Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Dezanove
A Saber

As notícias de Portugal e do Mundo

A Fazer

Boas ideias para dentro e fora de casa

A Cuidar

As melhores dicas para uma vida ‘cool’ e saudável

A Ver

As imagens e os vídeos do momento

Praia 19

Nem na mata se encontram histórias assim

“A saúde trans não pode ser um rodapé nem um manual de boas práticas”

vacina covid 19 trans janssen.jpg

Nas últimas semanas temo-nos deparado com casos de constrangimentos de acesso à vacinação por parte de pessoas trans, sobretudo, por não existirem estudos suficientes sobre os riscos da vacina Janssen nestas pessoas. Sabe-se que esta vacina não é recomendada de ser administrada a mulheres cis com menos de 50 anos.

Ary Zara e Brian Campos foram dois dos casos destas situações. Ambos referem que se apresentaram nos respectivos centros de vacinação com conhecimento prévio da recomendação da não vacinação com a Janssen, mas sem ideia de como iria decorrer o processo e a triagem. Porém, tanto Ary como Brian depararam-se com vários constrangimentos nesta situação.
Brian afirma: “Eu já estava um bocadinho nervoso, porque já tinha ouvido falar que existiam certas vacinas que não eram recomendadas a alguns sexos biológicos.” Por este motivo, no dia da administração da vacina, Brian contactou o seu cirurgião, que recomendou que levasse uma vacina indicada para a sua idade e para alguém do sexo biológico feminino. Contudo, Brian ia com a expectativa de que fosse realizado algum processo de triagem em que fosse possível identificar e resolver esta situação, algo que posteriormente se apercebeu que não acontecia.

 

Ary Zara

Ary Zara


Também Ary defende que bastava haver inclusão no processo de triagem/questionário, o que seria possível apenas com uma questão, para que as pessoas trans não estivessem sujeitas a esta situação.
A ambos foi exigido que comprovassem o que diziam (serem pessoas trans), e embora este tipo de exigência lhes tenha parecido despropositada, uma vez que não acontece exigirem a uma pessoa cis que prove que o é, não queriam arriscar os seus processos de vacinação.
Ambos conseguiram ter a capacidade de lidar com o sucedido da melhor forma possível e saírem dos centros de vacinação com “esta batalha ganha”. Contudo, não deveria ser necessário alguém ter de se expor e lutar por um direito inerente à saúde, algo transversal a todas as pessoas sem excepção.
A resiliência e persistência de Ary permitiram-lhe lidar com esta situação: “eu sabia que não ia sair dali sem ser vacinado com a vacina indicada para mim. Estou a chocar contra um sistema que não me inclui.” Ary viu este acontecimento como uma oportunidade de passar informação, de educação e de reformulação de um sistema que ainda é retrógrado.

 


Também Brian refere já ter alguma estrutura emocional que lhe permitiu lidar com esta situação, algo que não seria possível se estivesse no início do seu processo e alerta para a gravidade disto acontecer a alguém nessa situação e/ou que não tenha apoio familiar, estando, portanto, numa significativa situação de vulnerabilidade: “Eu sei o impacto que aquele tipo de situação pode ter numa pessoa, principalmente numa pessoa trans”. Também Ary diz: “Há pessoas trans que estão fragilizadas, com depressão, em processo de descoberta e é claro que estas coisas podem ser uma grande queda”.

Brian Campos.jpeg

Brian Campos 

 

Brian decidiu no imediato que iria partilhar a situação que tinha acabado de viver, de forma a possibilitar que esta informação chegasse a mais pessoas trans e as conseguisse ajudar, pelo menos a estarem mais preparadas. Outro objectivo era o de possibilitar uma maior consciencialização junto de alguns profissionais de saúde, algo que se veio a verificar pelo feedback que tem tido.

 


Para Brian, estas situações acontecem por falta de pensamento: por vezes não se pensa nas minorias, na forma de as incluir e de lhes facilitar algumas situações, como o caso deste processo. Falta incluir estas questões nos planos curriculares actuais e formar os profissionais que já estão no terreno. Ao analisar o que lhe aconteceu percebe que: “Os profissionais de saúde e o próprio processo de triagem não estavam adequados para lidar com uma pessoa trans que entrasse naquele centro de vacinação.”
Ary partilha da mesma perspectiva e também decidiu de imediato que queria partilhar o que se tinha passado com esperança de ajudar outras pessoas trans a terem força para reproduzirem este comportamento e não serem vacinados com uma vacina que pode não ser a mais indicada. “E acima de tudo fazer com que o vídeo onde partilhei o sucedido fosse visto pelo maior número de pessoas, por um médico, uma médica, enfermeiros, alguém da recepção dos centros de vacinação”, afirma.
Para Ary, estas situações ainda acontecem porque a sociedade não compreende a diferença entre sexo e género e porque: “Os profissionais de saúde não têm formação para lidar com pessoas trans e os que têm parece-me que só têm devido à vontade de aprender e de se querer informar. Não há propriamente um incentivo destes conteúdos na formação destes profissionais. Tem de existir saúde trans e a saúde trans não pode ser um rodapé nem um manual de boas práticas. A saúde trans de ser estudada”.

“Os profissionais de saúde não têm formação para lidar com pessoas trans e os que têm parece-me que só têm devido à vontade de aprender e de se querer informar. Não há propriamente um incentivo destes conteúdos na formação destes profissionais. Tem de existir saúde trans e a saúde trans não pode ser um rodapé nem um manual de boas práticas. A saúde trans de ser estudada”.

 

Bruno Maia - foto: Ana Mendes

Bruno Maia.  Crédito: Ana Mendes


Na perspectiva do médico Bruno Maia, a invisibilidade de pessoa trans no contexto do planeamento e das acções no domínio da saúde deve-se à discriminação: “Não quero com isto dizer que nós, profissionais, somos todos iguais ou que a culpa é deste ou daquele indivíduo. Mas somos pessoas que vivem na mesma sociedade, no mesmo país que todos os outros. E transportamos para a nossa prática os mesmos preconceitos e estereótipos que existem fora dos cuidados de saúde. O mesmo sucede com as autoridades e estruturas dirigentes na nossa área. As questões trans nunca são encaradas como prioridade e perante uma falha ou problema, são sempre relegadas para o último lugar da fila. Na formação dos médicos, por exemplo, as questões da diversidade sexual e de género até podem fazer parte do currículo, mas são sempre em modelo “opcional”. Tenho feito várias sessões sobre o tema pelas escolas de medicina, muito participadas por jovens com uma enorme vontade de fazer diferente. Mas só lá estão os que querem. E esses, à partida, até serão aqueles que mais se educaram sobre o tema. Por isso, não me surpreende que uma pessoa trans chegue a um centro de vacinação e encontre um profissional que nunca se tenha cruzado com uma pessoa trans e não saiba como agir.”

 

Miguel Saraiva - Projecto Anémona

Miguel Saraiva - Projecto Anémona

Para o médico Miguel Saraiva, membro do Projecto Anémona, o qual tem começado a receber vários pedidos de ajuda e esclarecimento relativamente à vacinação em pessoas trans: “Falta fazer imensa coisa. Temos imenso trabalho pela frente. O fundamental neste momento é uma educação das pessoas do que é ser transgénero, quem são estas pessoas e o que precisam. Nós enquanto profissionais de saúde estamos formatados para encontrar patologia e para tudo aquilo que nos for estranho temos de "curar" ou "emendar" alguma coisa. Mas quando falamos de cuidados de saúde nas pessoas trans, e aliás as guidelines científicas internacionais assim o determinam, estamos a falar de uma condição de saúde e não de uma doença. É preciso mudar o nosso método de actuação, o nosso paradigma, e como abordar uma pessoa trans.”
Tanto Bruno Maia como Miguel Saraiva defendem que é crucial e determinante existir formação de saúde trans para os profissionais de saúde e que esta não pode depender apenas da vontade e interesse de alguns. Para o médico do Projecto Anémona: “Precisamos de infra-estruturas e espaços seguros, de educação (formar estudantes, profissionais de saúde, internos e especialistas) e de equipas motivadas para trabalhar nesta área. É nestas três prioridades que deve estar o nosso foco.”

 

Jéssica Vassalo e Paula Monteiro

 

1 comentário

Comentar