Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Dezanove
A Saber

As notícias de Portugal e do Mundo

A Fazer

Boas ideias para dentro e fora de casa

A Cuidar

As melhores dicas para uma vida ‘cool’ e saudável

A Ver

As imagens e os vídeos do momento

Praia 19

Nem na mata se encontram histórias assim

Eh pá, calem-se lá um bocadinho, se fazem favor

João Barbosa

Portugal é um país que viveu durante muito tempo à sombra da ideia que é um país de "brandos costumes". Com isto, queria dizer-se que Portugal é um país tolerante. Mas isso é um mito que cresceu paralelamente ao significado real da expressão.

De "brandos costumes" não se retira que uma comunidade é tolerante. Retira-se que é um povo que não está muito para se incomodar. Ora isto não significa que tolere nada (e muito menos aceite ou integre). Significa que normalmente não toma medidas agressivas mesmo contra o que o incomoda muito.

 

Esta ideia que somos muito tolerantes é, ela também, parte da pesada herança do Salazarismo: o mito do Português bonacheirão, o meigo colonizador, uma mentira industriada para afagar o nosso ego. 

 

Um dia, contudo, percebemos que não eram “brandos”, mas sim "brancos costumes'' - e, desde então, tudo o que se escondia por baixo da bonomia do nosso Lusotropicalismo paternalista (para não dizer pior) tem nos explodido na cara.

 

Da confrontação com o nosso racismo e xenofobia cada vez mais explícitos, passamos para a luta contra o nosso marialvismo e contra o nosso machismo. Daí, começamos a dar conta da nossa LGBTQIA+fobia. 

 

A luta contra o preconceito, nas suas mais variadas formas, contudo, é um trabalho sempre em curso: primeiro porque todos nascemos e crescemos num sistema preconceituoso - e, portanto, estamos nós próprios carregados de ideias que é preciso confrontar (mesmo os que têm a boa vontade de querer combater o preconceito e mesmo os que são vítimas desses preconceitos); segundo, porque é uma luta que recomeça a cada nova geração em que a sociedade se renova.

 

Quando o José Carvalho (1989), o Alcindo Monteiro (1995) e a Gisberta (2006) foram assassinados, não faltou quem insistisse que eram casos isolados; que isso não nos representava como Povo. Mas quando o tolerante Portugal, em 2007, elegeu Salazar como “o maior Português de sempre”, à frente de pessoas como o próprio fundador da nação (para já nem nomear mais ninguém), essa ideia do Portugal tolerante, pós-Fascista, estilhaçou para muita gente (talvez até para mim). Mesmo assim, muita gente tomou isso como uma bizarria. 

 

De lá para cá, com o assassinato de Bruno Candé e de Ihor Homeniuk, as campanhas racistas contra Claudia Simões, contra Conceição Queiroz e contra Cláudio Bento França, os delírios colectivos contra Joacine Katar Moreira e Mamadou Ba (que chegaram ao limite de pedir a deportação de ambos), para nem falar da recente eleição de doze Fascistas para a casa da nossa República, e passando pelos múltiplos casos de violência doméstica contra mulheres (e respectivos tratamentos jurídicos) e pelos casos de LGBTQIA+fobia que incluem a polícia e as autoridades médicas (entidades em que qualquer cidadão, seja ele qual for, deveria poder confiar), cada vez é mais insustentável insistir nessa imagem beatífica do Português tolerante e do agressor isolado.

 

Afinal, Portugal é o país que ainda não tem uma lei que proiba o lixo racista dos sapos de cerâmica nas lojas, colocados aí especificamente para hostilizar os Romani (os Ciganos). Ver aquilo, para mim, é igual a ver uma placa de “Não é permitida a entrada a Pretos/Monhés/Judeus”. Mas repetem-nos que Portugal é tolerante.

 

Há umas semanas ouvia uma travesti (para o público Brasileiro: "travesti" na esmagadora maioria do mundo, é sinónimo de “drag queen” e não de “transgénero”, como no vosso caso) queixar-se que o 25 de Abril está ainda por acontecer para a comunidade LGBTQIA+

 

No momento, aquilo chocou-me um pouco. Mas quando pessoas trans ainda têm de discutir o direito a dispor do seu corpo e da sua identidade, há espaço para falar que cidadania plena, liberdade, etc. são privilégios que ainda hoje não são de todos, e que há gente que ainda está por entrar em Grândola. 

 

É cada vez mais evidente que ainda vivemos no tal sistema, criado para promover um só tipo de ser humano, em detrimento dos restantes. Ele pode ser tão ambiental que por vezes nem nos apercebemos dele - mas isso não quer dizer que ele não esteja presente e não faça o seu dano: umas vezes, como a gota que erode a pedra; outras, como um incêndio que apaga uma floresta.

 

Não está esquecido que já se andou alguma coisa. E que o que já existe só foi possível graças a um intenso trabalho das pessoas Aliadas das comunidades marginalizadas. Numa primeira fase, foi essencial esse apoio, para começar a dar meios, estrutura e amor-próprio a comunidades destruídas por esse rolo compressor, que era a sociedade saída de 47 anos de Ditadura.

 

Sempre houve, porém, um complexo do salvador branco no que toca à relação dos brancos que se tornavam activistas pelos direitos das minorias étnicas e as comunidades a que estes se dedicavam; também as mulheres, fartas de serem intermediadas, têm vindo a denunciar micro-agressões como o mansplaining que recebem da parte de todos homens - incluindo os que se dizem feministas - que despudoradamente tentam explicar-lhes o que elas querem dizer quando falam, ou centram os problemas das mulheres neles mesmos, entre outros exemplos.

 

Perante isto, talvez já não fosse altura de eu me espantar com o que vi, li, me foi dito, nos últimos dias, desde que começou esta campanha LGBTQIA+fóbica nos nossos meios de comunicação social, neste triste mês de Julho de 2022. Mas isso só prova que, aos 44, ainda sou uma criança prestes a ser surpreendida pelo ser humano.

 

Na crónica que escrevi sobre o Ricardo Araújo Pereira (“Mais vale cair em graça do que ser engraçado”), reclamando acerca da falta de representatividade no comentário político (que é transversal às várias exclusões, note-se, como já tinha dito, quando falei do Paulo Rangel) sublinhava a necessidade de a comunidade LGBTQIA+ ser projectada para o palco do debate, especialmente quando o tema é justamente relacionado com ela; dizia eu que estava farto de ver a comunidade LGBTQIA+ comentada por quem não é dela.

 

Que haveria reacções de quem é contra a comunidade LGBTQIA+ à minha denúncia, eu já estava à espera. Que essas reacções viessem também de pessoas cishétero que se dizem Aliadas, isso é que já me tirou um pouco o tapete debaixo dos pés. Mostra, lá está, que o preconceito requer uma luta consciente em todos nós.

 

De repente, vejo-me acusado de querer ser um gatekeeper, um porteiro da comunidade LGBTQIA+; que quero tirar a voz às pessoas cishétero, quando estas falam sobre a comunidade LGBTQIA+. 

 

Portanto, a acusação é que todos - incluindo eu - os que criticaram o RAP e lhe disseram que mais valia estar calado, somos «porteiros da comunidade LGBTQIA+» e que não estamos a deixar falar toda a gente. Como se isto se tratasse de um tema de tertúlia intelectual, um jogo de salão burguês, e não de uma comunidade de pessoas sistematica e historicamente hostilizada e invisibilizada.

 

Então, vamos lá ver… neste mês de Julho de 2022:

 

  • tivemos, além da crónica do Ricardo Araújo Pereira, a 15 de Julho no Expresso, a Carmo Afonso, três dias depois, no Público, a usar a sua plataforma, não para defender as pessoas que, no fundo, o Ricardo Araújo Pereira, com associações entre LGBTQIA+ e infecções sexualmente transmissíveis, confusões entre género e sexo e por aí fora, desqualificou… mas para defender o próprio Ricardo Araújo Pereira. Não oprimam o coitado. Parabéns, Carmo Afonso (sim, agora estou mesmo a usar o seu nome). Demonstra bem o corporativismo da nossa classe comentadora;

 

  • como eu próprio previa, a crónica do Ricardo Araújo Pereira só serviu para dar forragem às habituais gárgulas da Direita, como o par de jarras do José Manuel Fernandes e da Helena Matos que, na senda do que ele escreveu, no dia a seguir à Carmo Afonso se pronunciar, decidem fazer piadinhas idiotas sobre a vida dos outros no seu podcast no Observador;

 

  • no dia seguinte, no mesmo Observador, um outro ex-Gato Fedorento, José Diogo Quintela, que se orgulhava de, sendo de Direita, ser totalmente diferente do seu primo (o líder do moribundo do PNR), para não deixar ficar mal o seu amigo, revela que, afinal, no que toca à comunidade LGBTQIA+, em especial às tribos não-cis, ele pouco se distingue da Direita mais reaccionária… do século passado;

 

 

  • como não há duas sem três, o Observador, que não se cansa de dar palco a tudo o que é esterco Alt Right (das teorias Neonazis de substituição étnica até à chalupice pandémica, é um rodízio para todos) ao terceiro dia, decide aumentar o fedor do Gato e passar o microfone ao Tiago Dores que, recentemente, se redescobriu como Neoliberal a puxar ao Anarcocapitalista e, aparentemente, também, como transfóbico; e, como todos os transfóbicos, muito, muito ignorante. Até à data da redacção deste texto, o Miguel Góis, o único que ainda não abriu a boca para nos desiludir, é também o único Gato que sobrou deste esgoto mal-cheiroso a céu aberto;

 

  • já presença incontornável da fina-flor do circo de horrores medievalista que nos últimos anos montou tenda cá em Portugal, dois dias após a crónica do RAP, a chalupa da Maria Helena Costa não podia deixar de pedir a palavra para nos maravilhar com o que magica o seu cérebro doente - mais uma vez, no Observador. Quase que se diria que o Observador tem ali um problema qualquer de ligeira LGBTQIA+fobia, a somar às restantes pústulas ideológicas que alimenta. A ERC faz mesmo o quê, afinal? Asking for a friend;

 

 

  • lembrando que esta intervenção vem na sequência do caso dos pais de Famalicão, que acham que os seus filhos estão a ser convertidos à «ideologia de género» porque eles estão a ser educados para serem… cidadãos - um conceito que não chegou ao século XIII, em que eles, aparentemente, vivem. Pois a 19 de Julho, o I Online foi dar voz a quem? Ao pai dos petizes, onde ele foi dizer mais barbaridades;

 

 

 

Deixei alguém de fora?

 

Portanto, desde o dia 1 deste mês - repito, o mês a seguir ao Pride - a nossa comunicação social deu lugar a pelo menos 11 pessoas que são cishétero (ou, não se tendo pronunciado em contrário, passam, como sempre, por defeito, por tal), que decidiram usar a sua voz para se pronunciar sobre a comunidade LGBTQIA+ e, nisso, não só para não a defender, quando até para a atacar. Eu até arriscava que esta malta toda saiu da toca justamente por causa do Orgulho LGBTQIA+ ter voltado às ruas. “Reaccionário” vem de “reacção”, não é?

 

Ah, sim, falando em reacionários, um partidozeco negacionista da pandemia, que protagonizou um dos episódios mais caricatos das últimas Eleições Legislativas, não só pôs um cartaz anti-LGBTQIA+ nas ruas, como anda a tentar angariar fundos para espalhar mais por várias cidades de Portugal. Tribunal Constitucional, o Artigo 13 da Constituição serve para quê? Quando há uns anos o PNR colocou cá fora um outdoor racista e xenófobo, caiu-lhe tudo em cima. Até o próprio Gato Fedorento. Hoje, com a comunidade LGBTQIA+, não se passa nada.

 

Posto isto, expliquem-me, por favor, cishéteros, quando é que vos tiraram a voz para falar acerca da comunidade LGBTQIA+. E para que a querem se, tendo o privilégio de ter essa voz, a usam para isto. Digam-me, encarecidamente, o que é que vos falta dizer sobre a comunidade LGBTQIA+ para que ela possa finalmente falar na primeira pessoa

 

A única coisa que nós ouvimos é a vossa opinião. Quando é que vocês se calam um bocadinho e deixam os outros falar?

 

Derek Parfit fala acerca do conceito do torturador inofensivo: de como uma acção profundamente lesante pode abater-se sobre alguém às mãos de um número infinito de pessoas que contribuem individual e parcialmente para a ofensa. O dano não vem de uma acção de um agressor ou de outro, mas do efeito agregado de todos. Ninguém se sente particularmente responsável, mas todos contribuíram para a destruição da vítima

 

O que todos os que partilharam desta campanha de ódio que andou a céu aberto durante este mês fizeram, foi isso mesmo: foi darem o seu pequeno contributo para aumentar a insegurança que já condiciona a vida precária das pessoas LGBTQIA+, dando respaldo a gente que já tem um preconceito contra essa comunidade. De hoje para a amanhã, quando alguém da comunidade for insultado, atacado e/ou morrer, eles podem não ter estado lá, puxado o gatilho ou atirado a pedra, mas as suas mãos estão manchadas do mesmo sangue.

 

Garanto-vos, caros comentadores, que estas vossas participações , tal como as manifestações machistas e racistas do século XIX, no futuro, vão ser vistas pelo que são: um embaraço para a Humanidade. Vocês são o passado. Vocês serão engolidos pela História.

 

Alguém viu algum comentário da parte de membros da comunidade assumidos? De alguma associação? De algum activista? Foi preciso chegar a dia 20 para o Expresso, depois de ter participado nesta irresponsabilidade colectiva dos nossos meios de comunicação social, finalmente dar voz a alguém de uma associação. 1-11: toma lá, preconceito! Lembram-se do que eu dizia, que a comunidade LGBTQIA+ é sempre a grande ausente, mesmo quando falam dela?

 

Se isto não é um argumento para a comunidade LGBTQIA+ perder o pudor a procurar ter mais voz e aceder directamente ao poder na sociedade, não sei o que é. É que enquanto a comunidade LGBTQIA+ continua com esse pudor, a cishéteroesfera, pelo contrário, não tem qualquer pudor em dizer e fazer o que quer que seja.

 

E isto, infelizmente, inclui os Aliados, de que falava ao início. É inegável a importância dos Aliados. Contudo, o que me parece é que estes Aliados, de repente, passaram a achar que a comunidade LGBTQIA+, por neles ver os seus Aliados, lhes passou uma procuração para falar em seu nome. É o tal complexo do salvador branco, neste caso, complexo do cishétero Aliado. 

 

Por momentos, olhei para estas pessoas e parece que estava a ouvir um namorado tóxico a dizer à miúda que está a vampirizar "tu não podes viver sem mim". Parabéns pela a auto-estima. Mas agora digam aí ao público que nos está a assistir quem é que vos nomeou porta-vozes de uma comunidade de que não fazem parte

 

Por fazer esta pergunta, eu ouvi todo o tipo de barbaridades, incluindo que isto era cishéterofobia. Se isto fosse um safari, este era um argumento que podia ser espetado na parede ao lado das cabeças de caça do “racismo reverso” e d' "o feminismo é um preconceito tão mau como o machismo".

 

A classe que sempre dominou todas as restantes, de repente, é colocada no seu lugar… e não consegue lidar com isso. É duro, ser mandado calar, por um bocadinho? Imaginem o que custa aos que nunca têm voz… ou porque têm de lidar com os que os querem aniquilar ou porque têm de lidar com os que "até percebem, mas agora não é o momento para falar disso" ou os que se dizem Aliados, mas não conseguem conceber que isso significa apoiar; e que “apoiar” não é substituir a voz de ninguém.

 

Aliados que não entendem essa diferença, no fim, são os derradeiros gatekeepers, os verdadeiros porteiros, porque só conseguem conceber um apoio em que eles, mais uma vez e sempre, é que são os protagonistas.

 

Eu acordei há dias, em 2022, para ler coisas que, no fundo, se traduziam em fórmulas do tipo "com essa história de só deixar as pessoas LGBTQIA+ falar sobre a comunidade LGBTQIA+ corremos o risco de ter pessoas da comunidade LGBTQIA+ que em vez de defender a comunidade, a representam mal e perpetuam estereótipos e preconceitos".

 

Meus pobres egos frágeis… vocês conseguem perceber o grau de paternalismo subjacente a esta ideia? Vocês gostam tanto da comunidade LGBTQIA+ que até sabem o que é melhor para ela - à revelia dela. Se for assim que vocês definem a vossa paternidade, arrisco que vocês são uns belos pais tóxicos, que não concebem os vossos filhos como seres autónomos e com agência.

 

Esse argumento, de que é preferível deixar os cishétero falar pelos LGBTQIA+, porque há pessoas na comunidade que mais depressa defendem a retórica fóbica da Extrema-direita veio… de gente de Esquerda - a principal fonte de Aliados a quem tanto a comunidade LGBTQIA+ deve. Se este tipo de comentários viesse da Direita oportunista (como a Iniciativa Liberal, que tentou colar-se à Marcha do Orgulho no Porto, apesar de nunca ter feito nada pela comunidade) até entendia. Agora, da Esquerda? Julgava as pessoas de Esquerda (como eu) mais esclarecidas que isto.

 

Custa-me que não entendam, antes de abrir a boca para dizer isto, que esse ponto, ao contrário do que acham, é justamente uma chamada de atenção para o facto que é mais do que altura da Esquerda, na linha do bem que tem feito à comunidade LGBTQIA+, promover pessoas de Esquerda da comunidade que apresentem uma agenda que efectivamente ajude a comunidade - em vez de continuar a fazer o frete ao status quo e dar voz sempre aos mesmos.

 

Ao contrário do que as teorias da conspiração mirabolantes como as que a Helena Costa e o professor suspenso de Aveiro subscrevem dizem, o «lobby LGBTQIA+» é uma ficção da cabeça deles. É saliente, aliás, que os pais de Famalicão tenham dado nome da Helena Costa como referência; e que se tenha notado que se não são da Opus Dei, têm extensos contactos com ela. Tudo isto torna caricato que aqueles que mais se queixam da “endoutrinação LGBTQIA+” estejam intimamente ligados a organizações criadas justamente para endoutrinar.

 

Quem dera à comunidade LGBTQIA+ que ela fosse realmente assim tão organizada. Caros, se ainda não entenderam, eu digo-vos: a comunidade LGBTQIA+ não é nenhum Clube Amigos Disney. Não tem nenhuma direcção a quem enviar requerimentos ou agravos. Não tem uma hierarquia. Não se pagam cotas. Não tem cartões de sócio, nem - caros Aliados - participações honoris causa. Também não tem um gabinete de comunicação, que alinha as declarações de cada um dos seus membros numa estratégia global.

 

É um amontoado de seres humanos com experiências de vida distintas, em diferentes estados de auto-conhecimento e de desconstrução - até do preconceito que absorveram contra si mesmos desde que nasceram. Esperar que falem todos a uma só voz, dizendo as coisas «certas» ou só dar-lhes voz quando isso acontecer só faz sentido para quem não conhece a realidade sobre a qual, aparentemente, quer comentar. Ou que não está disposto a abdicar da sua posição e privilégio.

 

Pode um gay falar em pleno por uma lésbica ou vice-versa? Pode um bissexual cisgénero falar totalmente em nome de um homem trans assexual e vice-versa? Não. Mas garanto-vos que qualquer um deles fala sobre a comunidade LGBTQIA+ com mais propriedade do que um cishétero. É lidar.

 

Infelizmente, o privilégio, quando se sente atacado, seja de onde for, reage sempre da mesma maneira. Se a vossa luta não for para acabar com o vosso próprio privilégio, para que todos possamos ver a nossa existência respeitada, então, vocês nem sequer entenderam a essência da própria Esquerda, lamento. Nem entendem o que é realmente ser Aliado.

 

Vocês não terão entendido a luta Anti-racista: atacam os racistas (e muito bem), mas só até ao limite em que tudo muda para que tudo fique igual - a minoria étnica continua a não ter agência e autonomia; atacam os machistas (e muito bem), mas desde que as mulheres entendam que, no fim, "até podiam ser estúpidos, mas não são desses". Acham muito bem que as pessoas LGBTQIA+ vejam a bandeirinha hasteada, "mas controlem lá isso das letras, porque está a ficar demais e depois é confuso, para quem está de fora e até divide as lutas".

 

Onde está a coragem política para apoiar candidatos políticos assumidamente LGBTQIA+? Deixem a comunidade ter acesso directo ao poder. Quando é que os vossos programas inclusivos vão ser defendidos por quem é suposto ser incluído? Normalizem as pessoas LGBTQIA+ colocando, sem medos, estas pessoas nas vossas listas e nos vossos cartazes. Como querem que a sociedade considere estas pessoas normais se vocês mesmos, os maiores aliados, continuam a secundarizá-los?

 

Materialmente, todos os avanços em matéria da comunidade LGBTQIA+ obtiveram-se à custa da boa-vontade de Aliados. Mas quando é que os Aliados vão dar um passo atrás para que quem é da Comunidade dê um passo à frente? Quando é que estas pessoas vão ser tomadas como candidatos viáveis e políticos competentes?

 

Vocês estão a fazer exactamente a mesma coisa que as estruturas de poder fazem às mulheres e às minorias étnicas e que vos fez defender as cotas étnicas de acesso e as leis de paridade. Será que vamos ter de começar a bater o pé por isto, também, para a comunidade LGBTQIA+ ter finalmente igualdade? É que, pelos vistos, o preconceito não se está a resolver sozinho.

 

Gente, tenham noção: o Brasil, que é o país do mundo onde mais se matam transgéneros há 13 anos consecutivos e que é liderado por aquele pedaço de lixo humano chamado Bolsonaro, na última eleição teve 294 candidaturas de pessoas trans (binárias ou não), das quais 30 (trinta) foram eleitas. Onde é que vocês andam? Aqui em Portugal, na Legislatura anterior, o grande fait-diver da silly season foi um assessor - repito, um assessor - ter entrado na Assembleia da República, no dia da posse, de saia. Vocês compreendem a miséria do estado-da-arte em que estamos? Quando é que as “condições materiais'' vão estar reunidas para finalmente começarmos a ter gente da comunidade LGBTQIA+ com poder político?

 

Quando é que eu vou poder ter uma Primeira-Ministra trans? Quando é que eu vou poder ver um Presidente da República assumidamente bissexual? Quando é que poderei ver, com a mesma naturalidade que vejo um homem cishétero como Presidente da Assembleia, ver uma pessoa genderfluid lá?

 

Deixem as pessoas LGBTQIA+ falar na primeira pessoa. Se, entre elas, aparecerem vozes de gente com preconceito introjado, não se preocupem. Deixem a comunidade LGBTQIA+ confrontar os seus próprios Pais Tomás. Se quiserem ir lá criticá-los também, força. A comunidade LGBTQIA+ não vos criticará por isso. Mas parem de roubar oxigénio a tudo o que está à vossa volta.

 

Boa gente, isto não é acerca de vocês. Isto nem é sequer só acerca da comunidade LGBTQIA+, mas em relação a todas as pessoas que não são vocês, desde minorias étnicas e religiosas, até à maioria eternamente silenciada e secundarizada, as mulheres, passando pelas vítimas do idadismo e do capacitismo.

 

Ninguém está a dizer que vocês não são importantes. Só vos estão a dizer que, nesta questão, vocês não são os protagonistas. Haverá algum momento em que vocês se sentam, calam e ouvem? Poderão as pessoas brilhar pelo menos no que lhes diz respeito? Parem de fazer cishéterosplaining aos LGBTQIA+.

 

Resolvam as vossas emoções e não incomodem as vozes da comunidade LGBTQIA+ com os vossos egos feridos. Repito: isto não é acerca de vocês. E se vocês têm estado a ajudar a comunidade LGBTQIA+ apenas com o sentido de retirar dividendos pessoais, vocês não estão a ajudar ninguém: vocês estão a transaccionar intervenção.

 

Desliguem a vossa chantagem emocional. A comunidade LGBTQIA+ já tem problemas suficientes com que lidar. Não quer ter de, para lá de lidar com eles, ainda ser a ama-seca dos privilegiados de sempre. 

 

A comunidade LGBTQIA+ agradece.

 

João Barbosa 

 

4 comentários

Comentar