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A primeira vez que escrevi para o dezanove.pt, eu não estava à espera de fazer disto um esforço regular. Contudo, tendo em conta os mais recentes acontecimentos, aqui estamos, pelos vistos.

Ora então [João Barbosa arregaça as mangas]: depois de 20 dias de LGBTQIA+fobia, o Observador decidiu finalmente fazer qualquer coisa de útil e publicou, a 26 do corrente, uma reportagem sobre o facto de o Cardeal Patriarca de Lisboa ter conhecimento de crimes de abuso sexual que ocorreram no final da década de 90.

 

O que sabe do caso, até agora, é que ele envolve um padre, responsável por duas paróquias em Lisboa e um rapaz, de quem abusou. O caso foi relatado na altura ao anterior Cardeal Patriarca, D. José Policarpo, que nada fez excepto comentar que o criminoso estaria a receber um tratamento. Em 2019, já o crime prescrito - porque ao não terem feito nada sobre o caso, a ICAR, sublinhe-se, deixou-o prescrever - a mãe da vítima convenceu o rapaz a reviver o seu trauma e a voltar a falar - desta feita ao actual Cardeal, D. Manuel Clemente. Que, mais uma vez, nada fez.

 

Dois anos volvidos (pandemia e tal), a 10 de Janeiro deste ano, na sequência dos recentes escândalos internacionais dos abusos sexuais de crianças por padres, foi finalmente aberta, cá, uma comissão independente de inquérito sobre o drama (o projecto “Dar Voz Ao Silêncio”), liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht. 

 

Apenas quatro meses após o início dos trabalhos, em Abril, a comissão já tinha ouvido 290 testemunhos válidos e já tinha remetido 16 casos para o Ministério Público. Em nenhum momento o dito Cardeal referiu o seu conhecimento sobre o caso, incluindo a dia 10 de Maio, quando a dita comissão fez uma conferência pública, para dar conhecimento do estado dos trabalhos

 

Não é de estranhar que nada dissesse. Três dias após a peça do Observador, o actual Patriarca publicou uma carta-aberta, em que comenta o caso. Eu cito, com sublinhado meu: “Em relação ao sacerdote em causa, o mesmo foi acompanhado e até à atualidade nunca houve qualquer denúncia ou reparo sobre o seu comportamento moral. Nunca ninguém comunicou, nem sob anonimato, qualquer acusação.”.

 

Qual é a parte que D. Clemente não entende? Estamos a falar de um caso que foi duplamente denunciado sobre esta mesma pessoa e ele diz que não houve qualquer denúncia? Isto é dissonância cognitiva?

 

É, pelo menos, escabroso. A Igreja, que continua a receber do Estado um estatuto de absoluto privilégio (uma espécie de Estado internacional dentro de uma série de outros estados) que não se entende num país laico e Republicano - privilégio esse, que passa pela borla fiscal que ainda conserva, que mais ninguém tem - teve conhecimento de pelo menos este caso e não o comunicou às autoridades civis. Em nome de quê?

 

É facto que é mais ou menos por esta altura que são alteradas, pela primeira vez, as directrizes da própria ICAR sobre abuso de menores. D. Clemente, que não é burro nenhum, escuda-se por trás desse formalismo. Mas importa realmente perceber se isto foi reportado a D. Policarpo antes ou depois dessa alteração? Mesmo que a primeira denúncia tenha sido feito antes, uma vez tendo sido alteradas as ditas disposições, não havia mais qualquer entrave para a divulgação.

 

Mais: a História está cheia de desobediências éticas. É, inclusive, prerrogativa do cidadão Português resistir a uma ordem desumana, seja ela emitida por quem for (quanto mais, por uma instituição que não é pública). Eu sei que a Igreja obedece mais depressa a um Estado estrangeiro, o Vaticano (que, em 2013 ocupava, segundo a Rede Voltaire, o oitavo lugar no ranking global de lavagem de dinheiro - por, note-se, entre outras coisas, tráfico de armas e de droga - e em 2021, viu o ex-Presidente do seu Banco condenado por peculato e lavagem de dinheiro). Mas aqui, em Portugal, D. Clemente, os senhores ainda obedecem às nossas leis, lamento. 

 

Como é possível alguém ver-se como membro de uma organização que se sente no direito de se imiscuir em todos os aspectos da vida das pessoas e, como guardião dos bons costumes, não se sentir obrigado moralmente e perante o seu Deus, a - nem que seja anonimamente - dar conhecimento do caso às autoridades civis?

 

O caso tem requintes de canalhice quando percebemos que o dito sujeito, entretanto, ficou à frente de uma instituição privada de… acolhimento de jovens. O próprio D. Clemente diz, na citada carta-aberta, “O sacerdote foi afastado da paróquia onde estava e nomeado para servir numa capelania hospitalar”. Ao ler isto, eu tenho de me segurar para não escrever uma série de impropérios. Os senhores perderam toda a noção do ridículo? A vossa ideia era deixá-lo “na vida dele” até que alguém, finalmente, o reportasse novamente? 

 

Como é possível que ninguém se tenha indignado com isto, na organização mais pura do mundo? Dois Cardeais Patriarcas - e sabe-se lá mais quem - e ninguém, ninguém fez nada?

 

Mas nós temos o dossier e chegaram recibos. Quero lembrar que à altura que estes casos se estavam a dar e a ICAR tinha conhecimento deles, a comunidade LGBTQIA+ estava impedida não só de casar, como também de adoptar crianças, porque corria na sociedade a suspeição que a comunidade LGBTQIA+ era tendencialmente pedófila - uma suspeição que a ICAR ajudou a consolidar, através de pessoas directamente ligadas a si. 

 

Aliás, toda a gente com dois dedos de testa sabe perfeitamente que a grande questão da Extrema-direita com a pedofilia é só um cavalo de Tróia para trazer esse crime para a ribalta - não para desmantelar organizações que aquartelam pedófilos, como a ICAR, mas para depois a associar à comunidade LGBTQIA+ e assim passar leis que retirem direitos humanos a quem é dessa comunidade. Mas enquanto eu tiver voz, não passarão!

 

Que fique uma coisa bem clara: eu luto pela auto-determinação de cada um. Isso inclui a liberdade religiosa. Eu luto para que cada um possa exercer o culto que quiser - desde que não à parte da lei - mesmo que não seja o meu culto. 

 

Ao contrário de mim, porém, o que a ICAR sistematicamente faz é transcender o que impõe à sua comunidade e tentar fazer o mesmo ao resto de todos nós que estão de fora dela. Mas depois falam do “lobby gay” sempre que alguém minimamente se levanta para defender esta comunidade historica e repetidamente ameaçada. 

 

Os grandes pró-vida, que são contra o aborto, estão mais preocupados com os que nasceram, do que com a vida das crianças e jovens LGBTQIA que por esse país fora sofrem por causa dos preconceitos que eles próprios institucionalizaram. 

 

A mesma ICAR a quem podem ser directamente ligados todo o tipo de preconceitos que ainda hoje estigmatizam diversas camadas da sociedade - desde o machismo até ao racismo, passando pela intolerância religiosa - ao mesmo tempo que desviava a atenção da sociedade para estes grupos, que ajudou a marginalizar, dava cobertura a abusadores de crianças, abafando processos como este, e fazendo os prevaricadores circularem de paróquia em paróquia, de instituição em instituição, consoante estes reincidiam e tinham de deixar mais uma cena do crime para trás, para ainda mais confundir as autoridades e a justiça laica. Mais depressa a ICAR castigava as vítimas do que os criminosos. Como é que podemos deixar isto impune, mais uma vez?

 

A mesma ICAR a quem, em nome de um mandato divino, o Estado confiou-lhe, durante muito tempo, a tarefa de tomar conta de inúmeros órfãos - muitos deles, feitos pela sociedade que a própria Igreja ajudou a criar - sabe-se hoje, encobriu os casos de mais de duzentas mil crianças molestadas em França, desde 1950. No Canadá, foram mais de 1000 crianças Indígenas. Na Austrália, já sem contar com o caso Pell, que sabia dos abusos desde 1970, foram encontrados 4444 casos de abuso sexual de menores, 15% dos quais de padres, reportados à comissão congénere. Fora os que eram confessados aos ditos padres, e que estes guardavam para si, em nome da sacralidade do segredo da confissão - mais sagrado, pelos vistos, do que a vida das crianças violentadas. Na Alemanha, 3677 crianças abusadas por 1670 homens do clero. Nos EUA, mais de 1000… Na Irlanda, alguns abusaram de tantas crianças, que até “lhes perderam a conta”… é um desfiar de horrores.

 

Esta é a mesma ICAR, de quem aprendemos a normalizar as piadas acerca do padre que visitava os seminaristas à noite, na cama. Acredito que há pelo menos uma pessoa relativamente proeminente do Chega que poderá querer comentar acerca da promiscuidade dos seminários. Ilustrando, aliás, o que eu disse acerca do compromisso da Extrema-direita com as crianças afectadas pela pedofilia, André Ventura - ao lado de quem D. Clemente não teve nojo de se ver fotografado - que, lá está, enche a boca para falar das castrações químicas de pedófilos demorou três dias para dizer alguma coisa e o que disse - só depois do barulho generalizado que se levantou nas redes sociais acerca do seu silêncio - resumiu-se a um bando de generalidade do tipo “se fosse eu” - que não é, nem nunca foi, nunca seria e, portanto, vale zero. Um comentário tão vazio quanto a utilidade do seu mandato para a nossa sociedade. Fosse alguma organização de Esquerda ou algum movimento de ajuda à comunidade LGBTQIA+, André Ventura estaria rouco de tanto berrar e careca de tanto arrancar os cabelos a pedir a sua ilegalização. É quase como se as crianças não fossem mais do que armas de arremesso e a pedofilia uma cortina de fumaça para esse inútil que se senta na Assembleia da República.

 

Esta é a ICAR que nos deu o Padre Frederico, que ela insistiu ser inocente, mesmo após a leitura da sentença do padre pela morte de um rapaz de 15 anos. Por que é que continuamos a tolerar isto? Como se a infâmia não tivesse enchido a taça e transbordado-a, o Presidente da República rompe o seu silêncio não para condenar os abusos, mas para defender os seus dois amigos. O mesmo Marcelo Rebelo de Sousa que não vê razões para desconfiar deles, em 2013 pedia que fosse realizado um referendo, para saber se a população achava bem os LGBTQIA+ adoptarem crianças

 

E a dia 29 deste mesmo mês, no mesmo dia em que sai aquela escabrosa carta-aberta do Cardeal Patriarca, a Câmara de Lisboa anuncia-se disponível para investir até trinta e cinco milhões dos nossos impostos num evento de endoutrinação juvenil ligado à ICAR, a tal organização que não paga impostos. 

 

Está tudo doido?

 

A mesma organização que foi instituída especificamente para endoutrinar a sociedade libertou um mal tão persistente no mundo, que quando se tenta colocar do lado certo, é agora criticada pelos próprios que endoutrinou e radicalizou contra a comunidade LGBTQIA+. Karma is a bitch.

 

A mesma organização que é responsável directa por estes crimes e pela sua ocultação é aquela que se acha com superioridade moral para criar a Opus Dei, que influencia pessoas como os pais de Famalicão; para criar a mentira da “ideologia de género”, que a Extrema-direita come às colheres; para ter clérigos seus envolvidos na tortura anti-ética e anti-científica das terapias de conversão (lembrando que há um ano, por esta altura, corria uma petição para a sua ilegalização - façam barulho para banir este medievalismo) que traumatizam crianças e as levam a comportamentos auto-destrutivos e ao suicídio. Era este, o tal tratamento a que o abusador estava a ser submetido?

 

Parafraseando a Greta Thunberg, “how dare you”?

 

Em nome da vossa suposta proximidade com Deus, vocês dominaram a sociedade durante séculos, avalizando reis e acumulando riquezas e privilégios - o caso de corrupção mais alargado da história da Humanidade. 

 

Com esse poder, a vossa instituição chacinou os Cátaros; foi a primeira responsável pelas Guerras Santas que a Europa moveu contra povos que, muitas vezes, não nos fizeram nada (e depois, em conluio com a realeza, perseguiu os próprios Cruzados, como os Templários, por exemplo); apoiou os «Descobrimentos» e a subsequente colonização, convertendo escravos ao Cristianismo à força. E acham que isto vai lá com um pedido de desculpas?

 

A vossa Inquisição (uma organização sem paralelo no mundo), que perseguiu Judeus antes dos Nazis, que perseguiu inúmeras mulheres como “bruxas”, que perseguiu sábios, como Copérnico, Galileu Galilei, Leonardo da Vinci (este duas vezes acusado de homossexualidade, que a ICAR criminalizou) é responsável por noter mantido no obscurantismo durante séculos é obra vossa. 

 

E como se o sangue nas vossas mãos não fosse suficiente, vocês foram cúmplices do regime Nazi, do regime Franquista, do Fascismo Italiano e do regime Salazarista e, nos anos 80, directamente responsáveis pelo desnecessário sofrimento imputado às vítimas do VIH - uma doença que os Conservadores que vocês endoutrinaram celebravam como a “peste gay” e um castigo divino contra a comunidade LGBTQIA+. A maior doença é a vossa, que conseguiram pegar na mensagem de Amor, do vosso Cristo, e a tornaram no alibi perfeito para os crimes mais hediondos da história do bicho-gente.

 

Ainda nos nossos dias, vocês continuam a espalhar obscurantismo, com as vossas campanhas de medo contra a eutanásia e a contracepção. Ao mesmo tempo, insistem em ser contra o aborto e definem “educação sexual” como “abstinência” - como se vocês próprios a praticassem, sequer. Vocês são directamente responsáveis pelo trauma - quando não, morte - de imensas pessoas jovens grávidas, em especial de minorias desfavorecidas. E pelo drama de imensas crianças nascidas em lares degradados ou abandonadas para adopção - de quem, pelos vistos, vocês ainda abusam sexualmente, a seguir. 

 

Já chega. Depois disto tudo, o que resta a alguém de bom senso dizer é “salvem as nossas crianças”. De vocês.

 

João Barbosa 

 

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