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António Serzedelo: "Os casais heterossexuais podem entrar nos lares. Os casais LGBT não: são separados!"

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Envelhecer Fora do Armário é o mais recente projecto da Opus Gay. A associação quer que os idosos LGBT vivam a sua sexualidade plenamente e sem medos. O dirigente histórico da Opus Gay, António Serzedelo, explica que com o passar da idade há pessoas que regressam ao armário por temer não serem aceites nos lares. O projecto é coordenado por António Guarita também da Opus Gay.

Envelhecer Fora do Armário arrancou em Junho e tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.  Sabe mais nesta entrevista conjunta concedida pelos dirigentes da Opus Gay ao dezanove.pt.

 

dezanove:  No que se traduz o projecto Envelhecer Fora do Armário?

António Serzedelo e António Guarita: É um projecto de cidadania, e, este sim, fracturante para a nossa sociedade. Combatemos o “armário”, tal como o próprio nome indica. O “armário” é o isolamento, ou seja, a solidão, a discriminação social, a violação dos direitos humanos, a violência doméstica. Pretende-se, ainda, que esta população [população sénior LGBT] possa viver sem medos e ansiedades o seu envelhecimento, e que a sua experiência de vida possa servir de exemplo às gerações LGBT mais jovens, ainda muito insensíveis a esta questão do envelhecimento, para construirmos uma sociedade mais isenta de preconceitos e discriminação, passando esta a ser mais inclusiva, optimizando, desta forma, a qualidade de vida de todos: gays e heterossexuais.

 

Existe um local físico para acolher este projecto ou trata-se apenas de um serviço de formação a funcionários de lares e intermediação junto de cidadãos séniores LGBT? 

Para já, para além da intermediação e formação, estão previstas actividades na sede da Opus Gay e noutros espaços.

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Que actividades desenvolvem junto desta faixa etária?

Temos actividades com e para os idosos LGBT em teatros, museus, bibliotecas, parques, jardins, piscinas, reuniões  e discussão dos mais variados temas, jantares, entre outros. Acolhemos ainda propostas e sugestões por parte dos utentes ou de outros.

 

Há o objectivo de abrir um lar exclusivo para pessoas idosas LGBT em Portugal como aconteceu recentemente na Suécia? 

Seria o ideal; contudo, não existem condições para esse efeito, por ora. No futuro, com eventuais parcerias, incluindo o Estado, a Câmara Municipal de Lisboa (CML), o Poder Local, os Orçamentos Participativos e com privados, estamos em crer que a criação de lar ou lares direcionados para integrar esta população será realidade. Podemos começar com “centros de dia”, por exemplo. Inspirámo-nos no modelo de projecto “Pink Passkey”, da Holanda, aliás muito bem-sucedido, sinalizando nas portadas dos serviços a sua boa predisposição para a diversidade. Também visitámos projectos em vigor em Frankfurt, na Alemanha, com quem nos temos mantido em contacto e que passam pela utilização de estruturas já criadas e frequentadas por pessoas heterossexuais, sendo as mesmas gay-friendly, onde os LGBT se integram sem quaisquer problemas, dado que o que conta é a mudança de mentalidades para propiciar a inclusão e não a segregação.

 

Recebem muitas queixas ou apelos de pessoas LGBT que estão em lares ou que não querem ir por questões relacionadas com discriminação?

Temos conhecimento de que as pessoas LGBT não querem ir para lares, onde receiam ser discriminadas, ou terem de voltar de novo para o armário, sobretudo aquelas que têm vivido a sua vida fora dele. Por exemplo, os casais heterossexuais podem entrar nos lares. Os casais LGBT não: são separados! O que se torna muito doloroso!

 

Tiveram conhecimento de casos de casais de pessoas do mesmo sexo que foram impedidos de entrar num lar por serem homossexuais? Podem explicar o que aconteceu? 

Tivemos porque nos foi directamente contado pelas pessoas envolvidas, num pensionato da Linha de Cascais. Foi há cerca de três, quatro anos.

 

O que esteve ao alcance da Opus Gay para resolver esse(s) caso(s)?

Na altura tentámos falar com a direcção que disse não ter quartos apropriados livres  para casais...

 

Tem números relativos a este tipo de discriminação nos últimos anos? 

Estes números não são conhecidos.

 

Quais são os principais problemas que afectam os idosos LGBT portugueses?

Para além dos problemas já bem conhecidos de todos e que afectam uma grande parte dos idosos portugueses de uma maneira geral, existem questões específicas que se prendem com a vergonha em ser LGBT, o que leva a uma retracção dos idosos no momento de usufruírem de determinados serviços e/ou conviver com terceiros, o exercício da sua sexualidade e dos seus afectos sem repressões, porque na terceira idade nem a sexualidade nem os afectos entram na gaveta. Tudo isto empurra-os para uma situação de isolamento ainda maior e de depressão, que leva a outras doenças mais graves. Não podemos esquecer também que a própria comunidade LGBT, jovens na sua maioria, não percepciona os idosos da mesma forma com que percepciona os seus problemas. Daí não falarem nisso. De resto, a própria sociedade não está atenta à terceira idade, muito embora daqui a 15 anos Portugal tenha mais de 50% de população idosa. É necessário aproveitá-la nas suas mais-valias e este projecto serve também para isso.

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Qual o papel que a Opus Gay pode desempenhar quando recebem queixas de discriminação ou violência?  

Alguns casos poderão ser reportados às autoridades competentes (polícias, tribunais, etc.), outros casos terão de ser mediados e/ou negociados por nós, no âmbito da actuação do nosso Gabinete de Atendimento (multidisciplinar), para evitar a repetição de situações indesejadas, outros casos terão uma intervenção psicológica e social. A solução será alcançada de acordo com a especificidade de cada caso em concreto.

 

Falta dar mais visibilidade aos idosos LGBT portugueses? De que forma?

A terceira idade em Portugal, em geral, é muda e invisível. Houve até um candidato a deputado pela Guarda, distrito dos mais envelhecidos do país, que apelidou os idosos de “peste grisalha”. Nós proporíamos uma Secretaria de Estado da Terceira Idade num próximo governo. Recordamos que são mais de 2,5 milhões de cidadãos nesta faixa etária. Para a cidade de Lisboa, propomos um vereador da 3ª Idade. Não será uma questão de dar mais visibilidade aos idosos LGBTA, mas sim ter em atenção que esta é uma população esquecida, quer pela sociedade em geral, quer pela própria comunidade LGBT, o que não deve continuar a acontecer. Este projecto visa, também, que a autoestima tantas vezes em baixo, por causas próprias ou alheias, seja revertida, através de acções de valorização pessoal e capacitação/empoderamento dos idosos LGBT e de actividades adequadas à sua faixa etária, que potenciem o convívio com benefícios sociais para todos. Precisamos, por isso, do apoio de toda a gente: homens, mulheres, jovens, maduros, heterossexuais ou LGBT e, sobretudo, de voluntários.

 

Qual é o apoio concedido pela Câmara Municipal de Lisboa a este projecto? 

Esta administração da CML tem-se preocupado sempre com as minorias. Tudo começou porque tivemos conhecimento de outro projecto na União Europeia e para o qual fomos convidados. Na nossa candidatura obtivemos uma classificação superior a 4, numa escala de 0 a 5.

O apoio da CML tem duas vertentes: A financeira: 60% do orçamento apresentado em sede de candidatura, sendo que a Opus tem de comparticipar com 40%. Quanto à vertente logística, referimos, a título de exemplo, o apoio ao evento de variedades, que vamos fazer no Fórum Roma, no próximo dia 31 de Outubro, em homenagem a Guida Scarllaty. A duração do projecto é de 12 meses, o que é pouco, reconhecemos, para esta mudança de mentalidades que pretendemos iniciar, mas é já um óptimo primeiro passo.

 

Sabe mais sobre o Envelhecer Fora do Armário aqui:

http://opusgay.org/projetos/envelhecer-fora-do-armario.html

https://www.facebook.com/envelhecerforaarmario

https://envelhecerforaarmario.wordpress.com/

http://issuu.com/opus_gay/docs/envelhecer_fora_do_arm__rio/1

 

Paulo Monteiro

 

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