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Um ano a Quebrar o Silêncio em prol dos homens sobreviventes

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Distinguida pelo dezanove.pt como Associação do Ano em 2017, a Quebar o Silêncio comemorou esta sexta-feira um ano de trabalho a dar voz aos homens vítimas de abuso sexual.

 

A Quebrar o Silêncio, a primeira associação portuguesa que presta apoio especializado a homens vítimas de abuso sexual, recebeu 85 pedidos de apoio no seu primeiro ano de actividade. Esta sexta-feira a Quebrar o Silêncio organizou um evento para lançar novos materiais de sensibilização, mas também para reflectir sobre o primeiro ano de actividade. Margarida Medina da AMCV (Associação de Mulheres Contra a Violência) e Pedro Gonçalves da Questão de Igualdade estiveram presentes para uma conversa informal sobre violência e abuso sexual de homens e rapazes.

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“A maioria dos homens vítimas de abuso sexual demora cerca de 26 anos em silêncio até procurar apoio. E a maioria destes homens que chega até nós, procuram apoio pela primeira vez,” disse Ângelo Fernandes, fundador da Quebrar o Silêncio. “As pessoas por vezes acreditam que os agressores são estranhos, mas essa é uma ideia errada. A maioria dos casos ocorre na infância e em cerca de 90% dos casos o agressor conhecia o rapaz, porque era familiar ou conhecido da família. E estes não são casos pontuais. Na maioria das vezes, falamos de casos de abuso com duração média entre 3 a 4 anos, sendo que há casos de abuso com duração superior a 10 anos”.

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No entanto, há muita desinformação e muitos mitos acerca do abuso sexual de homens e rapazes. “Há uma certa resistência em reconhecer que os homens também são afectados pelo abuso sexual, quando na verdade 1 em cada 6 homens é vítima de abuso antes dos 18 anos”. Os valores tradicionais da masculinidade reforçam ideias erradas, como “a ideia de que os homens são sempre o agressor e nunca a vítima, o que alimenta também o silêncio dos homens sobreviventes e acaba por se tornar num obstáculo a procurar apoio.” Dos 85 pedidos de apoio no primeiro ano de actividade da associação, 78,3% é de homens que procura apoio pela primeira vez.  Em 66% dos casos, o abuso ocorreu entre os 0 e os 11 anos.

Além do acompanhamento dos homens sobreviventes, a Quebrar o Silêncio trabalha com as escolas para realizar sessões de sensibilização para rapazes e raparigas, onde se abordam temas para lá do abuso sexual. “Quando pedimos que nos ajudem a definir o que é ser homem, a maioria das respostas vem no sentido de que o homem não pode chorar, tem de ser forte e saber defender-se. Os valores tradicionais da masculinidade continuam muito presentes na educação das crianças. Numa das sessões, um dos jovens referiu-me com convicção que «ser homem é ser o pilar que sustenta a família»”. 

Sobre a violência sexual, o fundador da associação refere que os jovens “por um lado compreendem que a responsabilidade do abuso é do agressor, mas por outro continuam a acreditar que a vítima pode provocar e que de algum modo é responsável pelo abuso sofrido. É um reflexo da cultura de responsabilização que observamos diariamente, e que muitas vezes aponta o dedo a quem sofreu o abuso e não a quem o cometeu, o que promove também o silêncio das vítimas”.

 

O primeiro ano em números

No primeiro ano de actividade a Quebrar o Silêncio teve 85 pedidos de apoio. No entanto, na avaliação do primeiro ano, estão contabilizados apenas os pedidos até 08 de janeiro de 2018, que englobam 76 pedidos de apoio. Desses 76 pedidos de apoio, 46 eram homens sobreviventes. 16 pessoas não sobreviventes (familiares ou pessoas amigas) e 14 mulheres sobreviventes que foram reencaminhadas para entidades parceiras como a AMCV.

A idade média dos homens sobreviventes que procuram a Quebrar o Silêncio é de 36 anos.

Num total de 46 homens sobreviventes: 36 homens sobreviventes referem que é a primeira vez que procuram apoio (78,3%) e apenas 10 homens sobreviventes já tinham procurado apoio antes (21,7%). Destes 26 homens sobreviventes residem em Portugal e outros 20 residem em Espanha, França, Suíça, Roménia, Alemanha ou Brasil. 

31 casos ocorreram entre os 0 e os 11 anos (66%) e 10 casos ocorreram entre os 12 anos e os 18 anos (21,3%)

Importa referir que vários dos homens sobreviventes sofreram abuso em diferentes fases da vida e por diferentes agressores/as. 

30 dos homens sofreram abusos continuados (65,2%) e 3 casos foram de abuso pontual (6,5%). O abuso durou, em média, entre 3 a 4 anos. No entanto, há casos em que o abuso durou 10 ou mais anos. 

24 casos onde o agressor era membro da família (52,2%) e há 18 casos regsitados onde o agressor conhecia o rapaz ou o homem (39,1%), 1 caso desconhecido e 4 casos sem informação (8,7%).

 

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O primeiro ano de actividade fica marcado pelo lançamento de novos materiais promocionais que pretendem ser difundidos à população em Portugal de modo a combater a desinformação. Um desses materiais é um vídeo (visualizar infra) e um guia para homens sobreviventes de abuso sexual a ser lançado no primeiro trimestre de 2018. Igualmente previsto para o primeiro trimestre do ano está um podcast da associação com temas e convidados já conhecidos: “Abuso sexual de homens e rapazes” com Tozé Brito, “Educação sexual e sexualidade” com Vânia Beliz e “Os media e a violência sexual” com a jornalista Catarina Marques Rodrigues.