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Finalista ao título de Mister Senior Netherlands, Miguel Martins partilha a sua história de luta em busca da felicidade

 

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Aqueles que não conhecem os desafios da vida tiveram uma vida privilegiada, ou então conseguiram superar os desafios intrínsecos a este mundo. Nascido e criado numa pequena aldeia de Penafiel em extrema pobreza, lembro-me de todos os momentos incríveis, mas ao mesmo tempo não consigo esquecer todos os desafios na busca da minha felicidade. Não me interpretem mal: esta é uma história de sucesso! Podem esperar uma história honesta, verdadeira, sentida e – espero! – inspiradora.

 

Enquanto criança, não me lembro de as coisas serem fáceis em casa. O meu pai costumava ter um problema com a bebida, pelo que a minha mãe era a única provedora. Desde que eu me lembro, sempre lutámos para encontrar o dinheiro para a próxima refeição. Não houve um único momento em que eu não tenha tido uma refeição na mesa, porém, à medida que fui crescendo e me tornei mais consciente da realidade, percebi que nem sempre era esse o caso dos meus pais. Apesar de ainda muito novo, o meu objetivo na vida já era muito claro: eu queria ter a melhor educação possível, conseguir um bom emprego e assegurar-me de que nunca mais eu ou os meus pais não teríamos o que comer. Acumular fortuna nunca foi o meu objetivo e continua a não o ser, mas é importante poder contar com as coisas pequenas como uma refeição, que muitos pensam ser um bem adquirido.

Foi por volta desta mesma altura que percebi que a pobreza não seria o meu único desafio na vida. Ao contrário dos meus colegas de escola, eu sentia-me mais atraído por rapazes do que por meninas. Tendo crescido numa pequena aldeia em Portugal há 20 anos, eu não fazia a menor ideia do que fazer com esses sentimentos. A homossexualidade não era mencionada nem em casa nem na escola. Também não era discutida na TV. As únicas vezes que me lembro de ter ouvido falar sobre este tema, foi de uma forma pejorativa e num tom maldoso e de gozo. Isso levou a que, durante toda a minha infância e adolescência, eu me sentisse como alguém que não pertence a lugar algum. Inclusive, houve diversos momentos em que questionei o significado da minha vida. Senti uma falta enorme de poder conversar com alguém sobre o assunto e de fazer perguntas, mas infelizmente isso nunca foi o caso.

A homossexualidade não era mencionada nem em casa nem na escola. Também não era discutida na TV. As únicas vezes que me lembro de ter ouvido falar sobre este tema, foi de uma forma pejorativa e num tom maldoso e de gozo

Aos 14 anos, decidi iniciar um estudo sobre a Bíblia. Foi-me ensinado que ser homossexual era errado, imoral e condenado por Deus. Não só acreditei, como vi como minha missão visitar as pessoas nos seus lares para lhes transmitir essa mensagem numa tentativa de salvá-las a elas e a mim mesmo. Durante anos, lutei constantemente com os meus sentimentos mais íntimos. Porém, ao fim de 3 anos apaixonei-me por alguém do mesmo sexo e comecei a sentir-me como um hipócrita. Foi aí que não consegui mais aguentar essa luta interna de mim contra mim. Não foi a componente física que eu não consegui controlar. Essa parte estava perfeitamente sob controlo, apesar de eu estar em plena adolescência. O que não consegui suportar foi a luta emocional. Ambos fomos aconselhados a ​​não nos vermos novamente e foi exatamente isso que fizemos. Na altura, pareceu-nos a única solução possível. Pouco depois disso eu abandonei religião por completo. Essa luta era demasiado intensa para um jovem com apenas 17 anos.

Com 18 anos, iniciei os meus estudos universitários e decidi ir morar no Porto. No Porto, fui a um bar gay pela primeira vez, sem saber o que esperar. Apesar dos meus receios, a experiência foi muito melhor do que o esperado. Pela primeira vez, não me senti sozinho. Não senti necessidade de me esconder. Pela primeira vez, senti que podia ser eu mesmo. Afinal, toda a gente que lá estava partilhava a mesma experiência. Isso fez-me sentir apoiado. Finalmente, encontrei a força para me aceitar exatamente como sou e para partilhá-lo com algumas das pessoas mais próximas. Para minha grande surpresa, todos os que realmente importavam apoiaram-me desde o primeiro momento. Quando penso nisso agora, lamento o facto de ter levado tantos anos a aceitar-me. Afinal de contas, era eu o meu maior inimigo. Acredito também que muitos desses momentos mais dolorosos poderiam ter sido evitados se houvesse mais informação e grupos de apoio naquela altura.

Acredito também que muitos desses momentos mais dolorosos poderiam ter sido evitados se houvesse mais informação e grupos de apoio naquela altura.

Vinte anos depois, muito mudou. Em Portugal, por exemplo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal desde 2010. E os Países Baixos, onde moro desde 2006, foi o primeiro país do mundo a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2001. Apesar destes sinais de mudança, continuo a deparar-me com situações que demonstram que ainda é necessária muita evolução neste sentido. Por exemplo, esta semana chegou à minha atenção que um dos comentadores do programa Secret Story, nomeadamente o conhecido cronista social Flávio Furtado, se referiu a um dos concorrentes gay no programa como “bicha desolada”. Não só acho muito feio falar-se mal de alguém que não está presente para se poder defender, como acho também inaceitável que se use esse tipo de linguagem ofensiva e desrespeitosa. Eu cresci a sofrer o mesmo tipo de abuso verbal e conheço muitas outras pessoas que passaram pelo mesmo. Pergunto-me frequentemente se as pessoas têm noção da gravidade de tais comentários. A sabedoria popular ensina que a palavra proferida, assim como uma pedra atirada, não tem volta. Ou seja, este tipo de abuso emocional pode ter efeitos devastadores. No meu caso pessoal, o que realmente me marcou de forma negativa enquanto crescia foi este tipo de abuso verbal e emocional, foram as humilhações, a falta de carinho, a falta de apoio e a falta de me sentir amado sempre que me criticavam por ser diferente e não corresponder aos padrões socialmente aceitáveis. Ver alguém fazer este mesmo tipo de abuso 20 anos mais tarde, principalmente alguém numa posição de cronista social e comentador de televisão, como é o caso do Flávio Furtado, mostra que a evolução ainda não é a suficiente. Estando na posição em que está, na minha opinião o Flávio Furtado tem o dever e a responsabilidade de ser um exemplo para todos os que o seguem. Tendo sido vítima deste tipo de comentários atrozes, posso afirmar por experiência própria que as vítimas deste tipo de abuso acabam por acreditar que realmente são aquilo que lhes chamam. E isso afeta a nossa autoestima de modo tão profundo, que podemos levar uma vida inteira a tentar lidar com isso. Eu sempre consegui usar essas experiências menos boas como uma forma de aprender com elas e de me tornar imune a este tipo de crueldade. Mas nem todos conseguem lidar com isso e é importante estarmos atentos a isso.

Não podemos também esquecer que o mundo é maior do que estes dois países. De acordo com um relatório anual da ILGA (International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans e Intersex Association), 72 países e territórios em todo o mundo continuam a criminalizar as relações homossexuais, incluindo 45 países em que as relações sexuais entre mulheres são proibidas. Existem oito países em que a homossexualidade pode resultar em pena de morte e dezenas mais em que os atos homossexuais podem resultar em pena de prisão. É inegável que ainda existe um caminho enorme pela frente!

Em 2005, contra todas as probabilidades e com muita perseverança e trabalho árduo, fui o primeiro membro da minha família a concluir um curso universitário em Línguas e Literaturas Modernas. Uma vez que não havia muitas oportunidades de trabalho em Portugal naquele momento, um ano depois de completar os meus estudos decidi vir morar nos Países Baixos para procurar um emprego adequado e a vida melhor desde há tanto tempo esperada. Vivi na Haia durante vários anos, apesar de nessa altura trabalhar em Amesterdão e em Leiden, mas foi em Maastricht que encontrei o trabalho dos meus sonhos como linguista médico na Medtronic - uma empresa de dispositivos médicos cuja prioridade principal é contribuir para o bem-estar humano.

Na Medtronic, apoiamos diversidade e inclusão. Acreditamos que, quando pessoas de diferentes culturas, géneros, percursos de vida e pontos de vista se juntam, a qualidade do trabalho melhora exponencialmente. Um excelente exemplo disso é o Medtronic PRIDE. O Medtronic PRIDE surgiu no ano passado na Austrália e na Nova Zelândia, como o intuito de criar uma comunidade para os funcionários homossexuais, bissexuais e transgénero da Medtronic e aqueles que os apoiam. A Medtronic apoia políticas que criam e suportam a igualdade de tratamento para todas as pessoas. A empresa está empenhada não só em promover um ambiente de trabalho global inclusivo, mas também em promover um mundo onde as pessoas LGBTQ e as suas famílias são aceites, protegidas e valorizadas. Finalmente encontrei um lugar onde eu pertenço e onde eu sinto que tenho um propósito.

Finalmente encontrei um lugar onde eu pertenço e onde eu sinto que tenho um propósito.

O meu trabalho como linguista médico permite-me tempo suficiente para me concentrar noutras paixões e objetivos. Nos últimos 2 anos, tenho tido o enorme prazer de trabalhar como ator e modelo comercial nos Países Baixos e na Bélgica. Com o objetivo de me dar a conhecer melhor e de conseguir mais trabalho nestas áreas, este ano decidi concorrer ao título de Mister Senior Netherlands.

Mister Senior Netherlands é um concurso de beleza nos Países Baixos. Pelo 5º ano consecutivo, decorre o concurso Mister International Netherlands. Esta é a categoria principal e o vencedor representará os Países Baixos na competição mundial no próximo ano. O Mister International Netherlands, no entanto, restringe o limite de idade a 30 anos. De forma a tornar o concurso mais inclusivo, foi criado o concurso paralelo Mister Senior Netherlands, que inclui homens acima dos 30 anos e sem qualquer limite de idade. Numa época dominada por contactos supérfluos, acho esta categoria senior de uma relevância enorme. Durante os anos em que tive um perfil em aplicações para encontros e namoro, não pude deixar de notar o estigma da idade. Em várias plataformas diferentes de namoro on-line, por diversas vezes senti-me discriminado apenas por ter mais de 30 anos. O mais irónico é o facto de muitas das pessoas que me acharam “demasiado velho” serem mais velhas do que eu. O Mister Senior Netherlands, no entanto, não discrimina com base na idade. Pelo contrário, dá uma oportunidade a todos os homens com mais de 30 anos.

Um dos comentários que ouço com mais frequência é que, com os meus tenros 34 anos, sou demasiado novo para concorrer numa categoria senior em que existem também candidatos já nos seus 70 anos. É verdade que eu teria dado um nome diferente a esta categoria, mas bem mais importante do que o nome é aquilo que esta categoria representa.

O Mister Senior Netherlands valoriza mais do que beleza física. Na condição de finalistas, somos constantemente encorajados a sermos nós mesmos e não a apenas brilhar durante a passagem de modelos, mas também a trazer inteligência, gentileza e beleza interior a esta competição. Eu acredito nestes ideais e pretendo dar o meu melhor para representá-los o melhor que sei e orgulhá-los de mim. É importante referir que não se trata de uma competição gay, mas que esta está aberta a todos, independentemente da nossa orientação sexual.

Vejo este concurso como uma excelente oportunidade de obter mais trabalho nesta área, mas - mais importante que isso! - gostaria de usar esta visibilidade atual para algo maior do que eu. Eu vejo o Mister Senior Netherlands como uma oportunidade e uma plataforma para alcançar mais pessoas, para partilhar minha história pessoal e – espero! - inspirá-las de alguma forma. Em tudo o que faço, tento ser a mudança que gostaria de ver no mundo e este concurso não é exceção. Eu não acredito em dizer às pessoas como devem pensar ou agir. Em vez disso, acredito em contribuir para um maior conhecimento e sensibilização e usar a minha atitude pessoal como um exemplo. Além disso, acredito em bondade e tenho todo o interesse em ajudar quem quer que seja que sinta necessidade de aconselhamento ou de apoio emocional. Quem me dera ter tido alguém para me ajudar na minha luta enquanto crescia, mas tive de permanecer em silêncio e enfrentar essa luta sozinho. Se com o meu apoio um jovem apenas deixar de ser vítima de bullying só porque é diferente, ou se menos um jovem sentir necessidade de cometer suicídio como infelizmente ainda acontece com maior frequência do que eu gostaria de admitir, então sentirei que a minha missão não foi em vão. Até lá, continuarei disponível e empenhado em tentar mudar consciências e criar um mundo mais seguro e com uma maior capacidade de aceitação.

Se com o meu apoio um jovem apenas deixar de ser vítima de bullying só porque é diferente, ou se menos um jovem sentir necessidade de cometer suicídio como infelizmente ainda acontece com maior frequência do que eu gostaria de admitir, então sentirei que a minha missão não foi em vão

Leonardo da Vinci disse certa vez: "Percebi há muito tempo que as pessoas realizadas raramente ficaram sentadas à espera que as coisas lhes acontecessem. Elas foram à procura e as coisas aconteceram." Eu tento manter estes pensamentos em mente todos os dias. E este é também o melhor conselho que eu posso dar a alguém: sejam vocês mesmos! Acreditem em vocês mesmos! Lutem contra todas as probabilidades e circunstâncias e lembrem-se de que têm o poder de serem quem quiserem. Façam-no com bondade e sem dúvida estarão a criar um mundo melhor para os outros, mas também para vocês!

 

Miguel Martins, finalista Mister Senior Netherlands

Foto: www.fotoserie.net

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