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M3DUSA é o trio de DJs que está a trazer ao lazer nocturno vozes femininas e queer.

M3dusa trio dj

“Ao contrário do que algumas pessoas acreditam, o universo musical e artístico feminino e queer é riquíssimo e diverso” M3DUSA é o trio de DJs que está a trazer ao lazer nocturno vozes femininas e queer.

“Let us all shake our feminist booties”, lê-se na biografia do Instagram das M3DUSA, trio de DJs que anima as noites com protagonistas femininas ou queer. Celebrando a diversidade, resignificam a figura mitológica da Medusa como um poderoso símbolo da força feminina e também da sua opressão. 

Fica a conhecer na primeira pessoa este projecto a três, criado em 2019, e que tem enchido espaços da noite e espaços digitais com música no feminino e temas feministas.

 

De onde surgiu o trio M3DUSA e o que vos motivou a iniciar este projecto conjunto?

As M3DUSA nasceram no verão de 2019, quando nos juntámos para pôr em prática uma ideia que, na verdade, já tínhamos tido em paralelo, mesmo sem termos falado umas com as outras sobre isso. Como cada uma de nós adorava música e acompanhava as tendências e artistas emergentes do meio, mas também éramos as três conscientes e preocupadas com os debates feministas, dentro e fora da indústria musical, decidimos formar um projecto de DJing que tomasse uma posição política e social: a de animar as pistas de dança, pela noite dentro, só com música produzida, cantada ou com a participação de artistas musicais femininas e pessoas queer ꟷ mulheres trans, femmes e pessoas não-bináries?

Foi assim que surgiram as M3DUSA, um trio que tem como grande objectivo o de combater a tendência generalizada que existe em programar maioritariamente DJ masculinos ou passar sets formados principalmente por artistas masculinos na maioria das discotecas e espaços nocturnos em Portugal. Abraçámos, então, a missão de dar a conhecer sets exclusivamente femininos e queer, atirando, durante toda a noite, banger atrás de banger da autoria criativa e artística de mulheres, pessoas trans, queer e não-binárie, mostrando, ao do que algumas pessoas acreditam, que o universo musical e artístico feminino e queer é riquíssimo e diverso.

M3dusa

 

O nome do colectivo remete para a figura mitológica da Medusa, alvo de inúmeras reinterpretações e apropriações. De que forma a figura da Medusa se enquadra neste projecto?

A Medusa é uma figura mitológica feminina da Antiguidade Clássica que é vilanizada nos textos clássicos, escritos por homens, mas também a posteriori. A História da Arte dos séculos seguintes contribuiu para a imagem que temos hoje da Medusa: uma mulher monstruosa, boquiaberta e de olhos esbugalhados, com uma expressão aterradora distorcida pela ira. Cremos que este processo de vilanização das mulheres continua a ter muita força nos dias de hoje e que a ira das mulheres permanece diabolizada. A maneira como a comunicação social, espelho da sociedade, retrata mulheres opiniões fortes e vocais como Joacine Katar Moreira, Mariana Mortágua, Hillary Clinton, Greta Thunberg ou Serena Williams é análoga à imagem que foi construída da Medusa. Se procurarmos no Google, verificamos que todas as fotografias mais mediatizadas destas mulheres acabam por torná-las uma espécie de Medusa. 

Por isso, revisitámos as narrativas mitológicas da Medusa e descobrimos que esta personagem foi uma mulher vitimizada pela violência machista, seja esta uma interpretação moderna ou não. Medusa era uma mulher belíssima, sacerdotisa num templo, que se envolve com Poseidon. A deusa Atenas, vinga-se de Medusa, transformando-a num ser monstruoso, feio, com cabelo de serpente, e Medusa isola-se do mundo numa gruta, onde acaba assassinada por Perseu, transformado no herói desta história que faz da sua cabeça um troféu. 

É uma história simbólica familiar a muitas mulheres, que veem na Medusa o protótipo da mulher que, apesar de vítima, é tornada a vilã de uma história, e a sua decapitação é, também, bem ilustrativa de como a autoridade masculina reage à agência feminina.

É uma história simbólica familiar a muitas mulheres, que veem na Medusa o protótipo da mulher que, apesar de vítima, é tornada a vilã de uma história, e a sua decapitação é, também, bem ilustrativa de como a autoridade masculina reage à agência feminina.

Tendo tudo isto em conta, decidimos avançar com o nome e a figura da Medusa como o símbolo da nossa luta para tentar, de certa forma, desmistificar a sua figura e para reverter a sua história como uma figura feminina poderosa. 

 

A luta feminista é nitidamente central na vossa comunicação (por exemplo no podcast e nas redes sociais). De que forma transparece também na vossa produção artística?

A maneira mais directa e imediata de manifestarmos essa posição feminista no nosso projecto é a de dedicarmos todo o nosso set à passagem exclusiva de músicas de mulheres e pessoas queer, no qual incluímos algumas faixas assumidamente politizadas e de discurso inequivocamente feminista. Gostamos de passar hinos como "100% Feminista" da MC Carol, "Ni Una Menos" de Chocolate Remix, "U.N.I.T.Y" da Queen Latifah, "A Woman is a God" de Tommy Genesis ou "Miss Beleza Universal" de Doralyce. Desta maneira, animamos a pista de dança, mas também marcamos o tom político ao longo da noite. 

Além disso, desde o início do projecto que pensamos noutras maneiras de contribuir para causas feministas: lançámos um podcast intitulado "Mulher PodeCast", que consistiu na realização de oito episódios, com a participação de nós as três, dedicados a temas diferentes ligados ao feminismo, como a menstruação, os padrões de beleza, os direitos LGBTQIA+, o assédio e a violência sexual, a história do feminismo e da interseccionalidade, entre outros, e organizámos dois eventos chamados “Mulher Pode” dedicados ao Dia Internacional da Mulher, o primeiro em 2020 e o segundo em 2022.

O primeiro evento, organizado na Central Gerador, contou com a jornalista Núria Pinto, a fundadora do Village Underground, Mariana Duarte Silva, a vocalista AMAURA e a produtora e beat-maker Trafulha numa conversa sobre o lugar das mulheres na indústria musical. Também convidámos para esta edição a artista plástica Mariana Simão e a realizadora Leonor Bettencourt, que exibiu uma curta-metragem da sua autoria.

Na segunda edição do "Mulher Pode", desta vez feita na Cervejaria Dois Corvos, em Marvila, tivemos a honra de convidar alguns projectos criados por mulheres, como as No Soy Tu Baby, a It’s Okay Store, a livraria Greta e a tatuadora Erica Doo (Doo Stuff). Para enriquecer ainda mais o dia, falámos com as poetas Gisela Casimiro e Alice Neto de Sousa para declamarem algumas das suas criações e ainda trouxemos a DJ e activista Sandra Baldé para um set super animado, antes da actuação das M3DUSA.

Medusa música

 

Durante o ano de 2021, concluíram a primeira temporada do Mulher PodeCast e estrearam-se em vários espaços de lazer nocturno prestigiados. O que reserva o futuro deste projecto?

O futuro passa por continuarmos a aprender e a ganharmos cada vez mais consciência sobre causas sociais importantes, continuarmos a questionar, a não nos calarmos e a lutarmos por aquilo em que acreditamos. Queremos continuar a fazer DJ sets pelo país, expandindo-os, idealmente, para outras áreas além de Lisboa e Porto e queremos manter este projecto em crescimento e realizar mais eventos culturais ligados a outras áreas além do DJing. Também desejamos muito trabalhar cada vez mais com outres artistas e, em conjunto, contribuir para espaços que sejam mais inclusivos e representativos. 

Gostaríamos ainda de avançar com uma segunda temporada do Mulher PodeCast. Tendo consciência de que somos três mulheres brancas, cisgénero e heterossexuais de classe média, estabelecemos que seria importante dar continuidade à primeira temporada do podcast, abrindo agora uma segunda série de episódios que contará com a participação de mulheres e pessoas queer que possam falar acerca das suas experiências. Afinal, por muito boas intenções que tenhamos e por muito que nos informemos sobre certos temas, que capacidade real é que cada uma de nós tem para falar sobre a realidade de uma mulher trans, uma mulher negra, uma mulher com deficiência física, uma mulher imigrante, uma mulher idosa, uma mulher pobre? Por isso, achamos que o lugar de fala e a consciência é fundamental, e que o feminismo tem de ser interseccional, e queremos mesmo avançar com uma segunda temporada do podcast que tenha contribuições mais significativas de pessoas dessas comunidades.

 

Conhece o trabalho das M3DUSA aqui:

Set Village Underground

Turbo Sessions 

 

Crédito das fotos: Guilherme Heneni

Entrevista de Cláudia Almeida