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Papéis de género e masculinidade tóxica: por uma comunidade gay menos misógina, excludente e opressora

luís lopes pinheiro masculinidade tóxica

Expressão e papéis de género é um assunto bastante discutido actualmente, mas que, infelizmente, ainda causa muita confusão. Neste artigo vou tentar, brevemente, clarificar esse assunto e trazer algumas notas para posterior reflexão.
 
Vamos pensar numa questão básica, mas que é bastante explicativa: actualmente, nas sociedades ocidentais, a cor azul é associada aos meninos, mas sabiam que no passado já foi atribuída às meninas como sinal de pureza e castidade?
Da mesma forma, o que significa ser mulher hoje em Portugal pode ser bastante diferente daquilo que é socialmente esperado na Arábia Saudita, não é mesmo?
Assim, é importante compreender que os papéis e as normas de género variam de cultura para cultura e são vigentes num determinado período temporal. 
O mesmo podemos dizer relativamente às normas sociais atribuídas às pessoas do género/sexo masculino ou feminino. Existe uma expectativa social em relação ao comportamento de homens e mulheres que faz com que sigamos determinados padrões previamente impostos para que sejamos positivamente avaliados e, assim, considerados aptos a pertencer ao grupo masculino ou feminino, sob uma lógica equivocadamente heteronormativa e binária, mas que ainda é, infelizmente, a predominante. 
Em Portugal, assim como nas sociedades influenciadas pela cultura judaico-cristã (sobretudo aquelas cujas sociedades são baseadas nos valores “ocidentais”), é imputado aos homens, sejam héteros ou não, a expressão de um conceito de masculinidade que está ligado a traços agressivos, competitivos, homofóbicos, sexistas e misóginos. Esse conjunto de características irá se traduzir naquilo que conhecemos por masculinidade tóxica.
Assim, a masculinidade tóxica assenta nos pressupostos de uma cultura patriarcal, onde características associadas à feminilidade são analisadas como sendo inferiores às características associadas à masculinidade.
A masculinidade tóxica assenta nos pressupostos de uma cultura patriarcal, onde características associadas à feminilidade são analisadas como sendo inferiores às características associadas à masculinidade.
Quem nunca ouviu frases do tipo “homem não chora” para reprimir uma expressão natural de uma emoção?
Se essa forma de masculinidade tóxica acarreta dificuldades de processamento emocional aos homens heterossexuais, aos homens gays (ou bissexuais) existe uma proporção ainda maior. Homens que têm uma orientação sexual diferente da heterossexual sentem, muitas vezes, de forma consciente ou não, que possuem uma espécie de dívida com a sociedade. Consequentemente, tentam se mostrar que são “tão homens quanto” os heterossexuais. Assim, acabam por replicar comportamentos baseados na masculinidade tóxica.
Desse modo, não é raro encontrar homens gays que admiram e valorizam exactamente as mesmas características que geralmente os oprimem: padrões de beleza normativa, corpos musculados, roupas e características masculinas exacerbadas, assim como também se tornam opressores ao inferiorizarem homens com uma expressão de género mais feminina e ao replicarem discursos misóginos relativamente às mulheres.
Homens que têm uma orientação sexual diferente da heterossexual sentem, muitas vezes, de forma consciente ou não, que possuem uma espécie de dívida com a sociedade.
Portanto, o que os homens gays e bissexuais precisam perceber é que tais comportamentos baseados na masculinidade tóxica levam a um caminho de opressão e de exclusão, onde a pressão socialmente exercida gera uma maior experienciação de emoções negativas como a frustração, a raiva, a angústia e, consequentemente, poderá levar ao desenvolvimento de perturbações de humor, de ansiedade, assim como de outras perturbações mentais.  
Caso já tenha se sentido mal por não querer fazer algo que seja normalmente atribuído ao género masculino (como jogar futebol), que não devia gesticular tanto quando fala, que não compra uma peça de roupa porque é demasiado feminina, ou se ridiculariza outros homens por terem uma expressão de género mais feminina, talvez seja a altura de começar a reflectir melhor sobre as suas atitudes. Numa sociedade que produz tudo em série, a autenticidade passou a ser um luxo. Mas é possível sim reflectir e se desligar da pressão que a sociedade coloca em si. Caso não consiga realizar esse processo sozinho, é fundamental procurar auxílio de uma pessoa formada em psicologia, sobretudo de alguém que perceba sobre identidade e expressão de género e que tenha uma abordagem afirmativa do ponto de vista da orientação sexual.
 
Luís Lopes Pinheiro
Psicólogo Clínico, Especialista em Sexologia e Militante LGBTQIA+