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Costuma dizer-se que Santo António é o Santo casamenteiro por excelência, mas ao que parece, o meu nome não constava na lista de noivos abençoados para este ano e por isso decidi escrever acerca da outra festa importante que acontece este mês e que, emparelhados ou não, é a nossa festa: o Pride.

Em jeito de confissão, nem sempre tive uma relação muito fácil e alegre com o Pride. Apesar de nunca ter negado a minha sexualidade a mim mesmo e de nunca ter feito um esforço activo para a negar aos outros, claro que enquanto crescia houve sempre uma tentativa de a esconder. Nunca sob a forma de ‘maxo discreto com namorada’ (e se ainda não ouviram o disco novo dos Fado Bicha, façam o favor de o ouvir porque é uma obra prima), mas vestindo a pele de Hermione Granger, com a desculpa de estar demasiado ocupado e focado a tirar notas de 17 para cima para me preocupar com namoradas. (Claro que quando falamos de 17 para cima, não estamos a falar de Educação Física, disciplina na qual eu contava quantas faltas de material podia dar por trimestre para não ter que fazer a aula e não chumbar por faltas…).

Durante esta fase que coincidiu também com o período da minha vida em que me identificava como católico, eu olhava para o Pride através daquelas lentes da Patriarquia, embaciadas e de fraca visibilidade, e que tantos membros da nossa comunidade (particularmente homens gays) ainda usam: “eles/elas que façam o que quiserem dentro do quarto, como eu também faço, mas porque é que têm que vir para a rua montar um desfile de Carnaval?”. Demorou alguns anos até eu finalmente ter rebentado a bolha Ramos-Goucha dentro da qual vivia. Felizmente, rebentei-a aos vinte e poucos anos e duplamente felizmente, nunca tive uma plataforma televisiva onde me pudesse dar ao desplante de dizer a pessoas mais bem resolvidas do que eu era na altura, “Tenham juízo, macacas”…

Uma das manifestações do Pride pode realmente tomar a forma de um mês de festa e exuberância. Pode ser um mês de excessos em que os nossos Santos Padroeiros do CheckpointLX nos perguntam com olhar cúmplice “Por cá outra vez?”, mas o que o Pride não é e nunca foi, é uma manifestação de pessoas que, citando Ramos-2021, “se colocam em guetos”.

É um mês em que uma comunidade minoritária e diversa não só celebra a vida, como também reclama o seu direito a viver da forma que lhe apetece, sem ter que prestar contas a ninguém e sem ter que o fazer exclusivamente dentro do quarto, e dentro da cristaleira da avó Hermínia, “onde a gente está aqui sossegadinhas, maravilhosas e expostas em cama de naperons sem incomodar ninguém”…

...um mês em que uma comunidade minoritária e diversa não só celebra a vida, como também reclama o seu direito a viver da forma que lhe apetece, sem ter que prestar contas a ninguém e sem ter que o fazer exclusivamente dentro do quarto.

Toda a gente dentro desta comunidade devia celebrar o Pride e essa celebração não implica que se vá fisicamente marchar. O que tem necessariamente que implicar é que se coloque a mão na consciência e se reconheça que a não-identificação com um dos muitos estilos de vida que existem dentro da nossa comunidade, não implica que se seja incapaz de olhar para este mês como a altura do ano em que honramos e celebramos todas as pessoas que tiveram a coragem de viver a sua vida abertamente, correndo riscos enormes, e que lutaram para hoje podermos desfrutar da liberdade de estar abraçados às nossas outras metades (ou terços, ou quartos…) na praia 19 e sem medo de ir parar à cadeia.

Toda a gente dentro desta comunidade devia celebrar o Pride e essa celebração não implica que se vá fisicamente marchar. 

Foi o abrir de olhos a esta realidade que me fez rebentar a bolha do “MascDisc fora do meio” e perceber que apesar de a sua parte mais visível estar concentrada num mês, o Pride é uma forma de estar na vida que implica apenas o simples acto de reconhecer que a luta continua, apesar dos direitos alcançados pela parte mais visível da nossa comunidade, como disse na crónica de há duas semanas acerca da Monkeypox. Há fases em que parece que o combate abranda, mas enquanto houver parte da nossa comunidade a ser alvo de ataques e discriminação activa, enquanto houver Andreias Aventureiras a inflamar comentadores do Correio da Manhã, enquanto houver pasquins de sarjeta a usar o nosso direito a f*der com quem quisermos onde quisermos como manchete para vender mais, não venham com merdas de “eles que façam o que quiserem no quarto, mas não precisam de vir para a rua”.

...celebramos todas as pessoas que tiveram a coragem de viver a sua vida abertamente, correndo riscos enormes.

Voltando a citar-me, a LGBTQ-fobia é uma acendalha barata e de acesso fácil, por isso ser “loud and proud” não é uma escolha de estilo de vida, é uma obrigação para connosco próprios e para com os outros. Não só para com os nossos irmãos e irmãs que vivem a sua vida abertamente, mas também para com todos aqueles adolescentes que neste momento podem estar com dificuldades em aceitar a sua sexualidade. Temos a obrigação de criar para eles uma comunidade aberta, amistosa e inclusiva e cuja representatividade mais visível não pode jamais ser dois homens brancos, homossexuais, cis-género a discriminar em prime-time quem se sente confortável o suficiente na própria pele para se tratar às vezes no feminino. 

Somos melhores que isto e somos mais do que isto, e como diz a mama Ru “If you can’t love yourself, how in the Hell you’re gonna love somebody else? Can I get an Amen up in here?”

Happy pride!

 

R. J. Ripley