Crónicas de um homem gay a caminho dos 50 anos
Eu, gay, me confesso… O homem é por vezes muito estúpido. E não estou a querer ofender ninguém, mas reconhecer o quão idiota sou em momentos frágeis e de grande vulnerabilidade.
Um dos grandes medos que tenho na vida é da solidão. Cresci rodeado de primos, mas foi pesado sem irmãos. Hoje em dia, que só tenho os meus pais e vejo-os a envelhecer um pouco a cada dia – tal como eu – receio cada vez mais o ficar sozinho.
Disclaimer: os amigos podem ser a nossa família e os nossos verdadeiros amores, no entanto, e ainda que não tenha razão de queixa em relação aos meus, tal como eu, têm a sua vida… Por vezes não há tempo, nem daqui para lá, nem de lá para aqui.
Este receio de estar e ser sozinho, por vezes coloca-me em saias justas. Dou por mim a ter amigos virtuais, que são amigos para a vida (às vezes não, grande parte das vezes, vá), mas ainda assim dão-me a ilusão de não estar sozinho.
A minha vida, já perto dos 50 anos, deu uma reviravolta enorme. Era técnico de sistemas e agora sou professor de francês, numa escola problemática na zona de Loures. Isto para dizer que de um extremo ao outro passei por situações menos boas, desde o assédio moral no local de trabalho, a paixões por narcisistas.
Há cerca de 2 anos conheci um colega de trabalho. Mas, sendo que trabalhávamos a partir de casa, foi um parto difícil conhecermo-nos pessoalmente. Se muitas vezes estas relações virtuais serviam apenas para dar uma ilusão de não solidão, com o meu colega, hoje amigo, foi exactamente o oposto. Tivemos horas de conversas profundas. Muitas vezes me salvou sem o saber.
Mas, e tal como comecei o artigo, eu homem, gay e tolo, por vezes meto os pés pelas mãos. E sou burro. E faço coisas parvas. E erro. O dito colega nunca me largou a mão quando eu mais precisava. E eu, com o meu constante medo de estar só, acabei por achar estar apaixonado por ele, numa altura em que nem a cor dos olhos lhe conhecia. E que problemático isto pode ser… Estava apaixonado pelo Miguel ou pela ideia que dele criei na minha cabeça? É que nem uma coisa nem outra. Apenas estava tão em baixo com as peripécias da vida, que me ia enganando e podia ter perdido – hoje em dia posso afirmar – um amigo que é ouro. Nunca me falha.
Nos últimos dias vivi situações tensas e intensas. Parece que, para o bem ou para o mal, quando as situações são menos boas, vêm aos pares. O Miguel esteve sempre ali. Ouviu-me, aturou-me o peso da vida, enxugou-me as lágrimas, muitas vezes apenas com um simples: “estou aqui.”
À semelhança do que aconteceu outrora, tive de parar, respirar, analisar. Se não estou bem, não posso estar apaixonado por alguém. Há grande afinidade por conta do carinho recebido, apenas isso. Nem ele pode gostar de mim, nem eu dele. Apesar de homens, consequentemente, burros, não podemos dar-nos ao luxo de, por conta duma aparente normalidade, por querermos fugir à solidão, agarrarmo-nos a ideia duma possível paixão. Idealizações senhores, apenas e tão só isso.
Tenho muito medo de estar sozinho, mas hoje, tal como ontem, estava tão vulnerável, que quem quer que me desse um pouco de atenção, arriscava uma paixão súbita do meu lado.
Meu querido Miguel, obrigado. Como dizem aqueles adultos que se vestem como putos, os escuteiros, creio, ‘sempre alerta’. E eu que me dê um descanso a vida. Chega de burrices. Mas, reitero o meu agradecimento. Como disse, os amigos podem ser os nossos amores. Tu conseguiste ser um desses amores para a vida.
Foto: https://depositphotos.com/pt
António S., um homem queer a caminho dos 50 anos


