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La Vie d’ Adèle, um filme próximo da perfeição

Aviso: Este texto contém spoilers

La vie d'Adèle começa e termina com Adèle, uma rapariga de 15 anos, melancolicamente sozinha, eternamente curiosa, incansavelmente voraz. Abdellatif Kechiche criou um verdadeiro tratado sobre o amor, belo como o sol que trespassa as almas de Adèle e Emma, em estado bruto como o bosque onde elas se encontram para se beijarem e tocarem, em constante mudança como as folhas que dançam na indefinição do vento, no entrecruzar das mãos e olhares de duas almas unidas pelas imperfeições perfeitas e incertezas certas.

A natureza desempenha um papel primordial em La vie d'Adèle, servindo de analogia perfeita para a pureza, crueldade e mutação do amor. Kechiche filma cada beijo, cada toque, cada olhar, com uma urgência cativante, como se o amor perdesse a essência do momento um segundo depois. As cenas de sexo são um misto explosivo e penetrante, quase impossível de combinar, de ousadia, visceralidade e sensualidade, com uma presença ameaçadoramente devastadora, sincera e corajosa, como há muito não se via na sétima arte.

O que é fascinante nesta obra-prima sobre a inescapável viagem pelo império dos sentidos, é a complexa bipolaridade de que se reveste: é cândida e inocente ao nos mostrar a descoberta sexual de Adèle, a troca de olhares numa passadeira ou a saliva abandonada em lábios
apaixonados, e ao mesmo tempo o lado mais animalesco e carnal do sexo, impregnado do cheiro do suor e acossado pelos suspiros de prazer, um prazer que preenche o celuloide tão implacavelmente e em crescendo como o amor que Adèle sente por Emma.
Há uma multiplicidade imagens marcantes na última obra de Kechiche, mas é o olhar de Adèle que me persegue: o olhar mecânico quando vê televisão enquanto come, o olhar de desespero quando percebe que já não pode voltar atrás, o olhar atordoado quando vê Emma pela primeira vez, o olhar devorador quando faz sexo, o olhar de saudade e solidão quando as memórias são um amigo tornado inimigo.
Além de ser o mais pujante, puro e épico filme sobre amor dos últimos anos, La vie d’ Adèle consegue ir ainda mais longe, e ser um retrato cativante sobre amizade e família. O preconceito e invisibilidade dos jovens LGBT são habilmente retratados, desde agressões verbais de amigos, passando pelo apoio da família até à teia de mentiras e vergonha pela qual os LGBT passam antes, durante e depois do seu coming out, tendo a sensibilidade de mostrar sem exibir nem rotular.
La Vie d’ Adèle recebeu a Palma de Ouro em Cannes e pela primeira vez na história esta foi igualmente entregue a dois dos actores, Exarchopoulos e Seydoux, sendo um testemunho da impossibilidade da dissociação de cada um dos vencedores do filme. Exarchopoulos e Seydoux deixaram para a história, nos papéis de Adèle e Emma respectivamente, um legado inestimável da representação do amor e volatilidade de sentimentos a ele associados, como paixão, partilha, felicidade, dor, desejo, solidão, e perda. A combinação do lado maternal e ponderado de Emma com o destemido e pulsante de Adèle, juntamente com a realização intrépida e consistente de Kechiche, faz de La Vie d’ Adèle um filme próximo da perfeição, tão próximo quanto se pode alguma vez amar alguém.

 

 

 

O filme continua em exibição nas salas de cinema de Lisboa e Braga.

 

Tiago Teixeira

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