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Entrevista: “O consumo está a contaminar a forma como olhamos para as relações”

O dezanove entrevistou um dos seis realizadores do filme “O Que Há de Novo No Amor?” (2011), com antestreia agendada para este Sábado, em Lisboa. Hugo Alves foi o responsável pelos ensaios da banda e pelo segmento de Marco (João Cajuda), personagem que luta pelo amor de outro rapaz, Tiago (João Pedro Silva), sem ilusões. Foi mais uma conversa que uma entrevista. Falou-se do filme, da produção do filme, do casting e de cinema claro.

 

dezanove: Como é que surgiu este projecto?

Hugo Alves: Todos nós vimos da mesma escola [Escola Superior de Teatro e Cinema], já nos conhecíamos já tínhamos feito qualquer coisa na Rosa Filmes [produtora do filme] anterior a este filme. Na altura, a produtora [Maria João Sigalho] achou por bem ajudar a idealizar este projecto...


 

Mas já tinham uma ideia base, vocês os seis.

Sim, tínhamos uma ideia base, mas quando se juntam seis cabeças há muita reescrita envolvida... A forma como nós articulámos essa fase da produção foi ter uma pessoa responsável por ser o coordenador dos argumentos, o Octávio Rosado. Ele já tinha escrito argumentos na Rosa filmes. Foi a pessoa que nos serviu de coordenador e tinha reuniões particulares com cada um dos seis para desenvolver coisas que têm que ver com os aspectos específicos de cada um dos segmentos.

 

E como surgiu o teu segmento, nomeadamente o tema da homossexualidade com estes dois personagens, o Marco (João Cajuda) e o Tiago (João Pedro Silva)?

Pode ter alguma coisa que ver com histórias que eu já tinha escrito. É um assunto que tem alguma relevância. Porque há aspectos da homossexualidade que não aparecem retratados nos filmes, que eu já vi pelo menos.

 

Mesmo que dirigidos para a comunidade gay ou feitos por realizadores ou realizadoras homossexuais?

Bem, não quero ser ultra generalista. A minha experiência particular diz-me que há qualquer coisa sobre a sexualidade das pessoas, que diz respeito à homossexualidade, e que é um capítulo muito importante da adolescência e da entrada na vida adulta para muitos jovens, eu acho. As indecisões, as incertezas... É uma coisa que é muito mais lato no comportamento do ser humano, do que aquilo que eu vejo retratado nos filmes.

 

 

Vês então importância dos temas LGBT serem retratados nos filmes?

Sim. Acho muito interessante a fase do nosso amadurecimento em que não descartamos nenhuma possibilidade e temos medo de todas.
Medo do que está para vir e, mesmo assim, fica-se ali naquele limbo.
Claro. Há uma ideia de fundo ao longo do filme. Esforcei-me para que isso apareça da melhor forma possível ou da forma mais justa possível. Há uma espécie de insatisfação crónica nas decisões que nós tomamos a nível emocional e sobretudo nessa fase de desenvolvimento enquanto pessoas. Não há uma idade específica em que as pessoas desenvolvem a sua sexualidade. Estou a tentar generalizar. Se calhar a idade mais típica seria a adolescência, em que as pessoas despertam para a sexualidade. E ao longo da nossa vida nós temos tanta dificuldade em viver de acordo com as nossas decisões, isso já é um problema durante a vida. Estou a falar a nível afectivo... "Será que estou bem com aquela pessoa? Será que eu não deveria procurar alguém mais como uma outra experiência que tive?”. Então nesta fase em particular, da entrada na sexualidade, ainda é mais complicado nós sabermos se estamos a tomar a decisão certa, porque temos aquele peso de achar que vai ser uma decisão que vamos tomar para a vida. É uma decisão que não dá para retroceder.

 

O Marco (João Cajuda) sente essa insatisfação?

Sim. Aquilo que é interessante nestes dois personagens é que eles têm insatisfações ligeiramente diferentes... O Marco (João Cajuda) é um tipo que, apesar de estar esclarecido em relação à sua sexualidade, tem muitas incertezas em relação a quem é que é a pessoa que está à sua medida em termos afectivos, quem é o seu companheiro, quem é que pode ser o seu companheiro, a nível mental, a nível psicológico, quem é que é a pessoa que o pode acompanhar a esse nível, visto que em termos da sua sexualidade ele não tem dúvidas. O outro personagem, o Tiago (João Pedro Silva), é exactamente o contrário. É uma pessoa que ainda tem alguma ingenuidade em relação à vida, mas que é um tipo que não está ainda muito esclarecido em relação à sua sexualidade. Ele ainda não consegue ver os problemas que vêm, o passo que há depois, ele ainda não tem essa dimensão.

 

Como é que chegaste a este casting ao João Cajuda e ao João Pedro?

Foi muito difícil conseguir achar as pessoas certas para os papéis.

 

Ainda há algum receio dos actores portugueses em interpretar papéis homossexuais?

Felizmente não era por causa disso. Fiz muitos castings para tentar achar principalmente a personagem do Marco. Fiz muitos castings e não consegui encontrar uma pessoa em que eu pudesse acreditar que este é o Marco, este é um tipo que vive dentro de uma certa liberdade e se vê isso. Um pessoa que tivesse essa linguagem corporal, ou melhor, uma pessoa que tivesse uma linguagem não verbal disso. Há uma parte muito importante da comunicação que não é feita dessa forma, é feita através da linguagem não verbal. E andei à procura de uma pessoa que não só conseguisse dizer o texto, interpretá-lo e ter ideias para a história, mas que ele próprio também tivesse uma linguagem não verbal à partida que fosse de encontro aquilo que é esta personagem. Na personagem do João Pedro (Tiago) ele fez um casting e foi logo dos primeiros em que eu disse "OK! É este que eu quero.". Em relação à personagem do Marco foi muito complicado. E foi muito complicado não por o João Cajuda ter aparecido, ter feito um casting e eu ter ficado com muitas dúvidas. Eu não tinha visto o casting dele, andava a fazer castings e castings, e a gente tem um deadline, porque a produção tem de avançar. E eu super indeciso. E tinha um assistente de realização que nos últimos dias me disse sempre "Olha que tu ainda não viste o casting do João Cajuda. Olha que o João Cajuda fez bem. E olha que tens de ver.". E eu no último dia do casting disse "Tudo bem, vou lá ver esse casting.". E quando vi aconteceu o melhor que podia ter acontecido, que é quando há uma pessoa me surpreende. Disse-me algo em que eu não estava a pensar. No dia em que eu vi o casting era um dia em que o João Cajuda podia vir aqui e fazer um segundo casting com o João Pedro, que por acaso cá vinha também. Então no último dia consegui juntar os dois e fazer a prova dos 9 e ver se os dois funcionavam bem se não.

 

O teu segmento é todo à noite, só há uma ou duas cenas de dia. Foi de propósito?

Foi de propósito no sentido em que este segmento está cheio de dualidades. A pessoa que está esclarecida sexualmente pode ser a pessoa que não está esclarecida psicologicamente em relação a outros aspectos dos afectos e a personagem do João Pedro (Tiago) acaba por ser o  oposto. Eles os dois acabam por ser o oposto, enquanto a personagem do João Cajuda (Marco) está totalmente à vontade e está totalmente no seu meio, o outro é um outsider. Nesse sentido tem lógica haver também uma dualidade naquilo que é a fantasia da noite e a realidade do dia a seguir. Quis fazer uma construção duma ilusão e dum ambiente que é permissivo e perceber como é que as personagens se comportam num ambiente que é permissivo. Às vezes é um bocado antagónico, porque é nos ambientes mais permissivos que as pessoas têm as maiores dúvidas. E depois fazer a oposição no que é o dia a seguir, a ressaca, o balanço do que é que aconteceu no dia anterior. Daí que eu tenha preferido fazer a maior parte da história à noite e dentro daquilo que é esse ambiente de fantasia para depois ter aquele espécie de balde de água fria que é o dia a seguir.

 

Foi difícil esta produção? Como foi esta aventura?

Foi uma aventura cheia de aprendizagem. Foi a primeira vez que estive envolvido num projecto com esta dimensão e portanto logo isso por pior que tivesse corrido ia dar uma grande aprendizagem. Mas neste caso foi uma coisa muito feliz, que eu acho que correu muito bem em muitas coisas. No caso específico da minha rodagem eu fiz questão de conseguir encontrar um sítio onde pudesse filmar toda história no mesmo sítio. Isso faz com que toda a equipa crie um hábito de trabalho, em que todos os dias vão trabalhar para o mesmo sítio. O sítio tem os vários sítios todos da história, mas eles estão todos no mesmo espaço. Muitas vezes o trabalho do realizador é saber identificar aquelas situações que vão ser proveitosas. Aquelas situações que vão produzir alguma coisa, que vão descobrir alguma coisa em bruto em determinada situação. Há um lado da realização que é a gestão dos recursos e para isso nós temos que conseguir reconhecer talento, potencial. E este décor é um décor foi isso que aconteceu. Quando estive no décor reconheci que havia ali um potencial enorme para poder fazer a história toda e bem, nem era a safar, era mesmo bem feito. Não só há um espaço grande onde pode acontecer uma festa, como há umas escadas em caracol a um canto, que não se iria ver, nem se conseguia ver e dava para fazer a outra zona. Há umas escadinhas que sobe e aquilo vai dar a um quarto, que é o quarto do Marco. Aquilo já tinha ali muita coisa em potencial.

 

 

O que sentiste no momento da atribuição do prémio TAP para Melhor Longa-Metragem Portuguesa de Ficção no IndieLisboa do ano passado? Foi o reconhecimento do vosso trabalho?

Sim. No fundo é uma instituição [IndieLisboa] que ela própria tem bastante prestígio em Portugal e no cinema português. Cada vez que alguém reconhece que o trabalho que nós tivemos durante tanto tempo, valeu a pena. Porque acima de tudo a todas essas incertezas quando uma pessoa está a fazer um trabalho destes pela primeira vez assim com esta dimensão. O mundo nunca viu nada destas pessoas

 

Para ti, afinal, o que é que há de novo no amor?

O amor acaba por ser um espelho daquilo que é uma sociedade numa determinada altura. Uma sociedade está em constante mudança e o amor há-de ganhar sempre novas dimensões e novas perspectivas... Hoje em dia nós temos uma sociedade que está muito virada para o consumo, em que mais ou menos todas as actividades estão de alguma forma relacionadas com um público e com uma finalidade de consumo. E isso cria nas pessoas aquela sensação de que para eu escolher o produto certo tenho que experimentar todos. Infelizmente as pessoas olham para as relações da mesma forma, não se vão querer comprometer à partida com uma relação sem terem a certeza. As pessoas nunca vão estar confortáveis numa relação sem saber que aquela era a melhor escolha possível entre todas aquelas que tinha. Esta ideia é muito violenta, mas eu não quero fazer um juízo de valor em relação a isto, é apenas uma constatação. Eu já senti isso, já passei por isso. Nós temos uma relação e eu estou a pensar "Esta é a pessoa a quem eu estou a dizer que vou querer passar o resto da minha vida... será que é a melhor opção? Será que não havia outra pessoa? Com a qual eu me desse melhor? Como que eu tenho a certeza que esta foi a melhor escolha?". Esta é uma questão muito forte, mas é uma questão muito influenciada por esta tónica de consumo. O consumo está de alguma forma a contaminar como olhamos para as relações.

 

Isso é uma visão um pouco pessimista do amor actual...

Isto é uma fase pela qual é preciso passar para se chegar à conclusão que a resposta a esta pergunta não está em experimentar para ter a certeza. A resposta está dentro de nós não está no exterior. Nesse sentido eu sou optimista, porque muitas vezes precisamos passar por extremos. Como se vê no meu segmento, a forma como as relações podem ser descartáveis é um bocado extremista. Imagino que estas personagens continuassem a viver a vida assim desta forma até chegar à conclusão que a resposta não está no exterior, está no nosso interior. O que é que eu sinto em relação a estar nesta relação. E nesse sentido sou optimista. (risos)

 

Pelo menos, és optimista no amor?

Lá está, às vezes as coisas precisam passar por umas instâncias um bocado extremas para acharmos uma nova ordem nas coisas.

 


Luís Veríssimo