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"A transfobia nos cuidados de saúde existe e nós enquanto Anémona recebemos muitos relatos disso"

Miguel Saraiva  Projecto Anémona.jpeg

A propósito da vacinação de pessoas trans contra a covid-19 fomos falar com alguém que lida de perto com as dúvidas e receios desta população.

Miguel Saraiva tem 27 anos, é médico interno de endocrinologia e presta cuidados a pessoas trans. Este profissional está ainda na génese da consulta multidisciplinar que será criada no Hospital de Santo António, no Porto, e dá ainda consultas a pessoas trans no Centro Gis, em Matosinhos. Por último, pertence ao recém-criado Projecto Anémona.  Fica aqui com a entrevista completa a este médico efectuada a propósito do tema da vacinação de pessoas trans contra a covid-19.


Para quem ainda não conhece em que consiste o Projecto Anémona?
O Projecto Anémona está em fase de se constituir formalmente enquanto associação e procura colmatar os cuidados de saúde dirigidos às pessoas trans. Tem na sua equipa profissionais de saúde e outros, pessoas trans e pessoas cis. No cerne do trabalho deste projecto multidisciplinar está o colmatar das falhas que vão sendo identificadas em saúde trans no país. Actua ainda na disseminação de informação e intervir do ponto de vista comunitário,  como foi agora com o caso da vacinação. Achamos que os cuidados de saúde a esta população ainda é de alguma maneira negligenciada.

Têm recebido muitos pedidos de ajuda e esclarecimento em relação à vacinação de pessoas trans?
Começamos a receber vários pedidos com dúvidas acerca da vacinação uma vez que a DGS tinha emitida uma directriz sobre a exclusão da vacinação de mulheres em idade jovem com a vacina da Janssen. E causou algumas dúvidas junto das pessoas trans, uma vez que esta directriz não era trans inclusiva. Procuramos responder às dúvidas, mas como o volume se começou a adensar decidimos emitir um comunicado oficial. Eu faço consulta de terapêutica hormonal e vi isso a acontecer com as pessoas que eu sigo na minha prática clínica.

Tendo em conta o comunicado que fizeram chegar aos colectivos e associações: O que falta fazer para "quebrar as barreiras de acesso no acesso à saúde e no direito à saúde sem discriminação" por parte de pessoas trans?
Falta fazer imensa coisa. Temos imenso trabalho pela frente. O fundamental neste momento é uma educação das pessoas do que é ser transgénero, quem são estas pessoas e o que precisam. Nós enquanto profissionais de saúde estamos formatados para encontrar patologia e para tudo aquilo que nos for estranho temos de "curar" ou "emendar" alguma coisa. Mas quando falamos de cuidados de saúde nas pessoas trans, e aliás as guidelines científicas internacionais assim o determinam, estamos a falar de uma condição de saúde e não de uma doença. É preciso mudar o nosso método de actuação, o nosso paradigma, e como abordar uma pessoa trans. Nada disto existe. É algo praticamente residual esta educação no ensino superior, nos cursos de medicina, enfermagem, etc. Neste momento estão a ser formados profissionais de saúde incapazes de prestar cuidados de saúde de qualidade a pessoas trans se estes não procuraram por eles próprios recursos e formação nesta área. Só assim se conseguirá um ambiente em que as pessoas trans sintam conforto e não ameaçadas quando recorrem aos cuidados de saúde. Tem havido muitos receios e barreiras no acesso das pessoas trans porque estas não se sentiam confortáveis. A transfobia nos cuidados de saúde existe e nós enquanto Anémona recebemos muitos relatos disso. Parece quase que as pessoas trans só recorrem aos cuidados médicos quando estão a morrer. Porque têm medo. Hoje não é tanto a barreira do registo civil - que é algo se consegue com alguma facilidade - e que facilita o acesso ao sistema de saúde e o próprio trabaho dos profissionais. Um exemplo, facilita que os intervalos de referência venham para o género com que a pessoa se identifica. Facilita a vida dos profissionais de saúde ao pedir exames complementares de diagnóstico. No entanto, os recursos são escassos. Até 2021 tínhamos apenas um centro multidisciplinar público em Portugal, em Coimbra, capaz de acompanhar todo um processo de transição  médico-cirúrgico de uma pessoa trans. As listas de espera são imensas, a necessidade é brutal e esta não é uma barreira negligenciável. Nesse sentido estamos a tentar expandir este tipo de recurso criando um centro no Hospital de Santo António que efectue o mesmo trabalho completo e condignamente e que irá funcionar a todo o gás a partir de Outubro.
Nem todas as pessoas trans querem ou precisam de atravessar este processo médico-cirúrgico. Há pessoas trans que efectuam a transição sem intervenção médica que é tão válida como qualquer outra.  Em resumo: as barreiras de acesso no acesso à saúde e no direito à saúde sem discriminação estão na educação e nas infra-estruturas.

“A Anémona reconhece que a problemática das recomendações científicas e clínicas das diferentes opções de vacinação contra a covid-19 não é responsabilidade directa das autoridades de saúde nacionais”, de quem é a responsabilidade?
Essa responsabilidade deve vir das entidades internacionais e aquilo que a DGS preconiza vai na senda das grandes autoridades internacionais (OMS, CDC, AEM) e são baseadas em ensaios clínicos, no fundo, estudos em que qualquer fármaco medicamento ou vacina têm se ser sujeitos a este tipo de provação antes de chegar ao público em geral.  Nós não podemos demandar da nossa DGS coisas que não dependem da nossa estrutura. Estas indústrias não ocorrem cá, estes ensaios não ocorreram cá. Temos de olhar para os argumentos científicos internacionais e a partir dos mesmos emitir directrizes direccionadas para essa população.
 
Precisamos de infra-estruturas e espaços seguros, de educação (formar estudantes, profissionais de saúde, internos e especialistas) e de equipas motivadas para trabalhar nesta área.


Do teu ponto de vista, por que motivo não foram feitos estudos suficientes na população trans sob hormono-terapia?  
Não é um problema nacional ou europeu. É um problema internacional. Ainda hoje em dia temos poucas evidências na área da saúde das pessoas trans. E há várias razões para isto ter acontecido. Temos uma história de décadas, décadas e décadas, se não séculos de estigmatização daquilo que é ser transgénero e de não investimento, pelo contrário, de um desinvestimento activo, no sentido que patologizámos durante imenso tempo aquilo que era ser transgénero. Tornando ser transgénero uma patologia não vamos ter estudos sobre estas pessoas, porque é que elas morrem, do que é que elas padecem, etc. Nós "considerámos" que elas eram "doentes" e vamos curar as pessoas para aquela doença que elas teriam. A despatologização é algo relativamente recente. Falo de uma coisa dos últimos 10-15 anos e já estou a ser generoso. Tem sido um boom recente no caminhar da despatologização. O CID-11 foi emitido em 2018 e é a primeira versão de um documento oficial em todo o mundo em que o termo transexualidade desaparece e deixa de ser considerado uma doença, passando a ser uma não congruência de género e passa a estar incluído como uma condição de saúde.  Isto é um espelho e reflexo do desinvestimento e estudos nestas pessoas. Até então nunca ninguém se tinha interessado em perceber qual o risco cardiovascular, risco trombótico, como ajustar a hormono-terapia ao longo da vida, risco de disfunção sexual em pessoas transexuais, sobre patologias em órgãos genitais em órgãos submetidos a cirurgia, etc. etc. Felizmente nos últimos 10-15 anos têm sido feitos alguns estudos e pessoas a trabalhar muito bem nisto. Mas quando se fala em revisões baseadas na evidência e as meta análise de todos os estudos baseados em saúde trans... são ainda escassíssimas.    

Qual é o caminho agora a seguir?
Os eixos prioritários no nosso país são a criação de infraestruturas multidisciplinares para cuidarmos de pessoas trans em segurança. Por exemplo: Uma consulta de ginecologia para homens trans que não ocorra no seio de uma maternidade ou de um ambiente com mulheres cis - o que é um espaço muito desconfortável para um homem trans que tem uma vagina. Precisamos de infra-estruturas e espaços seguros, de educação (formar estudantes, profissionais de saúde, internos e especialistas) e de equipas motivadas para trabalhar nesta área. É nestas três prioridades que deve estar o nosso foco.

Jéssica Vassalo e Paula Monteiro