Zohran Mamdani, um Socialista Democrata, muçulmano e imigrante (chegou aos EUA com 7 anos), que concorreu numa plataforma Progressista e inclusiva – a favor do congelamento de rendas, investimento em habituação pública, contra os despejos sem justa causa, defendendo abertamente a taxação dos ricos, o transporte público e as creches gratuitas e abertamente crítica de Israel (por razões mais que óbvias) – venceu a Eleição para Mayor de Nova Iorque, com metade dos votos do eleitorado e com quase 10% de diferença em relação ao segundo lugar, ocupado por Andrew Cuomo, um ex-Democrata que correu como «Independente» (o candidato oficialmente Republicano teve uns míseros 7%).
Um dos últimos actos da campanha de Mamdani foi a visita a vários bares gay da zona de Queens e Brooklyn – o que deve ser uma chatice para os que tentam criar uma divisão artificial entre a comunidade Muçulmana e a comunidade LGBTQIA+ com aquele único argumento do “se gostas tanto de Muçulmanos, então experimenta ir para um país Muçulmano”.
Como se não só não existissem Muçulmanos moderados (como há Cristãos moderados), como até há Muçulmanos que, para lá da sua fé, são simultaneamente LGBTQIA+ (como, aliás, há Católicos LGBTIA+, não obstante o comportamento da ICAR em relação a esta comunidade); e como se o problema, nesses países, fosse o «sabor» da religião dominante, e não o facto de neles se terem instalado Teocracias Ultraconservadoras de fanáticos radicais – tão radicais, aliás, como os que criticam a comunidade Muçulmana e/ou a comunidade LGBTQIA+, com as suas retóricas de “família tradicional”, “valores Europeus”, “tradição Judaico-Cristã” e por aí segue.
O problema desses países não é serem Muçulmanos: é serem fundamentalistas e a religião se ter imiscuído no Estado. O resultado será o mesmo, qualquer que seja a religião que interfira com a política – e ainda mais se essa religião for interpretada à luz do radicalismo. Qualquer dúvida, é só consultar o comportamento de grupos Evangélicos nos EUA ou no Brasil ou até mesmo cá. Queria dizer “obviamente”, mas aparentemente, não é assim tão óbvio.
Não surpreendentemente, Israel, que neste momento é governado por um partido de Extrema-direita, fora da propaganda e de Tel Aviv, é profundamente anti-LGBTQIA+; em certos casos, mais do que em certos países Muçulmanos, metidos no mesmo saco dos radicais apenas por serem igualmente Muçulmanos – imaginem o que seria se a Europa fosse vista pelos seus piores actores, como Le Pen, Ventura, Abascal, Meloni, etc.. Quase se diria que não estão propriamente preocupados com a comunidade LGBTQIA+, mas mais interessados em criar o máximo de anticorpos contra os Muçulmanos.
Podemos dizer que a vitória de Mamdani é, antes de mais, a derrota de dois candidatos que se preocuparam demasiado em conquistar um eleitor – Donald Trump – com quem os Nova Iorquinos não simpatizam propriamente. As ameaças de Trump, a uma população cuja saudação é um expletivo (e cujo primeiro argumento de orgulho é a sua capacidade de resistir à sua própria cidade), caso ele fosse eleito, podem ter ajudado: ao contrário de outros, que já foram capitulando a Trump, Nova Iorque não gosta de se sentir condicionada por nada, nem ninguém.
Mas a vitória de Mamdani é, antes de mais, dele. E é a derrota cada vez mais óbvia do establishment Democrata, que rivaliza em múmias com o Museu de História Natural, tão implicadas pelos seus doadores como os Republicanos e que sofrem de uma covardia endémica exasperante.
Num país em que a palavra “Socialismo” evoca discursos da Guerra Fria como um reflexo Pavloviano, criado pelo trauma do Red Scare MacCarthiano, a vitória de Mamdani é uma vitória de Zohran Mamdani e do seu staff, sem dúvida, mas é também uma vitória da Esquerda que não tem medo de se assumir como Esquerda, a caminho de acabar com a ideia que “Socialista” é um ad hominem.
É a derrota do «mornismo» e do Centrismo: “neutro é o sabonete”, como dizem os Brasileiros. E dela podemos tirar algumas lições importantes:
- Não há causas ou candidatos fracturantes: isso é um enquadramento da Direita, que alimenta a covardia política e que condiciona tanto a agenda da própria Esquerda, como os candidatos que esta apoia. A representatividade importa.
Por outro lado, se a representatividade importa, ela não pode ser confundida com visibilidade: não basta o candidato dizer-se de Esquerda ou ser de uma minoria ou mulher para ter a nossa simpatia. Não andamos aqui a coleccionar carimbos da diversidade e de “porreiraços”. Continua a ser incontornável que o candidato seja competente e honesto. Se as comunidades desprivilegiadas sentem orgulho em ver um dos seus (finalmente) num cargo de importância, por outro lado, querem depois dizer que “foi o nosso político que fez isto ou aquilo”- tanto pela comunidade em geral, como pela comunidade mais específica da qual faz parte.
O que leva obrigatoriamente a outro ponto: os partidos de Esquerda – e nisso estou a incluir o PS – têm de apostar em candidatos mais diversos (não estou a falar só de etnia), mas prepará-los para o seu sucesso: o que implica fazer o seu vetting, mas também muní-los de todas as ferramentas – e para lá da campanha: os mandatos destas pessoas têm de ser exemplares, justamente para que se possa construir em cima deles. De outro modo, é apenas um golpe de branding e tem o efeito contrário a médio e longo prazo;
- As causas das minorias não são concorrentes com as causas clássicas da Esquerda, mais voltadas para a generalidade das pessoas: esta antítese, aliás – mais uma falsa questão injectada no debate pela Direita para nos dividir – é facilmente desmentida, quando percebemos que:
- as minorias não deixam de sofrer os problemas da generalidade das pessoas (apenas se lhes acrescenta o que lhes é específico);
- a luta das minorias é uma luta contra a desigualdade e toda a vitória contra uma desigualdade agrega para as restantes (não compete com elas);
Em suma: defender os imigrantes não retira nada à luta trabalhista (pelo contrário, a sua precariedade é a mais escabrosa); defender a Palestina e criticar Israel não é incompatível com querer mais, melhor e mais acessível habitação; defender a comunidade LGBTQIA+ não põe em causa a taxação de ricos que, por sua vez, pode financiar transportes e creches públicas.
Repito: a Esquerda clássica tem de deixar de assimilar as cooptações da Direita e, pelo contrário, tem de começar a pensar com um pouco mais de espírito crítico, percebendo que a luta contra os excessos do Capitalismo, na sua base, não é uma mera luta contra o fetichismo do capital: é uma luta contra a desigualdade, que em Capitalismo, se manifestada pelo capital – que existe porque serve uma vontade de haver desigualdade, antes de mais – mas não começa, nem acaba nele.
Elimine-se o capital e o seu sistema, e a vontade de alguém se meter em bicos dos pés em relação ao seu semelhante não só permanecerá, como surgirá outra forma de se manifestar e interferir na vida humana e nas relações que estabelecemos.
Portanto, a nossa luta é contra a desigualdade: seja a que se manifesta contra o proletário (trabalhador ou não) ou a que é contra os idosos, contra os portadores de deficiência, as mulheres, as minorias étnicas, sexuais, migrantes, etc.
- As pessoas não têm medo da utopia e hoje, mais do que nunca, precisam de sonhar. As pessoas não têm medo de candidatos contra os quais os seus adversários o máximo que têm a apontar é que eles são “radicais”: pelo contrário, querem candidatos corajosos e comprometidos com as suas causas – sejam estas quais forem. Não querem é discursos preguiçosos, «chapa 5», que poderiam perfeitamente ser escritos por uma Inteligência Artificial, de tão genéricos e abstractos que são, debitados com a paixão de um contabilista a falar de fiscalidade – não.
É por isso que um Ventura conquista o eleitorado que conquista: não é o que ele diz – é como ele diz. É a resposta à pergunta “Por que é que berra tanto?” – Porque o público dele vê nisso a sua própria revolta; vê nisso a sua vontade de mudar o que sentem que está mal. Claro que é só isso – palavras: ele não só é o que há de mais podre no sistema e não tem, por isso mesmo, interesse nenhum em resolver os problemas do sistema (pelo contrário, quer agravar tudo o que há de pior nele).
Mas isso não interessa. Pelo menos, ele parece sincero, para já. Claro que a conta virá depois. Mas, neste momento, para quem lhe dá ouvidos, e ainda que ele só diga asneiras contraditórias, soa bem. E defender o sistema-pelo-sistema, quando as pessoas se sentem defraudadas por ele, não é a resposta.
Se a Democracia não serve as pessoas, não só não lhes serve, como nem é Democracia. Portanto, não basta exortar as pessoas aos grandes valores e à História, rendidos à sacralidade do paradigma. A única homenagem que é possível fazer à Democracia é fazer dela algo vivido e sentido pelas pessoas. De outro modo, é um atavismo, um fetiche.
Ora se o Ventura, que não tem nada para ninguém – a não ser para os interesses que investem nele – vinga, com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma (perdoe-me, Irene Lisboa), por que não haveremos nós de fazê-lo, quando além da vontade de fazer algo real pelas pessoas, temos ideias e sabemos o que fazer?
Mamdani é sintoma de algo maior a acontecer, ainda que a espuma dos dias nos faça sentir que o contrário. Mas é algo que não acontecerá por si, automaticamente. Requer intencionalidade e inteligência. E não acontecerá sem luta e sem resistência no sentido contrário – portanto, requer coragem e compromisso.
Tudo o que os Democratas no Senado não demonstraram, esta semana cedendo à chantagem Republicana e terminando prematuramente a suspensão do Estado que, até aqui, era obra exclusiva dos Republicanos. Ao cederem, mostraram que a sua Oposição não é séria – é Oposição Controlada – e que o sofrimento das pessoas foi em vão. Mostraram que estão comprados pelos seus patrocinadores, que compram igualmente os Republicanos transformando o sistema bipartidário numa farsa que é preciso denunciar. E é por isso mesmo que as bases do partido estão furiosas e a pedir a cabeça do «Schmuck» Schumer, e não apenas dos oito Democratas que facialmente dobraram o joelho.
“Luta” é luta. Quem não entende isto, não está a fazer nada na política. Ou perdemos o medo de ser chamados de radicais, defendendo o que as pessoas realmente precisam, apontando-lhes o futuro e não deixando ninguém para trás só porque há o medo de ser menos popular ou o descontentamento continuará a ser cooptado por parasitas que só agravam mais a situação – até que a verdadeira radicalidade saia às ruas.
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João Barbosa


