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Como as pedras assobiam – parte I



Texto inspirado numa entrevista feita a Marina Machete (Miss Portugal 2023)

 

Que barulho faria uma pedra da calçada, se rasasse a nossa cabeça? Acredito que poucas pessoas tenham resposta para esta pergunta, no entanto, Marina conhece bem o ruído que fazem e como assobiam junto aos nossos ouvidos, quando atiradas por quem nos quer mal. 

O ódio não precisa de apoio para se disseminar e prolifera como as silvas, ao invadirem uma casa abandonada. Como estudante, quando as leis que a poderiam proteger eram inexistentes e a autodeterminação de género era apenas uma miragem, enfrentou inúmeras situações de violência. Se pudesse ter mudado de nome ainda com 16 anos, teria sido mais  fácil entrar numa nova escola, como Marina Machete, sendo apresentada a uma nova turma como uma qualquer adolescente – isso poderia ter evitado o apedrejamento e a marca que deixou o som sibilante das pedras atiradas por um grupo de rapazes, que viram Marina passar junto da escola.

– Só pararam porque uma das pedras atingiu um carro. Ficou-me a ideia de que respeitavam mais um automóvel do que a vida humana.

Na altura sentia que o bullying se estava a tornar mais agressivo, atiravam pacotes de sumo e bolas de papel para cima de Marina, num conjunto de acções  e ofensas que doíam cada vez mais. Faltava conversar com as turmas sobre direitos humanos e sexualidade, desmistificando o preconceito. Daí a importância das aulas de Cidadania e Desenvolvimento, actualmente – permitir o debate dentro das turmas, reflectindo sobre o respeito pelos direitos dos nossos pares, sendo que a melhor arma contra a ignorância é sempre a informação, envolvida numa conversa sincera, de olhos nos olhos.

– Cheguei a participar na competição inter-escolas de voleibol, com um grupo de raparigas. A professora de Educação Física permitiu a minha inscrição, contudo, se ganhássemos, eu não teria direito a uma medalha. Faltava informação e legislação, em contrapartida não havia um embelezamento do discurso de ódio, como acontece hoje em dia. 

marina machete

Marina Machete conquistou o lugar de Miss Portugal 2023 e ficou no Top 20 da Miss Universo do mesmo ano. Lamenta o facto de não ter chegado ao ponto de lhe ser colocado um microfone na mão, na competição internacional, pois teria tido a oportunidade de dar voz a tanta gente que é negligenciada, nomeadamente pessoas trans, que continuam a viver à margem da sociedade. 

– É por isso que as marchas arco-íris são o símbolo da nossa libertação, quem diz não compreender o motivo da sua existência, não sabe o que significa ficar fechado e depois poder sair e, simplesmente, existir. Não vamos todas/os com a mesma finalidade, é certo, mas existimos e não abdicamos do nosso espaço. A marcha é plural, porque a excentricidade é parte da libertação do ser humano.

O que terá mudado na vida de Marina Machete, após um ano de reinado? Será que voltaria a participar? A verdade é que, doze meses depois de tanta tinta derramada sobre o papel, como a primeira mulher trans a vencer um concurso de beleza em Portugal, Marina tem recebido o melhor e o pior.

 

A segunda parte deste texto será publicada dentro de alguns dias. 

 

Márcia Lima Soares

Instagram: marcialimasoares_

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