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Q: Lady Gaga e Eurovisão. Mistura explosiva no Queer Pop

Nuno Galopim, programador do Queer Lisboa, explica ao dezanove as opções do programa Queer Pop deste ano. Nesta secção haverá o documentário “Prima Donna: The Story of Rufus Wainwright’s Début Opera” e três sessões com vídeoclips. A saber, uma com um balanço do último ano, outra dedicada à participação portuguesa na Eurovisão e ainda uma sessão só com Lady Gaga.




Dezanove: O Queer Pop terá uma sessão inteiramente dedicada a Lady Gaga. É sinal de que ela já destronou a Madonna como referência gay na música?


Nuno Galopim: Desde que a sessão Queer Pop foi criada temos procurado, além de panoramas da produção de cada ano, centrar depois um foco em grandes ícones. Já o fizemos com Madonna em 2007, os Pet Shop Boys em 2008, Myléne Farmer e Zazie em 2009 e, este ano, Lady Gaga. Não podemos pois centrar a escolha numa lógica de novo dono de um eventual trono, mas como um retrato de alguém com relevância no panorama pop e com afinidades com a cultura queer. Por todas as razões Lady Gaga era figura incontornável este ano.



Mas o que tem Lady Gaga de especial?


O facto de ter conhecido parte da sua formação artística num meio underground nova-iorquino atento a manifestações da cultura queer (no fundo os mesmos circuitos de espaços, figuras e ideias que há uns dez anos formaram uns Scissor Sisters), o seu posicionamento político de sistemático apoio às grandes lutas da comunidade LGBT, o tomar de figuras como David Bowie ou os Queen são apenas algumas das possíveis explicações para a soma de factos que dela fez, em menos de dois anos, um grande ícone pop para esta mesma comunidade. A sua obra em vídeo é notável, exibindo de resto um grau de sofisticação (e de orçamentos) que só os grandes casos de sucesso na música pop habitualmente têm acesso. Se destronou ou não Madonna, é “caso” ainda sem respopsta. Lady Gaga tem um álbum editado, mais um mini-LP. Está a viver ainda o ciclo aberto em 2008 com ‘The Fame’ e, por isso, quaisquer comparações com a dimensão que, em mais de 25 anos, atingiu a obra de Madonna, parece ainda conclusão precoce. É certo que, sobretudo desde o final da última digressão de Madonna, foi Lady Gaga a figura pop com maior exposição mediática.



Mas poderá suceder a Madonna, enquanto rainha do pop?


Tem de mostrar capacidade em resistir à erosão que o tempo lança sobre a maior parte das carreiras na música… Ou seja, para já deixemos o trono em quem o tem… E acompanhemos com atenção as cenas dos próximos capítulos… E se houver troca de ceptro, todos certamente daremos por isso.



Haverá também outra sessão sobre participação portuguesa na Eurovisão. Porquê a escolha destas seis canções? Reparo que a Dina, por exemplo, não está presente.


E como não está Dina não está também Madalena Iglésias, com um ‘Ele e Ela’ (1966) que tem sido das canções eurovisivas nacionais uma das que mais tem resistido ao tempo ou mesmo o ‘E Depois do Adeus’, de Paulo de Carvalho (1974), que adquiriu uma importância histórica ao ser usado como primeira senha na rádio na madrugada da revolução de 25 de Abril. Esta é apenas uma escolha. Não aleatória, de facto, mas representativa de alguns momentos numa história maior e à qual regressaremos mais dia menos dia no Queer Lisboa. São canções dos anos 60 e 80, juntando-lhes o “caso” de melhor pontuação de sempre nos anos 90. Para contar algumas histórias. E deixar para um futuro próximo uma série de reflexões sobre a relação da cultura queer com este fenómeno que, todavia, tem maior expressão em canções concorrentes vindas de outros países. Esta sessão é, assim, um prólogo para uma ideia que pretendemos desenvolver numa das próximas edições do festival.



Ainda na sessão sobre a Eurovisão, a música mais recente é Lúcia Moniz, com O Meu Coração Não Tem Cor. É sinal de que nos últimos 14 anos os músicos portugueses que foram à Eurovisão não produziram nada de relevante?


Apesar de nos últimos três anos Portugal ter estado representado na final do Festival da Eurovisão, o certo é que é já antigo o desinteresse português (que vai do grande público aos músicos, sem esquecer os editores discográficos) pelo Festival da Canção. De resto, a própria canção de Lúcia Moniz (de 1996), e que representa a melhor classificação de sempre de uma participação portuguesa (um 6º lugar), não chegou sequer a conhecer nunca uma edição em disco. Apesar do reconhecimento popular de canções como ‘Chamar a Música’ de Sara Tavares (1994) ou ‘Lusitana Paixão’ de Dulce Pontes (1991) a verdade é que não temos uma lógica de mercado (e logo de sucesso) aplicada às canções convocadas ao Festival da Canção desde meados dos anos 80.



Como explicar o sucessivo desinteresse pela Eurovisão?


O progressivo esvaziamento da chamada música ligeira dos espaços da rádio e do próprio mercado discográfico a partir de meados dos anos 80 pode ter sido uma das primeiras causas para este desinteresse. Com o tempo os nomes de primeira linha deixaram de concorrer. As canções não acompanharam os sinais dos tempos e cada vez mais estão de costas voltadas para o que escutamos noutras frentes da invenção musical. Mas o caso não é um exclusivo português, abatendo-se essencialmente por toda a Europa ocidental. Hoje o Eurofestival é fenómeno a Leste, onde o concurso terá uma relevância semelhante à que nos anos 60 ou 70 serviu a Europa Ocidental. Os tempos, por aqui, mudaram mesmo.



Rui Oliveira