Rúbrica #AskOurNurse. Mais uma semana, mais questões respondidas pelo nosso Enfermeiro de serviço.
Questões
Eu tenho HPV (diagnosticado em Fevereiro, já tratei e também estou a tomar as vacinas) e o meu namorado HIV (diagnosticado há 3 anos mas ainda não está em medicação; começará depois do Natal). Estamos a começar uma relação, ainda não tivemos relações sexuais, e pomo-nos as questões: será que nos pomos em risco mutuamente e de que maneira? O que é que podemos e o que é que não podemos fazer no sexo? Será que até com um simples beijo poderei passar-lhe HPV?
Outra questão: tendo-lhe sido diagnosticado HIV há já 3 anos qual é a justificação médica para ainda não ter iniciado a medicação? Sempre pensei que a medicação fosse iniciada impreterível e imediatamente após o diagnóstico.
E a questão final: existe realmente alguma relação entre algumas manchas na pele e a seropositividade? Manchas parecidas com pequenas nódoas-negras muito desvanecidas.
Obrigado.
(leitor prefere não ser identificado)
Respostas:
Olá leitor,
Antes de mais permita-me felicitá-lo por englobar nas suas perguntas não apenas você, mas o casal. A vida a dois é efectivamente tudo isto e muito mais… e alguns barcos quando navegados em conjunto são bem mais fáceis de levar até ao seu destino.
Vamos por partes então…
“Será que até com um simples beijo poderei passar-lhe HPV?”
Quanto à questão do HPV, remeto-o para o meu artigo acerca disso mesmo. Penso que poderá esclarecer as suas dúvidas aí. Mas como sempre, se estas persistirem esteja à vontade para me questionar novamente que tentarei da melhor forma esclarecê-lo. Aqui fica pois o link: http://dezanove.pt/quando-a-amora-e-mais-do-que-um-fruto-831360. Outro artigo adicional aqui: http://dezanove.pt/550124.html
“O que é que podemos e o que é que não podemos fazer no sexo?”
Tudo. Desde que com protecção todas as práticas podem e devem ser experimentadas desde que haja prazer e consentimento mútuo.
“…será que nos pomos em risco mutuamente e de que maneira?”
Questão interessante. Por estranho que possa parecer, casais onde ambos sabem o estado de saúde do casal, normalmente, correm menos risco de se colocarem em risco (perdoe-me o pleonasmo). Isto porque ao saberem o seu estado de saúde, não só têm mais cuidados consigo, como com o parceiro… e, por norma, ao mínimo sinal de alerta procuram ajuda médica e tratam precocemente algum problema que esteja ainda no início.
“…tendo-lhe sido diagnosticado HIV há já 3 anos qual é a justificação médica para ainda não ter iniciado a medicação?”
A resposta mais simples pode parecer a menos satisfatória, mas acredite leitor, que é efectivamente a melhor: Porque ainda não foi necessário. O VIH, tal como qualquer outra infecção, tem o seu curso e o seu tempo até merecer tratamento. Este tempo pode ser menor ou maior consoante o vírus ou bactéria a que nos estejamos a referir. No caso em específico, o tratamento com antiretrovirais depende de variados factores, todos eles a serem considerados em conjunto. O subtipo do vírus, a evolução deste, o seu estado imunitário, a quantidade de vírus existentes em circulação (chamada de carga viral), a existência ou não de infecções paralelas e, por último, mas não menos importante, o avanço da terapêutica. Como pode reparar é uma decisão com muitas variáveis. Existem indicações europeias e internacionais que orientam a prática clínica de forma a obter os melhores resultados. E são estas orientações que levam cada médico a tomar a decisão certa com cada paciente.
“…existe realmente alguma relação entre algumas manchas na pele e a seropositividade? Manchas parecidas com pequenas nódoas-negras muito desvanecidas.”
A esta pergunta só poderei responder duma forma: consulte o seu médico ou enfermeiro de família. E explico-lhe o porquê. As manchas podem ser sinal de muitas coisas. Mas tal como no início da medicação, as variáveis são muitas. E dou exemplo de algumas: falamos de manchas em si ou no seu parceiro? Essas manchas têm relevo? Desaparecem quando pressionadas? Dão comichão? Teve mais algum sintoma acessório? (sintoma que tenha surgido como, por exemplo, febre). Tal como lhe tinha dito anteriormente, um casal informado por norma é um casal defendido. Não há razão para não consultarem o vosso médico ou enfermeiro de família e exporem o problema. Acredito que vão encontrar profissionais sem complexos ou juízos de valor, mas acima de tudo com muita vontade de ajudar.
Enfº Carlos Gustavo Martins
Licenciado em Enfermagem exerce funções no Serviço de Urgência de um Hospital Central. É enfermeiro de viatura médica de emergência e reanimação e do helicóptero de emergência de Lisboa. Colabora com o dezanove.pt desde Março de 2011.
Durante algumas semanas estamos disponíveis para receber as tuas questões e dúvidas. A tua identidade será, se assim preferires, salvaguardada. Sempre que existirem, as perguntas seleccionadas serão respondidas no espaço de crónica do nosso Enfermeiro aos Domingos aqui no dezanove.pt.
Envia a tua pergunta, dúvida ou tema para geral@dezanove.pt
Queremos ajudar a esclarecer sobre questões de saúde. Ajuda-nos também a ajudar!



6 Comentários
Anónimo
A resposta do enfermeiro Carlos foi extremamente adequada e esclarecedora. Gostaria apenas de acrescentar que até recentemente apenas se tratava o VIH de acordo com alterações em análises (carga viral e CD4) ou pelo aparecimento de infecções oportunistas. Mais recentemente um estudo mostrou que haveria benefício em tratar logo que feito o diagnóstico e está a caminhar-se nesse sentido.
Bruno Maia
A OMS emitiu uma pré-recomendação oficial, já este ano, de que a terapeutica anti-retroviral (para combater o VIH) deve ser iniciada o quanto antes, independentemente do numero de celulas ou carga viral. Ou seja neste momento qualquer pessoa positiva para o vírus deve iniciar o tratamento de imediato. Qualquer Recomendação alternativa vai contra a evidencia actual (ver estudo START publicado este ano). Falem com o vosso médico e confrontem-no com estes factos.
Anónimo
A meu ver esse estudo de ser mais benéfico tomar logo a medicação assim que se sabe do diagnóstico é um tanto ao quanto tendencioso para as farmacêuticas facturarem mais, assim como já se falou em casais serodiscordantes o elemente seronegativo fazer medicação… sou seropositivo e estive 10anos a ser acompanhado por uma excelente médica e em conjunto optamos por ‘arrastar’ a medicação até a mesma ser efectivamente necessária, ao início pensei bem… 3 anos e lá terei de a fazer… o tempo foi passando, passando, de 3 em 3 meses fazia análises e pronto agora que em termos de valores estava perto de precisar, optei por iniciar a terapêutica. Atenção: a minha médica sempre, mas sempre frizou que se eu decidisse optar a qualquer momento pela medicação ela não iria contra…
Por isso falem bem com os médicos sobre o caso antes de ligarem a um estudo… pelo estudo eu já teria 10anos de terapêutica que a esta hora possivelmente o organismo até já se teria habituado e teria de passar para outra mais forte.
Bruno Mais
Olá anónimo 🙂 todo e qualquer medicamento no mercado é aprovado com base em estudos de farmacêuticas, logo todos os medicamentos produzidos no mundo são “tendenciosos”! Mas não foi o caso deste, este ensaio não teve um cêntimo de qualquer farmacêutica, foi realizado pelo grupo INSIGHT na universidade do Minesota e com fundos do NIH (Instituto de saúde pública Americano, financiado pelo Governo). O que ele veio demonstrar foi que não só os eventos relacionados com SIDA diminuíram mas também todos os restantes “eventos” não atribuídos ao vírus, com uma diminuição da mortalidade atribuída em 57%. Mais esclarecimentos: http://www.niaid.nih.gov/news/QA/Pages/S TARTqa.aspx
Anónimo
Não percebo primeiro como um enfermeiro pode responder em relação à prescrição de terapêutica médica e segundo a OMS, a medicação deve ser administrada independentemente da carga viral, precisamente para evitar o ressurgimento de vírus resistentes à medicação. A prática que ele defende aqui era a anterior que era usada, indo contra os pareceres de há pelo menos 5 anos atrás.
E faltou frisar, que tendo a carga indetetável com a administração diária da medicação, pode fazer sexo com o companheiro da maneira que quiser. Claro está, que minimizar os riscos não é sinónimo de abstinência.
No entanto, não defendo que não seja uma boa iniciativa do Dezanove, mas cada especialista na sua área, cada macaco no seu galho.
David
Ao dizeres “E faltou frisar, que tendo a carga indetetável com a administração diária da medicação, pode fazer sexo com o companheiro da maneira que quiser. “,
referes que consideras ser possível a prática de sexo tanto de maneira protegida como desprotegida, ou ao facto de (havendo proteção) poder ser feito sexo de todos os feitios?
Esse foi um aspeto cujo comentário não faltou no texto, com a resposta à pergunta “O que é que podemos e o que é que não podemos fazer no sexo?”,
em que o Enfermeiro esclarece “Tudo. Desde que com protecção todas as práticas podem e devem ser experimentadas desde que haja prazer e consentimento mútuo.”
Abraço