Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos
Sabe o caríssimo leitor que estou bem. E estou feliz. Mas, enquanto amamos e durante o processo de cura, por conta de vidas passadas, é com frequência que somos atormentado com medos e situações já vividas, já experienciadas. Não quero – ou talvez sim – um aliança no dedo esquerdo (bastante heteronormativo, eu sei), mas paz de espírito e um amor tranquilo.
Digo isto sem medo. Sou intenso. Sou demasiado. E, após 13 anos solteiro, quem me quiser, terá de querer o pacote inteiro. Aos 20, 30 ouvia eu calava -me quando me diziam:
# Opa, larga-me.
# Então não queres ir visitar os teus pais, para eu poder ir engatar para a sauna?
# Vais comigo, mas fazes o que eu quero.
Não. Isso era antes. Quando não tinha o mínimo respeito ou amor próprio por mim. Lá atrás, há 15 ou 16 anos, baixava a cabeça, porque achava que não merecia melhor. Hoje não. O amor próprio cultiva-se – não é fácil, mas chega-se lá.
Quando começamos a amadurecer, não deixamos que nos tratem como opção. Ou estão connosco ou boa viagem. Ninguém tem de ser o caixote do lixo ou o lugar de frustração alheio . Isto custou-me muitos anos de terapia. Isto custou-me destruir-me e reconstruir-me várias vezes, mas valeu muito a pena. Não podemos entorpecer emocionalmente, só porque sim. Só porque nos é exigido – e nós, como carneiros, vamos com o rebanho… Deixemos isso para as igrejas e para certos grupos políticos de extrema direita que assim gostam de doutrinar os seus fiéis.
Desafio o estimado leitor a ser autêntico – não da espécie de autêntico que diz, ah e tal, sou como sou, e usa tal desculpa para vomitar toda a educação que nunca recebeu, – mas autêntico a sério. Não somos animais, bem sei. E numa relação há que haver equilíbrio. Mas, tão e somente isso, equilíbrio. Ninguém deveria ter de se diminuir para caber no mundo de ninguém.
E a vida – acredite o leitor – são dois dias. Afirmo-o eu que já passei, e muito, dos 40 anos. Por isso, ame cada qual como queira, sem medo de ser ou não intenso. Beije e faça amor, muito e como tiver vontade. Vá cada qual às peças de teatro, filmes, concertos, pôres do sol, o que seja, que o que o faça feliz. Mas, e reafirmo de novo, nunca se diminua. Se nos diminuímos para caber no mundo de alguém é porque não pertencemos lá. Tenho quase 50 anos, já estive nesse lugar tenebroso, não recomendo a ninguém.
E como dizia o poeta: “Deixem-me ser intenso, só tenho esta vida e nem sei até quando”…
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Foto: https://depositphotos.com/pt
António S., um homem queer a caminho dos 50 anos


