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Nem na mata se encontram histórias assim

Livro “A Primeira Vez”, Pedro Vidal (2018)

a primeira vez

Em “A Primeira Vez”, primeira obra da colecção policial de Pedro Vidal, o autor convida-nos a entrar na trama ao redor da morte de Carlos Monteiro e da repentina mudança de vida do jovem inspector da Judiciária, Jorge Guerreiro, o herói deste romance policial.

A morte de Carlos Monteiro numa nebulosa madrugada de Abril, em Évora, é o ponto de partida desta estória, no qual o autor nos desperta a curiosidade e imaginação para a resolução de um crime que, logo desde o seu momento inicial, se revelaria um simples caso de vingança conjugal: “Não podes sair impune depois do que fizeste […] Tu é que escolheste”, nas palavras do homicida.
Carlos Monteiro, trigenário, bissexual não assumido, homem da noite é retratado como um homem de duas caras, com uma vida dupla, em que tanto é descrito como sociável, simpático, divertido entre os seus amigos e colegas de trabalho, como pela promiscuidade do submundo gay da cidade de Évora. Entre os encontros nocturnos na mata, da prostituição e do consumo de drogas, dos encontros nas casas de banho públicas, das orgias, da diversidade de parceiros, da preferência por rapazes menores de idade, são inúmeros os cenários que se mostrariam reveladores da causa da sua morte.
A partir de Évora, o autor vai construindo as suas personagens através de estereótipos generalistas, mas que de outra forma criados, dificilmente conferiam real verosimilhança à estória. Começando com a promiscuidade que a vida sexual homossexual é descrita, às expectativas e papeis de género atribuídos aos investigadores, todos masculinos, responsáveis por desvelar este crime, mostrando a típica opinião homofóbica sobre pessoas homossexuais masculinas enquanto indivíduos “depravados”; “anormais” e “inferiores”, assim como a ignorância em trabalhar com pessoas não binárias ou trans.
Parafraseando, como exemplo: “Estão todos a sair do armário, já não o fazem propriamente às escondidas (…) mas tem-me custado tanto falar com os rapazes sobre a relação deles com o morto e ao mesmo tempo fingir que a conversa não me dá asco, náuseas… (…) Não sabia bem como havia de o tratar, se por rapaz, se por Desiré ou Dinis.”
Regressando a Jorge Guerreiro, o jovem inspector de 25 anos que, iria não só solucionar o mistério por trás da morte de Carlos Monteiro, como ser a maior revelação desta estória como o título da obra nos discretamente indica. Jorge Guerreiro, recentemente promovido a Inspector, mostra como traços distintivos o seu empenho, profissionalismo e ambição de carreira, ansiando pela oportunidade certa para mostrar as suas competências. No entanto, ainda que com tamanhas referências, o personagem mostra dificuldade e certo desconforto em lidar com o seu primeiro caso de investigação por força do desconhecimento e falta de preparação sobre questões de género e diversidade sexual.
A forma como este mostra lidar com os temas da orientação sexual, da homossexualidade, “estes paneleiros degradantes”, como descobre a homofobia e mostra trabalhar o seu preconceito machista, revelam não só a grandeza do carácter da personagem principal, predisposto a respeitar a privacidade e identidade de muitos os, entrevistados homossexuais, com uma identidade sexual ainda não resolvida, como pelo realismo e vivacidade que espelham as carências de (in)formação de organismos públicos para as questões de não conformidade de género.
Sobre Jorge: “Agora que ele conhecera em conversa mais intimamente com um homossexual, é que Jorge percebia que os gays eram homens como os outros, e que a única diferença entre os homossexuais e heteros é que os primeiros gostavam do mesmo sexo e os outros gostavam do sexo oposto. E que a homossexualidade não era nenhuma opção de vida, eles não escolhiam de quem gostavam tal como Jorge não escolhera apaixonar-se pelas raparigas erradas na adolescência.”.
Neste livro, de acessível e rápida leitura, sem descurar das necessárias referências que alimentam o género literário, encontramo-nos com o melhor de dois mundos na leitura. Se por um lado nos oferece um momento de lazer pela satisfação em desvelar o enigma do crime, o autor não deixa de mostrar seriedade ao representar certa realidade social premente em Portugal, no que toca às questões de violência de género e sexualidade, nomeadamente em meios geográficos mais pequenos e isolados, nesta nossa contemporaneidade.
Mostrando os desafios e dificuldades associados ao “coming out”, à renúncia da identidade sexual pelo medo da discriminação, da solidão, das diversas formas de violência que as pessoas LGBTI+ estão vulgarmente sujeitas, de um mundo patriarcal onde a figura de poder é assumidamente masculina e machista, recomendo este livro a qualquer leitor que se interesse na desconstrução da binária realidade masculino-feminino, como a todos os que em momento de afirmação identitária descubram que não se encontram sozinhos. Que a diversidade, a diferença, não tenha nada que vos enfraqueça, mas sim que potencialize, que empodere e determine o orgulho individual e colectivo. Uma que desconstrução que a literatura nunca deixou de clarificar e que cada vez mais, dentro deste género, é divulgada no nosso país através de tantos(as) jovens criadores literários reconhecidos.
Concluindo, sobre o desfecho da estória, ainda que previsivelmente feliz como regra geral neste género literário, confesso que não alimentou a expectativa alimentada ao longo da narrativa, mostrando certa celeridade e pobreza criativa do autor no término de um enredo engenhosamente desenvolvido.

 


Ficha de Leitura

Título: A Primeira Vez - Este Caso Vai Mudar Tudo na Vida Dele
Autor: Pedro Vidal
Pedro Vidal, 25 anos, natural de Beja, amante da literatura e da escrita. Desde cedo que se dedica à escrita, nomeadamente à literatura juvenil. Tendo o seu primeiro livro, Roubo no Solar, editado em 2012, desenvolve mais recentemente uma colecção policial no qual “A Primeira Vez” é o primeiro livro. Um autor essencialmente autobiográfico que revela uma escrita penetrante e habilidosa.
Editora: Edições Vieira da Silva
Data de edição: 07-2018
Género Literário: Romance Policial
Páginas: 214
Narrador: Observador
Espaço ou ambiente da Acção: Portugal, Alentejo, Évora



Daniel Santos Morais

 

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