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VIH no Quénia: "há pessoas a quem lhes foi proibido o acesso a medicação e tratamentos"

Continuação da entrevista efectuada pelo estudante de Farmácia português, Tiago Dias, voluntário no Quénia a Bonnie, um activista defensor dos direitos das pessoas LGBT naquele país.

Tiago Dias: Já te assumiste aos teus amigos e familiares? Pensas fazê-lo?

Bonnie: Apenas me assumi a um primo, que é um dos meus melrões amigos e a pessoa que eu convivo mais no meu dia-a-dia. Ele é heterossexual mas defende-me e apoia-me incondicionalmente. Porém não fazê-lo com o resto da minha família nos próximos anos. É muito difícil, quer a rejeição, quer as consequências para a própria família se alguém de fora tomar conhecimento.

 

E quando procuras locais de diversão nocturnos? Existem locais abertamente gays? Ou estes locais são restritos e saber da sua existência é uma tarefa muito difícil?

As saídas à noite são sempre uma forma de socializar e conhecer novas pessoas que partilhem as mesma orientação sexual, mas em Nairobi não é tarefa fácil. O medo mesmo que por breves instantes está sempre presente. Existe apenas um sítio que consideramos melhor gay friendly, é o Envy Club, aberto toda a semana e onde as noites de karaoke são as mais animadas. Há um ambiente descontraído e onde uma pessoa pode agir com liberdade. Porém temos de tomar sempre cuidado quando saímos. Acontecem por vezes agressões verbais ou perseguições, que apesar de raras, podem terminar em violência. Existem mais dois clubes friendly, mas onde onde a maior parte se dedica à prostituição de luxo para turistas ou para quenianos com poder económico que podem comprar descrição.

 

Existem festas e eventos secretos? Como funcionam? Existem senhas?

O que existem são festas em casas privadas onde o contacto é feito por telemóvel ou email de forma secreta a um grupo restrito. Também é comum um grupo alugar um espaço e contactar seguranças para vigiar a festa e garantir a segurança. Estas festas são frequentadas por gente que está mais no meio, que frequenta associações ou lê notícias em blogues LGBT.

 

A prostituição gay e lésbica é uma área de foco das associações LGBT e os trabalhadores sexuais são uma minoria bastante discriminada. Como tem sido conduzida esta ajuda?

Os trabalhadores sexuais são uma população crescente, mas mesmo assim são um grupo minoritário com imensa dificuldade de aceitação social e legal, sem plataformas de apoio até há pouco tempo. São uma população com uma elevada presença de infecção do HIV e a ajuda de cuidados médicos a estas pessoas é quase inexistente. Existe muita discriminação pelas instituições de saúde governamentais.

 

As associações LGBT oferecem também apoio para os problemas relacionados com VIH e outras doenças sexualmente transmissíveis?

No centro de Nairobi a YSHAR, criada em 1997, tem tido mais força junto na aceitação e mais condiçõess para ajudar a comunidade LGBT. Esta organização foca-se nos direitos de saúde de pessoas que têm sexo com pessoas do mesmo sexo e também na redução do estigma e discriminação criando campanhas para o apoio legal dos direitos de saúde e o acesso destas ao tratamento do VIH e outras IST.

 

Existe então discriminação por parte das entidades públicas de pessoas com VIH que se assumem  homossexuais?

Sim, diariamente somos contactados anonimamente por pessoas a quem lhes foi proibido o acesso a medicação e tratamentos. Pessoas a quem não é prestado auxílio em caso de urgência e  onde, por vezes, o nome é anotado numa “lista negra”. Considero isto ultrajante para os Direitos Humanos e para a Liberdade.

Quando foi a última marcha ou evento público contra a homofobia em Nairobi? São feitas acções junto da população habitualmente?

Eu nunca participei num evento desses e sei que é proibido fazer acções contra a homofobia e  onde sejam distribuídas brochuras e outras folhetos informativos.

Qualquer distribuição destes materais é proibida por lei. Porém, no último 17 de Maio foi realizada a mais recente marcha contra a homofobia num parque público de Nairobi. A marcha foi realizada com várias pessoas que usaram máscaras, t-shirts com palavras de apoio e bandeiras. Esta manifestação teve a presença e segurança da polícia. No entanto, a demostração de afecto entre pessoas do mesmo sexo não aconteceu e é proibida. Por isso, com o intuito da marcha decorrer em paz e ser uma acção de sensibilização em silêncio não forçamos atitudes que possam parecer provocadoras.

 

Já pensaste sair do país e emigrar para um país que aceite a homossexualidade, para viver uma vida mais sossegada e constituir a tua família?

Não, nunca. Quero ficar aqui e assistir a transformações que vão acontecendo. Acredito que estarei presente no dia que ser diferente será legal.

 

Quem é o vosso “role model” no Quénia? Qual é a figura pública que serve como referência na luta contra a homofobia?

É Mugunga, o chefe do departamento de Justiça.  É como se fosse a segunda figura de Estado. Tem tido um papel fundamental na luta para a mudança de alguns artigos na lei no que se refere a homossexualidade e tem estado sempre a favor dos homossexuais em casos de discriminação ou de violência contra estes. E nele que depositamos confiança para um ponto de viragem.

 

Os meios de comunicação têm sido um veículo de divulgação positivo ou negativo para a causa?

Positivo sem dúvida. Nas estações de rádio e televisão existem programas de ajuda sentimental, de debate público onde as questões homossexuais são debatidas, conversadas e onde muitas vezes as pessoas são encaminhadas para instituições. O feedback que vejo destas intervenções é que as pessoas estão mais receptivas a realidade homossexual, que as pessoas escutam mais e que são mais tolerantes.

 

Tens esperança no futuro?

Sim, claro! Espero que o Quénia que siga os passos da África do Sul e possibilite a legalização da homossexualidade. Confio na minha gente acredito que algo acontecerá e será para melhor. E claro teremos todo o apoio para as questões de saúde como VIH que é das áreas que mais lutamos para os direitos igualitários.

 

Entrevista de Tiago Dias no Quénia

 

O nome Bonnie é fictício. Propositadamente não foram retiradas fotografias do entrevistado. No Quénia a pena aplicada no caso da homossexualidade masculina é de 10 ou mais anos de prisão. A homossexualidade feminina é legal.