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Mulheres transgéneros: a história de pessoas que nasceram no corpo “errado” e que fizeram uma escolha, ser feliz

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Três personagens, três histórias diferentes, 3 países distintos, conheça Afrodite, Kiki e Giovanna, 3 pessoas trans que enfrentaram todos os obstáculos da sociedade, para ser realmente quem elas são, mulheres de corpo e alma.

 

 

O termo transgénero diz a respeito as pessoas (homem ou mulher) que nasceram com o género oposto ao sexo genital.

 

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Afrodite (Brasil) - A trans-identidade não tem idade

No documento de identidade consta o nome Heraldo Araújo, hoje o nome masculino ficou no passado e ela prefere ser chamada de Afrodite. Poderia ser mais um caso comum sobre trans-identidade se não fosse por um detalhe curioso - Afrodite é camionista [caminhoneira em português do Brasil] e continua exercendo a profissão que sempre teve, porém agora como mulher trans.

Após dois casamentos com mulheres e uma filha da união do primeiro relacionamento, Heraldo se assumiu mulher transgénero aos 66 anos, quando começou a fazer uso de hormonas femininas e a usar vestidos em tempo integral. Entretanto, o primeiro contacto com o universo feminino foi aos 13 anos quando experimentou pela primeira vez roupas de mulher. 

Após a revelação, veio o preconceito da própria família, mas especificamente dos irmãos com quem Afrodite tinha um negócio em sociedade com eles. O apoio veio do pai e dos sobrinhos, que não teceram comentários ao vê-la como mulher trans pela primeira vez, a filha também a apoiou porém temeu que o pai pudesse sofrer algum tipo de violência motivada por transfobia.

Até mesmo a primeira esposa com quem Afrodite foi casada durante 16 anos, hoje mantém um bom relacionamento com ela, o mesmo ocorre entre os colegas de trabalho, um meio massivamente masculino e machista.

A próxima etapa na vida de Afrodite é fazer a cirurgia de redesignação sexual e o implante dos seios, ela afirma que sempre se sentiu mulher em um corpo errado. Enquanto a cirurgia não ocorre, Afrodite segue dirigindo seu caminhão, usando salto alto, vestido comprido e maquiagem na face.

Recentemente, ela protagonizou um comercial publicitário da empresa Shell que gerou uma grande repercussão no país e principalmente em Cuiabá onde ela vive. A propaganda retrata histórias inspiradoras de caminhoneiros pelas estradas do Brasil.

“Eu não sou um caminhoneiro que virou caminhoneira, eu sou uma caminhoneira e estava presa no corpo de um homem”.

 

 

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Kiki Pais de Sousa (Portugal) -  Um exemplo de mulher trans de sucesso

Kiki nasceu em um corpo masculino mas a sua alma sempre foi feminina. Em 2011, quando a lei de identidade de género foi aprovada em Portugal, Kiki deu início a sua transição de género, que mudaria completamente a sua vida a partir daí.

Portugal não foi o pioneiro quando o assunto envolve pessoas transgéneros, sendo a França o primeiro país a desconsiderar a trans-identidade como transtorno mental, assim como a Organização Mundial de Saúde fez (OMS).

A transição de forma completa ocorreu em 2015, quando finalmente ela fez a cirurgia de redesignação sexual, além dos procedimentos estéticos para suavizar o rosto que já tinha traços femininos.

Na infância, o sentimento de pertencer ao corpo errado já dava indícios e as consequências era o bullying constante na escola, porém em casa, Kiki contava com o apoio da família, principalmente de sua mãe. Quando a discriminação parte da própria família, é muito mais difícil do que o preconceito que vem da rua, da sociedade.

Hoje, Kiki Pais de Sousa é uma das figuras mais influentes de Portugal quando o assunto envolve pessoas transgénero e diversidade sexual no país. Na série LGBT “ Melhorou”, Kiki expressou o que é ser uma mulher trans, o episódio teve tanta repercussão, que foi exibido até em outros países, tornando-a conhecida muito além de Portugal.

Não demorou muito para Kiki protagonizar algumas campanhas de carácter informativo, uma delas tinha como slogan Somos os Direitos que temos”, que visava o combate à discriminação em relação a qualquer tipo de orientação sexual, principalmente em relação às pessoas trans, onde existe ainda uma ausência de informação por parte de algumas pessoas.

E não parou por aí, em 2018 Kiki participou da campanha promovida pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima - APAV, cuja a mensagem era “combate ao ódio com respeito”. Além disso, ela também participou de um videoclipe de Sam the Kid.

Kiki além de activista atuante, é também uma empresária de sucesso, tendo criado a primeira e única sauna mista LGBT hetero friendly da Europa (SaunApolo56), onde todas as orientações sexuais são aceites num amplo espaço de lazer que visa agregar pessoas e jamais segregar, onde todos compartilham o mesmo ambiente, sem receios de discriminação, onde todos interagem respeitando o código de ética do local.

Além da SaunApolo56, Kiki também é uma das fundadoras de uma associação de comércio e turismo LGBTI. Vale a pena ressaltar que Portugal é um dos candidatos a sediar o megaevento Europride em 2022. Se isto acontecer, milhares de turistas gays do mundo inteiro irão conhecer as belezas e maravilhas de Portugal, uma grande festa de visibilidade mundial.

Em virtude de sua grande contribuição para a comunidade LGBT, Kiki participou na entrega dos prémios Arco Íris 2018 promovidos pela ILGA Portugal e também de um debate sobre trans-identidade no programa Você na TV da TVI, uma emissora portuguesa.

Além de ser uma das figuras trans mais representativas em Portugal, estando constantemente presente na imprensa e em diversos eventos e campanhas falando sobre a sua trans-identidade, Kiki é também um exemplo de mulher bem sucedida e respeitada em seu país.

 

 

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Giovanna - De São Paulo para o mundo

Giovanna Magrini percebeu ainda muito cedo em Bauru (São Paulo) que era uma mulher transgénero e como na maioria dos casos, sofreu preconceito da própria família e também na escola, onde foi expulsa de dois colégios apenas por ser trans. A falta de oportunidades e apoio familiar a levou ao mercado do sexo ainda muito jovem, mesmo tendo terminado com muita dificuldade o segunda grau.

Mas sua determinação não deixava que nada a abalasse, e ela estava segura que iria correr atrás dos seus dos seus sonhos e deixar para trás um dia, a árdua rotina como trabalhadora do sexo.

Ter os seios perfeitos só foi possível quando em 1998, Giovanna participou de um programa popularesco na TV (Ratinho), junto com outras mulheres transgénero. A história que mais sensibiliza-se o público levaria o prémio (a tão sonhada prótese de silicone). Ao contrário das suas colegas, que omitiram as suas profissões reais, Giovanna foi sincera e expressou sua história, a dura realidade das ruas escuras e perigosas de São Paulo, que ela tanto desejava abandonar.

Mas os sonhos dela iam muito além da prótese, ela queria fazer o que muitas mulheres trans fazem há décadas - tentar a vida na Europa. Em 2001, ela parte rumo a Espanha. Por um golpe do destino, ao sair pela porta errada do aeroporto achando que a levaria a conexão para o outro país, Giovanna perde o voo e se vê sozinha e perdida em Paris, o acaso trouxe-a à  cidade luz, onde ela fixou residência, mudando completamente seus planos.

A vida em Paris não foi fácil no começo, sem falar uma palavra de francês, ela teve que aprender o idioma no dia a dia, e para sobreviver não houve outra saída, a não ser a venda do corpo no conhecido parque Bois de Boulogne (um reduto conhecido do sexo pago). Foram 4 anos penosos onde o famoso parque foi o seu local de trabalho e também a sua única forma de sustento, ali ela fez amigos, ganhou dinheiro, mas Giovanna estava empenhada em fazer da difícil vida como acompanhante sexual um facto do passado, ela estava determinada em realizar seus sonhos, um deles, ser actriz.

Em 2003, ela faz uma participação de destaque no filme francês Tiresia, que contava com alguns actores brasileiros, apesar de não ter gostado da temática abordada, Tiresia serviu como um pontapé inicial para quem desde criança queria ser actriz. No ano seguinte, a produção do filme Wild Side (Lado Selvagem) recruta algumas transexuais para fazer testes para o papel principal do filme. A história girava em torno de uma trans que vive um relacionamento a três com dois imigrantes de origem russa e argelina. Giovanna faz o teste, apesar de ter ido bem, o papel acabou indo para Stéphanie Michelini.

Mesmo assim, ela participa do filme junto com outras colegas que revelavam a rotina nas noites escuras do Bois de Boulogne, em uma das cenas Giovanna se destaca, dialogando com a protagonista esbanjando espontaneidade com seu sotaque paulista. O filme se torna sucesso de crítica e público, participa de festivais mundo fora, factura alguns prémios e Giovanna decide tirar o seu registro como actriz. Em 2009, ela cria um canal no Youtube, chamado Diário da Gio, onde ela expressa a sua luta contra a LGBTfobia, além de dar dicas de turismo em Paris.

Vender o corpo já não fazia mais parte da rotina dela (felizmente), que logo começou a ser chamada para fazer testes para filmes e programas de TV. Em 2011, ela se torna uma das protagonistas do documentário O voo da Beleza, que retratava a vida de mulheres trans na cidade luz. No documentário ela rouba a cena, dando depoimentos honestos com uma franqueza poucas vezes vista ao longo da obra, que também ganhou alguns premios no Brasil. 

Daí em diante, Giovanna faz diversas participações em filmes franceses, além de atuar activamente em campanhas ligadas à causa LGBT, uma delas em 2018 em um comercial de TV (de caráter educativo) sobre VIH idealizado pela prefeitura de Paris, onde ela faz o papel de uma trans latina soropositiva, cujo objetivo é mostrar que o uso dos medicamentos de forma correta, não apresenta risco de transmissão.

Mas a campanha de maior repercussão criada pela organização Urgence Homophobie no mesmo ano, abordava como tema principal a transfobia. Cerca de 30 personalidades francesas entre atores, cantores e apresentadores participaram da campanha onde mostra Giovanna sendo alvo de transfobia, ao ser cuspida no rosto por um rapaz, em uma cena de grande impacto emocional. 

 

O seu mais recente trabalho como actriz, foi em uma produção francesa que mistura ficção com documentário, onde Giovanna interpreta uma trans portuguesa, a obra entrará em cartaz nos cinemas do país em 2020.

Paralelo a carreira no cinema, ela trabalha também na organização ACCEPTESS-T. Criada em 2010 pela colombiana transgênero Giovanna Rincon, a associação tem por objectivo lutar contra todas as formas de exclusão e discriminação ligadas a identidade de género. Foi através da ACCEPTESS-T, que Giovanna teve a chance de concluir o curso em formações na saúde pública.

Além disso, a ACCEPTES-T visa também a transmissão de informação a respeito de doenças sexualmente transmissíveis (DST), através de seminários com instituições que apoiam a causa. A associação também se preocupa com transgéneros que vivem (ou não) da venda do corpo, onde tentam facilitar a obtenção de atendimento para elas no sistema social e de saúde francês, promovendo o acesso aos serviços públicos, a cultura, ao emprego e a formação.

Além disso, a associação oferece também asilo político para mulheres e homens trans de países árabes que condenam a pena de morte qualquer indivíduo que não seja cisgênero (heterossexual). Uma forma de garantir proteção e refúgio para aqueles que são perseguidos em seus países de origem por serem considerados diferentes (transfobia).

Como militante atuante, Giovanna colabora em algumas vertentes da ACCEPTESS-T, em funções como apoio social e o acompanhamento físico e mediação em saúde, onde sente-se realizada por estar fazendo a diferença na vida de outras pessoas trans, que assim como ela, passaram por dificuldades quando chegaram em Paris.

Recentemente, Giovanna conquistou uma outra vitória, recebeu do Governo francês um apartamento através de um programa social semelhante aos que existem no Brasil. Além de estar a um passo de se naturalizar francesa, ela é um exemplo de mulher transgénero que superou todos os obstáculos ao longo da vida sem vitimismo, encarando de frente as dificuldades e o preconceito em um país desconhecido, sendo hoje uma referência de sucesso para outras mulheres trans, provando que não basta sonhar, tem que acreditar.

 

No Brasil, 

André Araújo - Jornalista e Consultor de Turismo