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Anémona: fortalecer a relação das pessoas trans com o SNS

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No sentido de ajudar no acesso a cuidados primários, no Serviço Nacional de Saúde, por parte de pessoas trans, João Rodrigues, médico de 25 anos, juntamente com outros colegas, criou o projecto Anémona.

Este projecto, que está agora num processo de se constituir formalmente como associação, procura ajudar a estabelecer o contacto entre pessoas trans e profissionais de saúde de Medicina Geral e Familiar, que estejam sensibilizados e informados sobre boas práticas junto desta população. O objectivo é, então, desconstruir barreiras que as pessoas trans enfrentam, construindo uma rede de contactos trans friendly.

Efectivamente, segundo o projecto Anémona, as pessoas trans, dada a não conformidade de género, podem necessitar de cuidados específicos, como o tratamento hormonal, tratamento cirúrgico e apoio psicológico. No entanto, o que se verifica é que estas pessoas enfrentam muitos obstáculos no acesso a cuidados de saúde no Serviço Nacional de Saúde – cerca de 50% das pessoas trans passaram por, pelo menos, um episódio de discriminação em contexto médico. Além disso, o desconhecimento dos profissionais de saúde sobre as questões relacionadas com a saúde trans e, o incumprimento de guidelines internacionais não permitem o correcto tratamento dos utentes. Assim sendo, a Anémona pretende que episódios de discriminação, desinformação e práticas incorrectas sejam evitados. Para isso é essencial a desmistificação e sensibilização dos profissionais de saúde quanto a todas estas questões. 

Tendo em vista o alcance dos objectivos traçados, existe já, segundo o fundador do projecto, a previsão da realização de “uma formação a vários profissionais de Medicina Geral e Familiar, no arquipélago dos Açores, bem como a produção de recomendações para boas práticas clínicas em saúde trans”. Para além disso, segundo João Rodrigues, já contam com pessoas “interessadas no projecto, com vontade de ajudar, participar e aprender mais”, no entanto, continuam a fazer uma listagem de profissionais de MGF a nível nacional. O objectivo é que exista algum profissional de saúde em cada concelho do país, que forneça cuidados de saúde, se necessário, a pessoas trans. João Rodrigues afirma que têm tido “alguns pedidos de ajuda por parte de algumas pessoas trans e familiares” e que têm “conseguido ajudar e encaminhar para os locais corretos. Tem sido uma caminhada positiva, mas há ainda muito por percorrer.”

A longo prazo, o projecto Anémona pretende fazer formações a profissionais de saúde pelo país inteiro, ter as suas normas publicadas e realizar estudos científicos, contribuindo para avanços na saúde nesta área. Para além disso, quer desenvolver projectos culturais e promover políticas sociais de combate às variadas formas de discriminação que ocorrem na sociedade.

 

 
 
 
 
 
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As reacções positivas à divulgação do projecto Anémona surgiram de diversas partes. O dezanove.pt contactou a rede ex aequo – associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, trans, intersexo e apoiantes com idade entre os 16 e os 30 anos, em Portugal, que se mostrou apoiante deste projecto, considerando a “iniciativa muito importante porque vem de dentro da comunidade médica e indica uma vontade de mudança do sistema de saúde por parte de jovens profissionais de medicina que querem tornar a saúde mais inclusiva.” Segundo Jo Matos, da rede ex aequo “as associações LGBTI através da sua união e colaboração, impulsionam a evolução da sociedade e dos sistemas legais e médicos e agora podem fazê-lo com mais um aliado”.

Efectivamente, a rede ex aequo já tem iniciativas específicas para jovens trans, incluindo o Núcleo Nacional de Jovens Trans, Não-bináries e em Questionamento Identitário, que dinamiza actividades para jovens trans dos 16 aos 30 anos. Jo Matos afirma que “através desta iniciativa, para além de se criar um espaço de convívio e apoio, damos ferramentas e informações sobre questões médicas e legais que permitam o empoderamento das pessoas trans. Temos também no nosso site listas de profissionais e serviços de saúde recomendados por jovens LGBTI pelo seu acolhimento positivo e abertura relativa a questões LGBTI. Através destas iniciativas fornecemos apoio às pessoas que nos chegam e respondemos a questões sobre como navegar no mundo legal e médico. No entanto, é preciso que profissionais e serviços de saúde também se mobilizem pro-activamente para dar resposta às necessidades existentes e chegar à população que estão a servir.”

Jo Matos relembra ainda que “a DGS ainda não emitiu as normas sobre o acompanhamento de pessoas trans e intersexo nos serviços de saúde que ficou responsável por emitir no seguimento da Lei n.° 38/2018 da Autodeterminação da Identidade de Género e Protecção das Características Sexuais. Adicionalmente, as pessoas profissionais de saúde e futuras profissionais de saúde, não têm formação sobre questões de orientação sexual, identidade e expressão de género e características sexuais, pelo que não conseguem dar o acompanhamento devido a utentes LGBTI, e mais especificamente a utentes trans. O que em acaba por formar barreiras para os cuidados de saúde de pessoas trans”.

 

Sara Lemos