Cresci a ouvir o peixeiro às 9 da manhã e a ir buscar pão às 17h para a minha avó que estava na costura.
Apesar de ter nascido nos anos 2000, cresci numa aldeia onde era normal acordar com as cabras ao lado da minha casa e com o trator a meio da manhã.
Fui uma criança feliz, mas sentia sempre falta de algo.
Lembro-me de ter sete anos e de estarmos na escola a comentar o que gostaríamos de ser no futuro. Todos os meus colegas responderam que gostavam de ser polícias, médicos, veterinários e quando chegou à minha vez respondi: jornalista e modelo nas capas de revistas. Obviamente que fui alvo de chacota até deixar a primária.
Cresci a trancar-me na casa de banho com vergonha por gostar de não ser igual aos outros.
E será que isso era realmente o problema?
Ou vivemos numa sociedade que não nos faz questionar sobre as coisas?
O que é certo é que os portugueses têm uma certa tendência para pensarem que as coisas só acontecem aos outros, principalmente quando alguém diz que não quer levar uma “vida banal”.
Costumam dizer às crianças para sonharem alto, mas quando uma criança realmente aparece com grandes planos, é-lhe logo dito que a vida não é um mar de rosas.
Desde quando é que se banalizou descartar os sentimentos das criança?
O papel da família é guiá-la, formá-la enquanto cidadã, para quando for adulta, consiga ser independente e ser o que realmente quiser, mas torna-se impossível quando a criança, que está em desenvolvimento, cresce num sítio onde ouve a frase “isso só acontece aos outros”.
A criança fica com a perspectiva de que tem de agradar a família, seguir os parâmetros que ela idealiza e futuramente irá se tornar num adulto frustrado.
A frustração, na realidade, é um ciclo que vai passando de geração em geração e só irá parar quando nascer a ovelha negra.
O termo “ovelha negra” surgiu na Grécia Antiga onde os pastores costumavam ter rebanhos de ovelhas brancas e ocasionalmente uma ovelha negra. Com o passar dos anos essa imagem foi-se passando para o ser humano. Sendo caracterizado como “ovelha negra”, uma pessoa que, dentro da sociedade onde se insere, desvia-se das normais sociais e das expectativas atribuídas aos estereótipos de género.
Por isso não me importo e até tenho um certo orgulho em ser a ovelha negra da família.
Desde pequena que odiava as minhas raízes, viver numa aldeia longe de tudo, sem amigos e dos pouco que tinha moravam longe. Hoje olho para isso e tiro como aprendizado as diferentes perspectivas que adquiri, nas histórias que ouvia e das coisas que não queria para mim enquanto mulher.
Em casa tenho a fama de feminista zangada só porque não tolero piadas machistas e homofóbicas que se dizem sem nos apercebermos. Ainda bem que sempre fui muito atenta.
A cultura heteronormativa está tão enraizada na nossa sociedade que ninguém olha às piadas disfarçadas de machismo e de homofobia, e quando alguém crítica leva com a típica frase “hoje em dia já não se pode dizer nada”.
Ainda bem. Só podemos mudar esta cultura tão virada para os estereótipos de género e para a heteronormatividade, quando alguém for a ovelha negra ou a pessoa que não tolera piadas. Só assim é que se faz a diferença.
Na realidade os homens fazem tudo girar à sua volta.
Como se nós mulheres, precisássemos deles para sermos vistas. Basta voltamos ao tempo dos reis.
Éramos propriedade deles, não tínhamos nome nem voz, éramos a “mulher de x homem”. Tínhamos de nos casar logo assim que tivéssemos a primeira menstruação e aí de nós se já tivéssemos tido relações sexuais antes do casamento. Tínhamos de ir puras para nos tornarmos propriedade de um homem, porque só assim é que seríamos alguém. Se ficássemos sozinhas éramos consideradas solteironas e seríamos postas de parte pela sociedade.
Hoje não é muito diferente.
Assistimos a movimentos anti-LGBTQIA+ e se uma mulher que diz que não quer ter filhos é bombardeada com perguntas e com insinuações de que é egoísta.
As pessoas preocupam-se demais com o que não é delas e quem sofre com isso são os jovens e os futuros jovens que não terão liberdade para se conseguirem explorar.
Tudo isto porque vivemos numa sociedade ainda muito fechada, com muitos anos de história e de construção.
Imaginem agora vocês terem tudo o que querem e chegar alguém a dizer que não tem nada e manifestar isso. Chato né?
É o que acontece com as sociedades de elite quando existem manifestações sobre os direitos das mulheres e da comunidade LGBTQIA+.
O mundo só irá andar para a frente com as pessoas chateadas, irritadas e fartas de um sítio onde não possam ser verdadeiramente felizes.
O mundo precisa de mais pessoas rebeldes, que não aceitem o raso que sempre tivemos.
Não é ser mal-educada, o sistema é que sempre foi mal-educado.
O mundo precisa de mais pessoas rebeldes, que não aceitem o raso que sempre tivemos.
Mariana Filipa Ferreira



7 Comentários
Diogo
Quero te dar os parabéns por este artigo bem conseguido e onde espelha tão bem o que é a nossa sociedade nos dias de hoje.
Fico à espera de ler mais artigos teus.
Bjs
Fernanda Maria Marques Bolas Rodrigues
Grande linda Mariana amei a tua forma verdadeira de veres a nossa sociedade atual. Continua a ser a ovelha negra e lembra te para ti o céu é o limite 😘😍❤️
Vitória
Muito bom! o artigo está simplesmente um espetáculo! muitos parabéns mariana, continua assim! Que o futuro tenha o melhor reservado para ti
Telma
Mais duro que ser a ovelha negra, e viver na prisão de fingir uma pelagem branca…. São 50 anos de atraso cultural neste país! Havemos de lá chegar.
Muitos parabéns pelo teu artigo. O sistema precisa estimular o sentido crítico, a por cada um a pensar por si, e não a criar rebanhos!
Parabéns pelo teu artigo.
Diogo
É um texto muito lindo, é deste tipo de pessoas que o mundo precisa, que não tenham medo de dizer o que sentem, parabéns !!
Gonçalo
Não podia estar mais de acordo com esta realidade. É muito frustrante ver os desejos e ambições dos mais jovens serem obliterados e reduzidos a nada, onde é muito comum ouvir comentários do género “não vale a pena” ou que “isso não leva a lado nenhum”. Seja por não estarem de acordo, considerarem que o investimento não valerá a pena, ou simplesmente pelos pais “protegerem” os filhos dos perigos desse caminho, acabamos sempre por acreditar nas suas palavras e a respeitar a ordem, e acabamos por desistir do sonho.
Não podemos escolher a situação ou o lugar onde nascemos, nem fugir ao nosso passado ou esquecer as nossas raízes. Mas temos o poder de crescer, sonhar, e transformar as críticas da frustração em motivação para sermos mais fortes e continuar o nosso caminho.
Se acreditamos vivamente numa visão, cabe-nos a nós optar por seguir a estrutura e desistir, ou desafiar os parâmetros definidos e ir atrás do sonho. No futuro, temos a oportunidade de mostrar que o que parecia impossível apenas o era para as pessoas frustradas que não acreditavam na nossa visão, e que a “ovelha negra” é feliz a ser diferente dos outros.
Excelente artigo e parabéns pelo trabalho, Mariana!
Fabíola Cardoso
Vivam as ovelhas negras!!
E as ovelhas coloridas!
E todas as pessoas que não querem viver em rebanhos!
👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽🩷