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O festival internacional de cinema queer deste ano no Porto contou com um documentário de Netty van Hoorn, cineasta e produtora holandesa, intitulado “The city was ours. Radical Feminism in the Seventies”.

 

O documentário de 2020 aborda o movimento lésbico na Holanda, como força motriz dentro do feminismo holandês e que entrou com força total na década de 1970. Netty van Hoorn reúne, ao longo de 70 minutos, vários testemunhos de algumas das principais protagonistas da época, nomeadamente Maaike Meijer, Pamela Pattynama, Marjan Sax, Lidi Kleijn, que falam sobre momentos marcantes das suas lutas contra o machismo, o sexismo e a lesbofobia. O movimento lésbico na Holanda esteve na vanguarda de movimentos activistas como Purple September e Lesbian Nation, tendo sido, também, responsável pela abertura de cafés femininos, livrarias, revistas, arquivos, lojas de impressão, um distribuidor de filmes - o Cinemien, pela organização de grupos de consciencialização e várias manifestações. Marjan Sax e outras mulheres foram ainda responsáveis pela fundação de várias organizações feministas, nomeadamente a Fundação Mama Cash, o mais antigo fundo internacional para mulheres do mundo. O documentário oferece, também, um retrato, na primeira pessoa, da ocupação da Embaixada de Portugal em Haia, num gesto de solidariedade e sensibilização internacional relativamente ao caso “Três Marias”, o infame julgamento das autoras portuguesas Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, e Maria Velho da Costa, pelo livro “Novas Cartas Portuguesas”, proibido pelo regime ditatorial.  

 

De facto, este é um documentário que aborda vários aspectos importantes da segunda vaga do feminismo e do denominado feminismo radical. Apesar de se concentrar em momentos concretos passados na Holanda, é possível, através dele, reflectir sobre as lutas contra o machismo e a homofobia, em todo o mundo. Neste sentido, após a visualização do documentário, inserido no Queer Focus, no Porto, seguiu-se um interessante debate com Ana Luísa Amaral, poeta, professora jubilada, pioneira dos estudos feministas e dos estudos queer e com Fernando Cascais, investigador queer. 

 

No momento de debate, houve uma reflexão crítica sobre certos tópicos, nomeadamente a importância que os movimentos feministas tiveram na vida das mulheres, na sua própria felicidade, independência e autonomia, numa altura em que na Holanda, por exemplo, se uma mulher entrasse num café sozinha era mal atendida, mal vista e destratada. Um outro tópico alvo de reflexão foi referente ao livro “Novas Cartas Portuguesas”, que assumiu um papel central na queda da ditadura dirigida por Marcelo Caetano, tendo mostrado ao mundo a existência de situações discriminatórias em Portugal, relacionadas com a repressão ditatorial, o poder do patriarcado católico, a condição da mulher (casamento, maternidade, sexualidade feminina) e as injustiças da guerra colonial. Outro tópico em destaque no debate foi o da reflexão sobre a heterossexualidade compulsória: há um sistema que nos ensina e instrui, desde muito cedo, a ingressarmos num determinado modelo – o heteronormativo. A este respeito, foi referido, por Ana Luísa Amaral, um artigo de Adrienne Rich, feminista radical e activista lésbica, denominado de “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”. Rich pontua, entre várias colocações pertinentes, a presença da marca da dupla subjectividade no corpo político da mulher lésbica: uma mulher, sujeito inferior diante de uma sociedade patriarcal e misógina; e lésbica, numa sociedade que, também, é lesbofóbica e fetichista.

 

No debate, não foi esquecida a crítica de uma das principais protagonistas do documentário “The city was ours. The City Was Ours. Radical Feminism in the Seventies”, ao movimento que ela mesma integrou: a não inclusão de mulheres negras e o erro que isso se constitui. Importa também lembrar que, ao mesmo tempo, nessa altura, outras organizações feministas, compostas essencialmente por mulheres heterossexuais, não se queriam juntar ao movimento lésbico por acreditarem que ficariam conhecidas como lésbicas que odeiam homens. De facto, as lutas nem sempre foram interseccionais e esse é um tópico que merece atenção e reflexão crítica, para que não se cometam os mesmos erros do passado.

 

Como reflexão final, ficou clara a ideia que ainda há muito para fazer, numa sociedade em que nenhum direito pode ser tomado como garantido. De facto, citando o título de um dos livros de Angela Davis: “a liberdade é uma luta constante”.  Para além disso, como Fernando Cascais referiu no final do debate, relativamente à homofobia, esta, actualmente, não é tão declarada como era há uns anos, mas ela existe, simplesmente “a homofobia entrou no armário”, por isso deve ser igualmente combatida.

 

Sara Lemos