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Cyberbullying, homofobia e serofobia: “Tive a sensação que ir à polícia foi completamente inútil”

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Recebemos uma denúncia de um caso de serofobia ocorrido o mês passado (Junho de 2016) em Portugal. Respeitando o direito ao anonimato, falamos com esta pessoa que é homossexual e seropositiva - que denominaremos simplesmente de A. - para perceber o que se passou; se a situação de que foi vítima ainda se mantém e, afinal, o que acontece quando se formaliza uma queixa deste tipo.

A. foi vítima de discriminação e insultos na Internet: Um "ódio totalmente injustificável" a que se somaram montagens fotográficas e ameaças. Desalentado A. teve a sensação que ir à polícia foi “completamente inútil”.

 

dezanove: A., fala-nos um pouco de ti, como te identificas e como passaste a ter um papel na luta contra o VIH.

A.: Tenho 30 anos, sou branco, cisgender e gay. Ter conhecido o meu diagnóstico em 2010 foi uma das principais razões que me fizeram interessar na luta contra o VIH.

Tinha estado envolvido, anteriormente, de forma mais marginal e mais superficial, mas nunca tinha reflectido a fundo sobre as questões ligadas a viver com este vírus.

 

Como é viver como o vírus?

Viver com VIH é algo complicado, socialmente perigoso e que pode afectar muito a saúde relacional e mental das pessoas. Vivi isto na primeira pessoa e percebi que era necessário trabalhar e fazer com que as coisas mudassem. Comecei por fazer voluntariado na primeira associação de pessoas LGBT seropositivas e passei logo a estar envolvido numa rede maior de activismo internacional, dentro da qual também recebi muita formação. A seguir, comecei também a escrever sobre o VIH e  foi esse o momento em que a visibilidade se tornou um ponto fundamental do meu percurso político e humano.

 

Neste momento estás a viver em Lisboa. Como te parece a cidade e a mentalidade das pessoas em geral em relação ao VIH? As pessoas parecem-te mais informadas, mais desinformadas ou mais preconceituosas?

Estou a viver em Lisboa há relativamente pouco tempo, portanto a minha percepção pode não corresponder totalmente à realidade e pode ter falhas devido ao facto de não ter chegado a conhecer muitos ambientes e grupos de pessoas. Dito isto, tenho a impressão que a mentalidade é um pouco fechada, que apesar da incidência alta de novos casos de VIH entre homens que têm sexo com homens, a comunidade LGBTQ de Lisboa tem muitos problemas com isto. Lisboa tem grupos de activistas excelentes e serviços bons, mas, por exemplo, não cheguei a conhecer um único activista da minha geração, ou mais novo, que tenha assumido publicamente o seu estado  serológico e, aliás, mesmo dentro de estruturas que proporcionam serviços de apoio "por pares" para pessoas com VIH, quase ninguém - que eu saiba - vive com VIH. Na minha vida privada, cada vez que revelo o meu estado serológico, as pessoas ficam surpreendidas pelo facto de eu não esconder este pormenor.  Tenho a impressão geral que as pessoas são muito desinformadas e bastante preconceituosas. Por isso, acho necessário continuar a discussão sobre este tema e apoio as iniciativas dos grupos que o fazem.

 

Encontraste um episódio de homofobia na Internet e denunciaste-o. Podes explicar-nos o que se passou? 

Há um grupo no Facebook dedicado a estrangeiros que vivem em Lisboa: arrendamentos de quartos e coisas do género.

Quando fui ver melhor a página, reparei num post homofóbico: dizia algo tipo "Portugal ganhava os jogos europeus se o Ronaldo Sr. Paneleiro não andasse no gay pride". Para além de sinalizar ao Facebook este post e os comentários, escrevi na página do grupo que não aceitava conteúdos homofóbicos num grupo destes e que os administradores deviam tratar disso.

 

O que aconteceu a seguir?

Fui excluído do grupo e comecei a receber insultos por mensagem privada.

Tirei screenshot, mas não respondi, até o momento em que dois dos meus amigos me disseram que estão a ser publicados nesse grupo ameaças, insultos e há uma minha foto tirada na Marcha do Orgulho ao lado de uma pessoa enforcada. Os insultos tinham a ver, sobretudo, com o facto de eu ser "paneleiro" e, por esta razão, ser chamado também de pedófilo, nojento, etc. Um ódio totalmente injustificável, expressado por desconhecidos. Tudo isto só por não ter ficado calado perante conteúdos homofóbicos.

 

Foste depois à polícia apresentar queixa. Como foi a reacção da polícia? Pareceu-te a mais adequada? Há quanto tempo foi isso?

Fui à polícia logo no dia seguinte, dia 25 de Junho. Apresentei queixa numa esquadra da PSP. A reacção do polícia foi um pouco indiferente. Do género "isto acontece centenas de vezes por dia, se não te aconteceu nada de fisicamente grave, o caso vai ser arquivado daqui a 20 dias". Não estou a dizer que não me ouviram ou que não registaram os factos, mas sim que tive a sensação que ir à policia foi completamente inútil. 

 

Tentaste insistir, repetir a queixa na esquadra ou ir novamente acompanhado de alguém de alguma ONG que te possa auxiliar com o depoimento, por exemplo?

Não, ainda não. Nenhuma das associações respondeu às minhas mensagens, tirando a rede ex aequo, que me pôs em contacto convosco. A ILGA disponibilizou o serviço de apoio jurídico, mas não me respondeu directamente: isto foi-me dito, por alto, por amigos. Senti-me bastante desanimado e deixei de insistir, pois estas coisas deviam ser mais fáceis: já ser vítima e denunciar é complicado, depois ter a impressão de ter que correr atrás das associações para ter qualquer apoio é cansativo. Aliás, insistir com queixas sem ter nenhum tipo de protecção, acaba por ser mais perigoso. E a polícia basicamente não me faz sentir muito seguro.

Recebi apoio de forma privada, mas eu precisava também de um apoio mais institucional. Se calhar bastava um comunicado de imprensa ou algo assim, mas ninguém quis escrevê-lo.

 

A polícia tem acesso aos prints screens com os ataques que te foram dirigidos?

A polícia podia ter acesso aos screenshots, mas não os tinha impresso no momento da queixa. Quando voltei para os entregar no dia seguinte, esperei uma hora sem poder falar com ninguém porque estava a ser tratado um caso grave e acabei por desistir.

 

Entretanto, ocorreram mais difamações em relação à tua pessoa (sobre uma suposta fraude) e menção na internet a ataques à tua pessoa com base no ódio por viveres com o VIH. Podes mencionar estes casos?

Entretanto, para além das ameaças no grupo, uma destas pessoas escreveu à página oficial de uma rede internacional à qual pertenço, dizendo que eu estaria a angariar avultadas somas em dinheiro em nome desta organização para um suposto projecto em África e isso que lhe parecia uma fraude.
Um dos responsáveis pela organização pediu-me explicações. Para mim ficou claro que estes desconhecidos estão a tentar prejudicar-me com insistência. 

 

Que tipo de comentários foram feitos?
Entre os comentários, há vários que mencionam a vontade de me torturar, pois vivo em Lisboa e, mais tarde ou mais cedo, hão-de me encontrar sozinho na rua. Também escreveram "se bater nele e pegar no sangue, até corro o risco de apanhar SIDA". A minha privacidade está, portanto, a ser violada publicamente. Estou a ser apontado como estando a espalhar o vírus e a ser chamado de pedófilo. Mais uma vez, VIH é razão de dupla discriminação: homofobia e serofobia. Uma destas pessoas é conhecida pelo hábito de espalhar ódio, xenofobia e fascismo. Já foi excluído de outro grupo online por estas razões e resolveu criar outro - em que eu entrei sem saber o que se tinha passado no anterior. Acho que é investigador, mas não sei mais nada dele.

 

As autoridades estão a par destas últimas situações que também configuram um potencial crime?

Sim, isso foi contado no primeiro encontro com a polícia. Foi escrito na queixa, mas não despertou muito interesse.

 

Que outras reacções tiveste entretanto?

Só a minha associação escreveu um comunicado de imprensa, no meu país de origem. As outras redes LGBTQ ficaram caladas, todas a falar do Brexit, do Pride, de tudo e mais alguma coisa. Até ao momento em que a próxima vítima seja espancada ou morta. 

 

Porque decidiste expor o teu caso, salvaguardando a tua identidade? 

Decidi expor o meu caso porque acho inaceitável que estas coisas aconteçam sem que os responsáveis sejam punidos. Se é verdade que, hoje, não fui atacado fisicamente, o nosso silêncio e a nossa indiferença alimentam um ódio que, amanhã, irá prejudicar outra vítima. Hoje sou eu activista, forte, 30 anos, assumidamente gay e como uma pessoa com VIH. E se amanhã acontecer a outra pessoa num estado de maior vulnerabilidade? Se eu ficar calado hoje, perante estes acontecimentos, seria cúmplice do ódio que amanhã poderá ferir ou matar outra pessoa. Com o silêncio não somos neutros, somos cúmplices, responsáveis.

 

Entrevista de Paulo Monteiro

 

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