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A vida em alegorias, ou uma interpretação d’ “O Ornitólogo”

 

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Aviso prévio: não sou crítico nem estudei Cinema, escrevo apenas como espectador que segue o trabalho de João Pedro Rodrigues há algum tempo, mesmo que não extensivamente.

 

Já reagi de modos muito diversos, e mesmo opostos, aos filmes de João Pedro Rodrigues (JPR). “O Fantasma” deixou-me confuso, mas com a sensação de que tinha visto algo essencial; “Odete” deixou-me exasperado e desagradado; e em “Morrer como um homem” achei fantásticos os trechos mais absurdos. “O Ornitólogo” é, das que vi, e a meu ver, A Obra de JPR até hoje.

Do início ao fim do filme estamos perante um homem – que encontra outros, mas que continua sempre a sua viagem sozinho – imerso na Natureza. Situação universal e intemporal, apesar do modo de via urbano e tecnológico (a ligação do protagonista à sociedade é dependente de um telefone, que raramente funciona, mantendo o resto do mundo ausente). Se nos séculos mais recentes grande parte da humanidade passou a viver em cidades, que de algum modo colocam barreiras e fazem o homem esquecer-se que é a Natureza que lhe permite viver, continua a ser verdade que é a ela que recorremos para encontrarmos a nossa individualidade. No fundo ansiamos todos por desligar os telefones.

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No primeiro encontro, Fernando depara-se com duas personagens asiáticas que precisam da sua ajuda por estarem perdidas, mas que acabam por atá-lo e mantê-lo prisioneiro, até que ele encontra um modo de se libertar. Fazendo uma leitura autobiográfica, vemos o aprisionamento de uma criança pela sua família, e também pela religião – afinal as duas mulheres faziam o caminho de Santiago. Quaisquer que tenham sido as circunstâncias da infância de JPR, não há como negar que a família e a religião são as duas maiores forças castradoras – para todos nós. Já a imagem de Fernando atado à árvore é pura imagética simultaneamente religiosa e homoerótica – com tesão e tudo.

Segue-se um encontro com um grupo de homens que se mascaram e sacrificam animais. Aqui é fácil de ver uma alegoria sobre a adolescência e a entrada na vida adulta, incluindo as praxes (não só mas também as académicas) – lembrei-me do “Goat” com James Franco, que passou no último Queer Lisboa.

Depois vem o encontro com aquele que será objecto de desejo. A atracção pelo corpo, neste caso do mesmo sexo, e a descoberta do prazer. Mas que logo resulta em morte. Sexo e morte ligam-se de muitos modos, desde logo pelos crimes passionais. Agora que revejo a cena mentalmente, remete-me para a omnipresença da morte nas relações homossexuais através da ameaça do VIH. Em quantas vidas não terá o VIH/SIDA levado à perda de um primeiro amor cedo demais?

A viagem continua, e Fernando depara-se com três ninfas a cavalo, qual Ilha dos Amores dos Lusíadas. Contudo, aqui já não há desejo. Fernando recusa em definitivo o sexo oposto.

Entre cenas há tentativas de contacto com o parceiro ausente, através do tal telefone que deveria ligar à civilização. Uma alegoria sobre a falta de comunicação nas relações?

Já perto do final, Fernando depara-se com um suposto irmão gémeo do objeto de desejo. O reencontro com o amor? Entretanto, Fernando já não é Paul Hamy mas sim JPR. Não de modo abrupto, mas sim sub-repticiamente com a ajuda da escuridão. Para quem ainda não tinha visto aqui uma autobiografia, torna-se impossível escapar a essa leitura.

Não se trata aqui, a meu ver, que não sou cínico, de um jogo de “Onde estão as semelhanças com a vida de JPR?”. Isso seria insinuar que o filme é apenas um exercício de egocentrismo. Não vejo a obra assim, muito pelo contrário. A Arte com A grande é isto: transpor o que o autor viveu para um contexto mais abrangente, e através de imagens que levam o espectador (ou leitor) a refletir sobre a organização do Mundo e da vida. Isso é para mim uma manifestação de genialidade. Teremos sido muitos a revermo-nos na rejeição da religião, na iniciação da vida adulta, na descoberta da sexualidade (hétero, homo ou outra), e em tantas outras escolhas com que nos deparamos, e que marcam as nossas vidas.

Para nos aproximarmos da verdade temos mesmo que nos isolar. Só a pessoa e a sua mente, mais a Natureza. Se possível com umas pausas para observar aves, todas belíssimas.

 

Nota: 4.5/5 

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PS: fui ver o filme sem ler críticas, e assim continuei até escrever este texto. Sabia apenas que JPR tinha ganho melhor Realizador em Locarno. Desconhecia muitos pormenores da vida de JPR, mas, como deixei claro, acho isso completamente indiferente para se apreciar o filme

 

Daniel Carapau

 

 

 

 

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