias de hoje com o racismo, o preconceito e a queerfobia

Ao longo das mais de 200 fotografias exibidas, observei a beleza daquelas imagens, a intimidade que transmite, mas também a resiliência daquelas pessoas, e a justiça social que a artista quer reivindicar para a sua comunidade. 

Muholi pretende dar visibilidade e levar o público a questionar a opressão, a violência que infringimos a outros em nome de sistemas de poder obsoletos e que não fazem parte de um mundo igualitário e plural. 

Saí da exposição com esperança que haja esta reflexão por parte de todos nós, marcada pela frase de Zanele – “Estou a reivindicar a minha negritude, que sinto ser permanentemente controlada pelo outro privilegiado”, e recordada que existir é resistir, mas também é celebrar. 

Nota: existe na exibição uma cronologia de marcos históricos portugueses, tanto da história colonial como da história LGBTQIA+. Achei bastante pertinente e dá-nos contexto sobre o impacto que a política tem na arte e na nossa vida quotidiana. 

A exposição termina a 12 Outubro 2025.

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Sara Correia

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