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Uma análise ao vídeo de Cláudio Ramos



Estive a ver o vídeo protagonizado por Cláudio Ramos, que nos últimos dias deu muito que falar. Decidi analisá-lo por pontos, pois Cláudio Ramos toca em várias ideias:

 

Vivência de casais

Resumidamente, Cláudio Ramos diz que quando dois gays estão numa relação perdem totalmente a sua individualidade e que entre outras coisas se vestem todos da mesma maneira, frequentam os mesmos sítios, ouvem as mesmas músicas… Aquilo que eu tenho a dizer sobre esta observação é que acho completamente ridículo generalizar todas as relações gays que existem e afirmar que não é possível manter gostos, hábitos, visões distintas a partir do momento em que se deixa de ser solteiro. É perfeitamente possível descobrirmos novos interesses quando partilhamos a nossa vida com alguém que nos faz crescer, mas daí a dizer que nos eclipsamos em detrimento da outra pessoa vai uma grande distância.

 

Lobby gay

Cláudio Ramos afirma que para se ser gay tem que se ouvir aquela música, andar com saquinhos no Chiado ou comprar aquela peça de roupa, pois todos os gays vivem muito em função da imagem… Pois bem, que eu saiba a orientação sexual não tem rigorosamente nada a ver com expressão de género: por exemplo, uma pessoa pode ser gay e ter expressão de género feminina ou então não ser mas ser percepcionada como tal. Logo aqui, os comentários do apresentador são profundamente infelizes e um atentado à luta diária que os activistas LGBT fazem em desmistificar os preconceitos ainda enraizados na sociedade. Depois, acho incoerente, diria mesmo hipócrita, Cláudio Ramos falar de os gays viverem em função da imagem quando ele mesmo está num programa de televisão na sua “melhor versão” e tendo em consideração que a sua actividade profissional depende essencialmente do aproveitar da importância que cada um de nós dá à imagem e à vaidade.

 

Comportamentos como via de integração

Cláudio Ramos argumenta que os gays acabam por adaptar os seus comportamentos para se enquadrar em sociedade, à qual eu respondo: qual é a novidade na existência de alteração de comportamento em diferentes contextos sociais…?

 

Preconceitos com bicha e o facto de muitos gays gostarem de soberba

Cláudio Ramos disse que não consegue aturar bichas. Segundo o dicionário Priberam, uma bicha é “20. Informal; Que tem determinadas características que se atribuem à homossexualidade masculina. = ABICHANADO, LARILAS, MARICAS”, pelo que começa logo por ser uma perpetuação de preconceitos, uma vez que não há características que definam a homossexualidade – é pura e simplesmente discriminar uma pessoa em função da sua expressão de género.

 

Uma das coisas que a rede ex aequo me ensinou foi a ter sensibilidade para perceber que somos todos diferentes, que devemos valorizar as nossas diferenças e que, em conjunto, devemos procurar para estar todos em igualdade de direitos em questões universais, como por exemplo na aceitação da diversidade da sexualidade e género. Um gay não tem de gostar de homens com apenas um conjunto de características físicas, nem se deve sentir mal por se sentir mais atraído por um homem do que por outro – e nesta situação o que está fazer é a estabelecer diferenças no que concerne à pessoa por quem sente maior proximidade física, ou seja, está a discriminar.

Contudo, a palavra discriminar tem outro significado, que passo a citar: “3. Tratar de modo desigual ou injusto, com base em preconceitos de alguma ordem, nomeadamente sexual, religioso, étnico, etc.” E é aqui em que deixamos de estar a falar de diferenciar, apesar de respeitar, para diferenciar com base na intolerância e ignorância. E os comentários de Cláudio Ramos são, de facto, profundamente discriminatórios, ao afirmar, com base no número (limitado) de pessoas que conhece até agora que muitos gays são altivos e que não tolera/suporta ver um homem com um cão dentro de uma mala numa sala de cinema… Pergunto eu e se, em vez de uma bicha, fosse uma mulher? Ou um idoso? Sentiria a mesma repulsa? Qual é a legitimidade que ele, ou qualquer outra pessoa tem, para definir como nos devemos expressar em público? O importante é que as pessoas tenham respeito pela diversidade!

 

No final do vídeo, a ideia-chave com que fiquei do Cláudio Ramos é a seguinte: fez inúmeras generalizações, de todas as formas e feitios. Ele está lá porque há audiências que justifiquem a continuidade do programa, mas há algo que nos devemos lembrar: um programa de televisão não é uma reunião de amigos num café, pois chega muito mais fácil e rapidamente a milhares de pessoas de diferentes faixas etárias, e por isso a responsabilidade de dizer coisas com nexo, sustentadas em factos, é muito maior… E foi precisamente isso que faltou aqui, a todos os níveis: bom senso.

 

Tiago Teixeira, colaborador do dezanove e voluntário da rede ex aequo

11 Comentários

  • Anónimo

    Claúdio ramos era uma “menina” muito mal comportada e cheia de complexos, que de repente começou a viver a vida e percebeu que não ganhava nada com aquela postura.
    Para além disso deve ter experimentado “coisas novas” que lhe abriu os horizontes do mundo gay e passou então de menina mal comportada a um menino que agora acha que ser gay é ser-se discreto.
    Apesar disto ainda se notam os tais traços de menina mal comportada que apenas está escondida por detrás de uma carapaça mal enjorcada de gay discreto.
    Ganhava mais se tivesse desenvolvido o seu lado mais humanitário e humilde, porque só assim se consegue olhar o mundo com olhos de aceitação aos outros apesar das diferenças que todos temos.

  • Anónimo

    É verdade que o Claudio Ramos peca pelas generalizações e sobretudo pelo simplismo na escolha das palavaras.
    Mas também é verdade que bixa não é sinónimo de homosexual e homosexual não é sinónimo de bixa. Esse dicionário está equivocado.
    Uma bixa, entre muitas outras coisas, é um homem mal criado, arrogante e pedante.

  • Mars

    No país onde vivo, bicha é o termo usado quando se quer insultar um homossexual masculino, ponto final. Até podem ser o exponente da masculinidade, mas se são homossexuais, uma substancial porção da população portuguesa marca-vos de bicha. Que exista quem tenha decidido por si mesmo que afinal existe um grupo de pessoas dentro da população LGBT a quem já é aceitável e encorajado tratar por insultos homofóbicos é de lamentar. Experimentem, sei lá, o desprezo ou então alternativas… idiota, imbecil, otário…? Qualquer outro termo que não vá buscar a orientação sexual do atingido para onde não é chamada. A não ser que o anónimo veja uma ligação entre a homossexualidade masculina e a má-educação, a arrogância e o pedantismo, e a isso chama-se preconceito.

  • Anónimo

    Acho que os entrevistadores também não estiveram bem, pois também disseram coisas sem nexo.
    Quer dizer uma pessoa não pode sair à rua com um cão que é uma falta de respeito? Se as pessoas querem sair com os seus caniches é opção delas.

  • Luis Neves

    À opinião deste indivíduo em particular falta profundidade intelectual essencial à melhor explanação e justificação e que a arte da Retórica ensina. Todo o que professa é correto mesmo moralmente, mas falta profundidade. O trabalho de comentário sério faz-se pelo bom uso da Retórica.

  • Ricardo

    Sendo eu gay, nunca me chamaram de bicha, por isso julgo que bicha não é sinónimo de homossexualidade.
    Já me chamaram pan3l3iro, isso sim penso que é um sinónimo na gíria.
    “Bicha” é sinónimo de um conjunto de características demonstradas por alguns homossexuais e que, segundo dá para entender, muitos homossexuais não “self-identified” com essas características não gostam.
    E sim, a meu ver está ligado a um conjunto de características irritantes que alguns gays acham que passam como superioridade e intocabilidade, mas que a meu ver demonstram insegurança e manias.
    Não tenho nada contra bichas, nem gays, nem heteros, nem bis, nem L, G, B, T, Q, MwhswM, I, e o resto do alfabeto (se não é discriminação das restantes letras); tenho sim, contra pessoas, de qualquer tipo de orientação ou identidade, mal-educadas e manientas.
    Posto isto, ao comentário do Cláudio Ramos só tenho a dizer uma coisa: grande descrição dele próprio. Deve-se odiar muito a ele mesmo.

  • Mars

    O termo bicha surge habitualmente mas não exclusivamente associado a homossexuais efeminados, mesmo nada tendo de arrogância ou exibicionismo são tratados por tal. Nestes casos, como calcula, nunca é um termo afectuosamente descritivo, mas antes insultuoso, homofóbico, misógino. Frequentemente usam-se outras desculpas como justificação do uso do termo, uma forma de homofobia internalizada envergonhada; se alguém de raça negra é idiota e se comporta como um idiota, mas se o insulta de “preto de merda”, não vai contra a idiotice do sujeito, está a ser racista. A utilização do termo bicha quase invariavelmente tresanda a homofobia e a misoginia; por isso é que este é guardado na maioria das vezes, mesmo por outros homossexuais, para quando se quer insultar homossexuais efeminados, pelos mais variados motivos.
    P.S.; Para complicar as coisas e contrariando a sua experiência já ouvi muitos homossexuais não efeminados a serem atingidos com o termo. Há quem não veja nem homossexuais, nem paneleiros… só bichas.

  • Ben Nevins

    É como, quando num bar gay, em aparente conversa de café, perguntam se somos passivos ou activos.
    No fundo, são homossexuais a querer denegrir outros através de sugestões pouco convencionais de papeis de género, como que dando a entender que uns são superiores a outros.
    Em qualquer outro sitio, essa distinção usa-se como anedota, para ilustrar como é preconceituosa a sociedade heteronormativa, e como é díficil entender o que é a homossexualdade para quem não vive com ela.

  • Ricardo

    Todas as palavras têm uma conotação. Muitas das vezes ela é dada pela forma como as pessoas as usam. Por exemplo, se em Portugal eu disser que um rapaz é preto em vez de negro, é logo discriminação. Se for em inglês, se disser nigro é discriminação, se disses black não.
    A conotação das palavras está ligada a muitos factores, entre eles a língua, a cultura, o próprio meio onde são proferidas.
    Mas não nos esqueçamos que quem estigmatiza as palavras e as torna discriminadoras são as próprias pessoas e a forma como as dizem e usam.
    Se entre um conjunto de gays efeminados (ou quaisquer outro tipo de gays), dois amigos se tratarem mutuamente por “bicha”, não há problema nenhum.
    Agora se um gay externo ao grupo vir este comportamento e os apelidar de “bichas”, há aí já é discriminação e homofobia.
    Esta dualidade não é coerente.

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