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Não Monogamias Consensuais

Daniela_Alves_Ferreira

Como referi num artigo anterior a monogamia surgiu na época do neolítico como forma de garantir a transmissão da propriedade à linhagem masculina. Produto do patriarcado, este modelo relacional perdura como maioritário até aos nossos dias.

Apesar de maioritário, os relacionamentos fora do casamento, as denominadas Não Monogamias Não Consensuais (NMNC), na gíria “traições’, foram sempre comuns, principalmente no caso dos homens. Nas NMNC, a não exclusividade é omitida ou imposta para algumas das partes envolvidas. 

Acredito estarmos actualmente a caminhar para uma mudança de paradigma. No mundo ocidental, nas últimas décadas, têm vindo a ganhar visibilidade modelos relacionais nos quais a não monogamia é consensual (NMC). Em modelos como as relações abertas ou como o poliamor, as pessoas envolvidas conhecem e estão de acordo com a não exclusividade. A visibilidade das NMC poderá ser reflexo de um aumento efectivo de pessoas que escolhem este tipo de modelos relacionais. Estarão algumas das relações monogâmicas ou não monogâmicas não consensuais a dar lugar a não monogamias consensuais (NMC)? Acredito que sim. 

Tenho reflectido um pouco sobre o que possa estar na origem desta eventual transição. Serão vários os factores sociais conducentes a essa alteração, e saliento apenas alguns dos que ocorreram nas últimas décadas: a perda de influência da religião, a facilidade de acesso ao conhecimento, o surgimento de movimentos activistas do poliamor, uma maior igualdade entre os géneros e uma maior visibilidade LGBTI+. A meu ver, esta conjugação de fenómenos sociais levaram ao enfraquecimento do modelo heteromativo e consequentemente a uma das suas bases: a monogamia. 

Por exemplo, com o enfraquecimento da religião, grande promotora do modelo heteronormativo, a indissolubilidade das relações começou a ser posta em causa. Hoje as relações não se mantêm a todo o custo, duram apenas até serem satisfatórias para as pessoas envolvidas. Essa satisfação pode passar por quebrar o contrato da monogamia.

Hoje as relações não se mantêm a todo o custo, duram apenas até serem satisfatórias para as pessoas envolvidas.

Também o empoderamento das mulheres contribuiu para a fragilização do modelo heteronormativo e poderá ter influenciado o aumento das não monogamias consensuais. Com a massificação do uso de métodos contraceptivos, as mulheres vivem hoje a sua sexualidade de forma mais livre. O sexo deixou de estar refém da procriação, pode ser vivido de forma recreativa, como fonte de prazer. Para além disso, fruto de uma maior igualdade de género, as mulheres têm hoje maior poder de negociação dentro das relações. Nesse sentido, a não exclusividade, que antes era apenas tolerada aos homens, hoje pode passar a ser uma possibilidade válida para homens e mulheres. Se a não exclusividade é alargada ao casal, é natural que possam surgir acordos para a relação assumir um modelo de Não Monogamia Consensual (NMC).

O sexo deixou de estar refém da procriação, pode ser vivido de forma recreativa, como fonte de prazer.

O surgimento de movimentos activistas poliamorosos, associado à facilidade de acesso e partilha de experiências não monogâmicas nas redes sociais, sites, podcasts, entre outros, também contribuíram para uma maior visibilidade das relações não monogâmicas consensuais. Com o acesso facilitado ao conhecimento e à partilha de experiências não monogâmicas, começa a surgir a consciência de que mesmo estando alguém numa relação satisfatória pode sentir vontade de estar com outras pessoas. Isso não é nenhum defeito próprio, não há que se sentir mal por isso, anular essa vontade ou trair, pois existe a possibilidade de negociar o contrato de exclusividade da relação.

Com o acesso facilitado ao conhecimento e à partilha de experiências não monogâmicas, começa a surgir a consciência de que mesmo estando alguém numa relação satisfatória pode sentir vontade de estar com outras pessoas.

Paralelamente, a facilidade de estabelecer ligações afectivo/sexuais, potenciada pelas APP de encontros, terá também impulsionado o aumento das NMC, pois a não exclusividade pode estar à distância de um simples deslizar para a direita.

No que diz respeito à orientação sexual, a adopção de modelos relacionais em que a não monogamia é consensual (NMC) parece ser transversal a todas as orientações sexuais, mas, segundo alguns estudos, as pessoas LGBTI+ revelam maior abertura para estes modelos de relacionamento. O factor explicativo poderá ter a ver com uma maior influência do modelo heteronormativo nos casais heterossexuais. Apesar de muitos casais homossexuais incorporarem o modelo heteronormativo nas suas relações (homonormatividade), parece haver uma maior abertura para a inclusão de modos de vida e modelos relacionais alternativos pelas pessoas LGBTI+. De entre as pessoas LGBTI+, as mulheres lésbicas terão menos predisposição para a não monogamia que os homens gays, devido ao factor diferenciador do género que, apesar de esbatido, continua a influenciar a vivência da sexualidade de forma livre. O facto de haver mais visibilidade das relações entre pessoas do mesmo sexo nas últimas décadas poderá também levar a um aumento da reflexão sobre o modelo heteronormativo, e à monogamia inerente. 

A meu ver, a combinação de factores que referi tiveram um forte impacto transformador nas pessoas. Estas deixam cada vez mais de ser apenas o produto das normas culturais, passando a reflectir sobre o sentido de cada uma delas. No seguimento desta reflexão as dinâmicas relacionais alteram-se. O modelo heteronormativo começa a ser questionado, assim como uma das suas bases: a monogamia. 

A meu ver, fragilizado o modelo heteronormativo, a perspetiva é a de que cada vez mais as relações deixem de ter como base a exclusividade. Transversalmente às orientações sexuais e ao género, as gerações mais jovens estarão cada vez mais abertas aos novos modelos relacionais.

 

Daniela Alves Ferreira